quarta-feira, agosto 25, 2010

São coisas que acontecem

Há uma evidente irracionalidade nestes momentos vividos pela nossa sociedade. Até as férias são exemplo disso, quando se tornam mais cansativas e para as pessoas no regresso a casa aumenta a irritação, o antecipar do Outono em coisa cada vez pior.
É no final das férias que as crises familiares se acentuam. Felizmente o início do futebol salvador foi antecipado nos últimos anos. Na obrigatoriedade das festas que na Gândara começam com a Expofacic e terminam com a festinha da terra, estas que já estão a perder a pouca graça que tinham, encontramos o Verão cada vez menos estival e mais automobilista a aproximar-se para um Outono cada vez mais deprimido.
Os noticiários televisivos, formatados, repetem-se de ano para ano desde os fogos até às contratações do Benfica.
Durante este tempo dito de férias fui umas cinco vezes, se tanto, ao areal da praia da Tocha, e este estava pejado de beatas de cigarro e cagalhões de cão. O civismo não funciona e ao fim da tarde uma fila de automóveis entupia a estrada, a debandada diária.
Fujo deste tempo de um dia atrás do outro e igual aos anteriores. Fujo de um calendário moldado pelas férias. Aguardo a salvadora chuva de Outono que trará consigo a lavagem deste ar.
São coisa que acontecem.

segunda-feira, agosto 23, 2010

A Silly Season possível.

Não senti quaisquer resistências para reinício do trabalho após período chamado de férias. Um sinal que o tempo passado foi de descanso físico e nem só, dedicado à gastronomia e sua confecção, quase sempre peixe grelhado, daquele fresquinho que a sorte me tem servido de coisas simples e pequenas sem as frivolidades da chamada Silly Season.
Um tempo usado para manter os contactos profissionais e projectos em curso, pois do outro lado não estão de férias, ou melhor, colocam-nos a trabalhar e vão de férias logo a seguir, assinar a escritura de permuta de terrenos entre a Associação do Escoural e a Câmara Municipal de Cantanhede, uns curtos passeios pela Borda do Mar, e de vez em quando de estudo da peça Flores em Abril do mestre Octávio Sérgio.
Na Praia da Tocha, onde assentei arraiais, ainda falta a conclusão dos nove apoios de praia no âmbito do Plano de Ordenamento Costeiro, aprovados por unanimidade pela Câmara Municipal Cantanhede em 2001, assim como a conclusão do hotel de cinco estrelas aprovado faz tempo, cujo terreno já atribuído pela Câmara ainda há mais tempo, segundo dizem.
Devido ao aquecimento global vender nevoeiro ensacado será um bom negócio.

terça-feira, julho 27, 2010

Leitura para as férias

O peido que a nêga deu quase não passa no cu
A nêga tinha comido
Da panela de um cigano
Pimenta, sebo e tutano
Cebola e peba dormido
Foi tão grande o estampido
Que se ouviu no Pajeú
Toda praga de urubu
Da caixa prego desceu
O peido que a nêga deu
Quase não passa no cu
Na fazenda Gado Brabo
Num casamento que havia
Comeu tanto nesse dia
Mocotó, feijão, quiabo
Meia noite abriu do rabo
Defecando o que comeu
Toda prega se rompeu
Na porteira do baú
Quase não cabe no cu
O peido que a nêga deu
Quando o peido quis fugir
As tripas se revoltaram
E o cu do peido vedaram
Para o peido não sair
O peido não quis pedir
Mas o cu se arrependeu
O peido inchou e cresceu
Do jeito de um cururu
Quase não cabe no cu
O peido que a nêga deu
cu seboso e vagabundo
O peido tinha razão
Um fundo fazer questão
De um peido passar no fundo
Mais veloz como um segundo
Esse peido endoideceu
Fez finca-pé no "suru"
Quase não cabe no cu
O peido que a nêga deu
Depois da grande explosão
A nêga se aliviou
A meninada apanhou
"Caco" de cu pelo chão
Pano de fundo e botão
Caroço e casca de umbu
Uma chibata de angu
Do entre perna desceu
O peido que a nêga deu
Quase não passa no cu
Não foi brincadeira não
Quando o rabo estremeceu
O peido que a nêga deu
Ribombou como um trovão
Ela firmou-se no chão
No tronco de um mulungu
Levantou o mucumbu
Abriu a tripa gaiteira
Quando o peido fez carreira
Quase não passa nu cu
Ela não tem cerimonha
De peidar seja onde for
Me disse Joaquim, senhor
Que essa nêga senvergonha
Viciou-se na maconha
Mocotolina e pitu
Bebe mais do que timbu
No samba de Zé Bedeu
O peido que a nêga deu
Quase não passa no cu
Quase não pode passar
O chefe da caganeira
O peido encontrou barreira
Deu vontade de voltar
Pois quem quer se libertar
Enfrenta até canguçu
Depois do maracatu
A dona do cu gemeu
O peido que a nêga deu
Quase não passa no cu
Eu não conheço valente
Por muito brabo que seja
Que não peido na peleja
Vendo o perigo na frente
Com o medo que a gente sente
Mais ligeiro o peido vem
Empurrado por xerém
Cebola, feijão, quiabo
Dizer na porta do rabo
O valor que o peido tem
No mundo não há ninguém
Pra saber mais do que eu
O valor que o peido tem
E o peido que a nêga deu
A nêga peidou peidou num trem
Que ficou de bunda pensa
Um nêgo pediu licença
Soltou um peido também
A nêga disse meu bem
peido grande só o meu
Vale por trinta do teu
Peidei melhor do que tu
Quase não cabe no cu
O peido que a nêga deu
Assim que o peido passou
Fez a nêga uma careta
A bunda ficou mais preta
O cu abriu-se e fechou
Um chifrudo perguntou
O que foi que aconteceu?
Um veado respondeu:
Ainda não sabes tu!
Quase não cabe no cu
O peido que a nêga deu
O peido é coisa comum
Chega para todo mundo
Mas de não passar no fundo
Talvez não haja nenhum
Quando a nêga soltou um
Fedendo a defunto nu
Não escapou urubu
Quem tinha venta perdeu
O peido que a nêga deu
Quase não passa no cu
peido não sabe o que faz
É comum cego sem guia
Quase o peido não saía
O volume era demais
Para passar por detrás
Foi tão grande o sururu
Entre castanha e caju
O caju foi quem venceu
O peido que a nêga deu
Quase não passa no cu
Assim que o peido gritou
Na chapeleta do fundo
Na quadratura do mundo
A voz do peido estrondeou
Velho Amazonas deixou
De lutar contra o Xingu
A preta cor do muçu
Disse ao peido o mundo é teu
O peido que a nêga deu
Quase não passa no cu
Se famoso quis ficar
Dante sofreu na comédia
Shakespeare, na tragédia
Camões em gôa a nadar
Teve Homero de cantar
Os feitos da raça grega
A que ponto o mundo chega
Um peido eterno ficou
Depois que imortalizou
Uma nêga e o cu da nêga
(Otacílio Batista Patriota )
Poeta repentista, nasceu a 26 de setembro de 1923, na Vila Umburanas, São José do Egito, sertão pernambucano do Alto Pajeú.

De boas intenções está o inferno cheio

Ouvi a notícia que a Segurança Social vai cancelar o apoio aos beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI), entre os 18 e os 55 anos, que recusem "emprego conveniente", trabalho socialmente necessário ou propostas de formação.
Espero para ver se o Poder Local que com eles negociou o Rendimento Mínimo terá a capacidade de os colocar a trabalhar, ou se estes só aparecerão a limpar umas valetas e a alindar rotundas uns meses antes das eleições Locais, tal qual aconteceu há um ano atrás.
Uma parte da pobreza em Portugal anda de mão dada com a falta de vontade de trabalhar, isto é a falta de princípios éticos que encontramos até na gabarolice no dizer publicamente quanto recebem. Há grupos sociais onde uma boa parte dos seus membros nunca chegam a trabalhar em toda a sua vida, vivendo de expedientes, onde o Poder Local pratica um negócio de caridade e troca de votos. Pior ainda, dá-se azo a que encontrarem excelentes soluções para viverem à custa dos que trabalham e que, não raras vezes, ganham menos do que eles.
Temos por esta Gândara desse pobres que são verdadeiros novos-ricos ao pé de outros pobres que não tendo a etiquetas de pobre, trabalham e os sustentam.
De boas intenções está o inferno cheio.

sexta-feira, julho 23, 2010

Leis Universais para Engenheiros Ingénuos

Leis Universais para Engenheiros Ingénuos do Comité de Recomendações Práticas da Sociedade Internacional de Engenheiros Filósofos.
1. Em qualquer cálculo, qualquer erro que se possa introduzir, introduzir-se-á.
2. Qualquer erro em qualquer cálculo irá na direcção do maior dano possível.
3. Em qualquer fórmula, as constantes (especialmente as que se obtêm nos manuais de engenharia) devem ser tratadas como variáveis.
4. A dimensão mais vital de qualquer plano ou desenho é a que tem mais probabilidades de ser omitida.
5. Se apenas uma requisição puder ser assegurada para qualquer projecto, o preço estará para além do razoável.
6. Se uma instalação de teste funcionar perfeitamente, toda a produção de unidades subsequentes funcionará mal.
7. Todas as promessas de entrega devem ser multiplicadas por um factor de 2.0.
8. As maiores alterações ao produto serão sempre requeridas quando o fabrico estiver quase concluído.
9. As peças que pura e simplesmente não puderem ser montadas pela ordem errada, sê-lo-ão.
10. As peças intercambiáveis, não o serão.
11. As especificações de desempenho do fabricante devem ser multiplicadas por um factor de 0.5.
12. As especificações anunciadas pelos vendedores devem ser multiplicadas por um factor de 0.25.
13. As instruções de instalação e de operação enviadas com o aparelho serão imediatamente deitadas fora pelo Departamento de Compras.
14. Qualquer aparelho que exigja reparação ou manutenção será o menos acessível de todos.
15. As Condições de Assistência Técnica mencionadas nas especificações serão sempre ultrapassadas.
16. Se mais de uma pessoa for responsável por um erro de cálculo, ninguém terá a culpa.
17. Unidades idênticas que passaram com os mesmos resultados nos testes não se comportarão de forma idêntica quando em campo.
18. Se, na prática da engenharia, um factor de segurança for definido por meio da experiência do serviço a um dado valor, um tolo engenhoso calculará imediatamente um método para exceder o factor de segurança mencionado.
19. As cláusulas de garantia perdem a validade contra o pagamento da factura.

segunda-feira, julho 19, 2010

O Ladrão e o Cão da Casa

Querendo um Ladrão entrar em uma casa de noite para roubar, achou à porta um Cão, que com ladridos o impedia.
O cauteloso Ladrão, para o apaziguar, lhe lançou um pedaço de pão.
Mas o cão disse: Bem entendo que me dás este pão por que me cale, e te deixe roubar a casa, não por amor que me tenhas: porém já que o dono da casa me sustenta toda a vida, não deixarei de ladrar, se não te fores, até que ele acorde, e te venha estorvar. Não quero que este bocado me custe morrer de fome toda a minha vida .
(Furtado por aí)

terça-feira, julho 13, 2010

O deserto da Gândara

O deserto existe e avança aqui na Gândara.
Não é uma questão de mais ou menos chuva, de mais ou menos Inverno, pois só pelo facto do lavadouro da Ti Esquina Santa estar cheio de água em pleno Maio como este ano esteve, não foi o agravar da desertificação da Gandara adiado por mais um ano.
A desertificação da Gândara não se tem limitado à degradação dos solos com a destruição das dunas, que podemos ver nos mapas do Google, ao entulho espalhado a esmo que um dia de limpeza folclórica não resolve e só serviu de lavagem consciência do tipo ida á missinha, nem à degradação estritamente ambiental e geográfica, mas sim a grande parte do território gandarês e sua população activa que foi deixada ao abandono. Um mundo rural excluído da Política Agrícola Comum, definhado, resultado das negociações e gestões de ajuda comunitárias, a subsidio-dependência, tal qual todo o País Rural.
Para a Gândara rural, excluída da “agricultura moderna”, nem restou a criação de porco e galinha, ou a continuação do cultivo da horta. A floresta, parte integrante do processo agrícola gandarês, foi abandonada, estando em final de linha o seu conceito tradicional de propriedade. Galifões já estão a afiar o dente e o moto serra para abocanharem uma das poucas riquezas da Gândara, que é o uso da terra, pagando tuta-e-meia ao proprietário, sempre acenado com a bandeira de investidores e criadores de riqueza.
Existirão saídas minimamente airosas que venham a contrariar estas previsões tão negras?
Direi que sim, que são várias as saídas, mas muitos mais serão os caminhos que os gandareses terão de buscar.
Mas é preciso alertar para os cantos de sereia dos que se tem governado e se vão governando, e dos que se preparam para dar a golpada com o afunilar do quanto pior melhor que vai aplanando os caminhos dos salvadores, esses esfomeados sem Ética.
Hoje, apesar do sol, ando com nuvens negras!

segunda-feira, julho 12, 2010

domingo, julho 11, 2010

A Guitarra e o Músico

Mestre Paulo Soares abraça a Guitarra de mestre Alves André.

sexta-feira, julho 09, 2010

Tapar e encher

(roubado a autor identificado)
Há uma enorme diferença entre tapar o buraco e encher o buraco. Para encher o buraco era necessário primeiro tapar o dito, e do fundo da gamela muitos chupam. Lá no fundo escuro há muitos que não querem e não deixam ver os tubos ladrão que por lá existem.
O chamado crescimento do PIB não é só por si uma saída airosa.

quarta-feira, julho 07, 2010

Ir à bosta com um cesto

Rimar trabalho com orvalho será uma saída quando se fala para não dizer nada, enquanto se anda à bosta com cesto neste tempo de vender tudo, até a mãe se derem dinheiro por ela.
Quem irá segurar nas asas do cesto que transporta a moinha serão os mesmos de sempre, pois é à moinha que vamos cantando e rindo, a caminho do céu desse deus mão invisível que acena com crescimentos e ganhos para todos, mas que será só para os eleitos.
Ir à moinha foi prática na Gândara até às décadas de sessenta e setenta do século passado. Constava na recolha manual da bosta largada pelo gado ao longo dos caminhos. Foi um produto valioso para a fertilização das finas e pobres areias gandaresas. Ir à merda com um cesto foi prática que deu proveitos imediatos para a produção de riqueza local.
Na Gândara, bosta foi um símbolo de riqueza. Daí a célebre frase de ter mais dinheiro que merda.

terça-feira, julho 06, 2010

Pois!

quarta-feira, junho 30, 2010

Nabos em dia de marchas

Nabos em dia de marchas.
A guitarra também serve para tocar nas marchas de S. João.
(recebido por email)

terça-feira, junho 29, 2010

Parabéns ao Mário da Orima

Mário de Almeida, um gandarês empreendedor.

segunda-feira, junho 28, 2010

Tertúlias

(foto de Paulo Tavares)

Verdade de Cavaco está no site de Belém

(Roubado no GoisArte-2007 )

Todos cheiraram o conteúdo do pote e pelo cheiro que exalava do seu interior concluíam que era verdade o que lá estava.

quinta-feira, junho 17, 2010

terça-feira, junho 15, 2010

Um Festival de Guitarras

José Alegre e João Cuña .
Entre laços e nos braços de uma nova Guitarra Portuguesa, Óscar Cardoso lancçou a sua Guitarra Portuguesas no Festival Guitarra Portuguesa- Algarve 2010
http://www.facebook.com/photo.php?pid=362954&id=113432662001428&ref=mf

quarta-feira, junho 09, 2010

Chove no Escoural

A maior parte do mundo rural português, e a Gândara em especial, está ao abandono e excluída da Política Agrícola Comum, desenhada para a agricultura de só de alguns, designadamente a França.
Quem mais voto recebeu e recebe do meio rural mais esqueceu e esquece os excluídos da “agricultura moderna”.
É que chove no Escoural e aqui chuva de S. João não dá vinho nem dá pão, o que também não é assim tão importante, pois é só ir ao Intermarché.

terça-feira, junho 08, 2010

Guitarras de Faro

http://www.guitarraportuguesa.org/index.php?option=com_content&task=view&id=135&Itemid=204

segunda-feira, maio 31, 2010

quarta-feira, maio 26, 2010

As três onças de tabaco

Todo o areal, daqui do Monte do Cabeço até ao mar, estremece debaixo da forte chuva batida por uma trovoada que larga e queima enxofre, rasgando o ar abafado da noite quente de Maio. As fortes gotas de água caem como ovos de passarinho tombados do ninho do alto pinheiro desfazendo-se em chapadas, laradas de água ao baterem no chão de areia. Um cheiro a terra levanta-se no ar ao encontro do cheiro a queimo relampejado que vem de cima. O Diabo rola pedras pelas Marranhuças abaixo até à Lagoa do Frade onde a dança das bruxas se prepara para a noite de amanhã. Amanhã será o dia delas. Hoje, o Chifrudo rola as pedras de enxofre, muda o inferno de sítio pondo todos os diabos, diabinhos e almas penadas em polvorosa. Dos lados do Caramulo e do Bussaco da Alcoba, o Surrão Negro rasga granito e fende as rochas com as unhas em casco. Já devem escorrer águas barrentas para os lados de Barris, um mau sinal para o vinho deste ano. Ele se suma, que vá fazer mal para bem longe daqui, pois não é só aqui que há almas para atentar. Ele que vá para longe, para muito longe, onde também terá muitas almas dos muitos hereges que por lá andaram e moraram para apoquentar. Ele se suma, que vá para longe!
É a noite dele. Todos os diabitos andam por aí à solta a chapinhar nas poças de água que se quedam sobre a areia que já estava seca pelo sol quente e seco da tarde, rindo do medo dos homens e dos animais. O final do dia estava a ser preparado para a passagem do Malino com seu séquito infernal. Os Astros estavam a avisar, com o ar quente de faiscar, sem vento, pardo, de sol a fugir para trás das Baleiras do Mar. Relâmpagos rasgam o véu da noite em estardalhaços estrondosos, medonhos, que levam as fendas do céu a escorrer água a cântaros. Tudo estala com o rolar, noite abaixo, das demoníacas pedras. Os diabitos ainda tentam imitar o Pai das Moscas, com pequenos estrondos ao longe de vez em quando, e às vezes de seguida, ele marca a sua presença de chefe, estalando as pedras de enxofre. Estrondos e mais estrondos, até que o chinfrim infernal pára. Haja quem mande nos Astros! Às crianças, diz-se que é Deus Nosso Senhor a ralhar dos pecados que as pessoas fizeram, e que Santa Bárbara os protege dos pecados infantis se eles queimarem um pedaçito do ramo benzido na missa de Ramos. A verdade que não se conta às crianças, para que elas não fiquem com medo, é a luta celestial do Diabo a mudar o Inferno de um lado para o outro com armas e bagagens, com tudo, pois Deus quando criou o Mundo criou tudo. Se existe o bem, existe o mal e todos os Espíritos que nós nem imaginamos, nem poderemos imaginar e saber que há por esse Mundo fora. De vez em quando um ou outro diabito mais distraído ainda estala um outro calhau relâmpago. Talvez estivessem distraídos e não ouvissem a voz de comando para terminar com o chinfrim infernal ou então é só mesmo para infernizar ainda mais a cabeça ao Diabo.
Os dois enormes pinheiros mansos, negros de verde, estão a escorrer água pelos troncos abaixo, mesmo depois da chuva dos trovões já ter passado. Houve um curto momento em que por toda a noite era raios e coriscos com o Inferno a passar pelo Mundo, desde as serras até ao mar, passado pelo ar que se respira. Já passou!
A baleira sobe a pique. Tanto é a pique que para passar para o outro lado será melhor dar a volta, por acolá ao longe, de tão adonairada e enorme que está do vento que a arrastou. A baleira está diferente desde a última vez, está mais alta, mais a pique, mas dentro de algum tempo, com o vento mareiro e invernias húmidas cheias de friagem, mudará mais para terra, num lento e destruidor arrastar de grãos de areia. Um a um, eles mudam de sítio, ora estão no cagulo, ora no fundão. A baleira foge do mar, bem para longe, atulha corgos frescos cheios de relveiros e abafa os poucos pinheiros teimosos que se retorcem das chibatadas da aragem salgadiça. Quem semeou os pinheiros que estão a ficar enterrados pela baleira? Ninguém!
É grande a baleira, lá isso é, mas não tão grande como uma marranhuça. Dizem que as Marranhuças já foram maiores! Até dizem, que do lado da terra, a lagoa baixa, aquela que está cheia de enguias doiradas que escorregam no fundo branco mostrando o ventre amarelo, foi em tempos funda e grande, um mar! Para as apanhar é só empurrá-las para a praieira. São escorregadias as enguias, até se enterram areia adentro, mas não escapam à perícia de arranjar iguarias, como bem sabeis.
A lagoa baixa ensopa a base das Maranhuças. Um desmoronamento de areia da base e outra que o vento leva consigo, enche-a com a passagem do tempo, torna-se cada vez mais baixia. Assim a lagoa vai ficar cheia de areia! Para onde irão as enguias? Não sei, mas elas lá saberão. No último Inverno a água foi tanta que rompeu tudo em corgo, e até o Covão de Baixo ficou uma lagoa. Sim, pois foi assim. Olha que tem muita água funda e agora está cheia de enguias! Estou a falar da Lagoa das Enguias lá perto da malhada do Agarrochal. Vamos até lá e esperar do lado de fora da malhada. Pois!
Esta areia toda donde vem? Do mar, só pode! Mas às vezes o mar leva-a outra vez de volta, vem buscar o que é seu entrando terra adentro. Ele está no seu direito, pois toda a areia que vês é dele. Ele a dá, ele a tira. É o vento que lhe a rouba e quem a cerca é o Cimo do Cabeço. Cerca!? Cerca mas não toda, pois o vento ainda a leva mais para dentro de terra. Quem a tem cercado bem tem sido a Serra de Quiaios. Essa areia que está mais para dentro já não é assim tão estreme, já é uma terra melhor. Os donos dela são ricos, enquanto nós aqui é o que se vê, com tanta areia assim tão estreminha que para nada serve. Claro que serve, serve para escavares no fundo da baleira e beberes água da boa. Mas vamos até à malhada antes que outros cheguem primeiro que nós! O gado está na hora da sesta, está a resmoer, e o Tanoco já deve estar a ressonar tão alto que nem o gado resmoe descansado. Como é que ele tem assim tão bom vinho? Não sabes que ele comprou uma vinha nos Barris? O Tanoco é mesmo rico. Ele tem este gado todo e vende a bom preço a bosta que lhe cabe do lado de dentro da malhada. Agora come com cada cova de batatas assadas! O Tanoco conta as batatas que coloca a assar na cova e depois não deixa uma sequer. Tira-as todas doiradinhas a preceito, e se lhe faltar alguma, com o pau de as virar corre o fundo da cova toda em ziguezagues até ela aparecer. Nenhuma apanha areia, muito menos maricato. É um artista a assar batatas na areia, o Tanoco. Um artista a assar e a comer. Regala-se, deita-se e ressona, mas continua sempre o mesmo Tanoco. A riqueza não lhe subiu à cabeça, mas sim à barriga. Não o acordes, que ele quando acabar de dormir a sesta, por ele, poderá dar-nos meia caneca de vinho.
Descem a baleira e sentem o quebrar verde dos conchelros debaixo dos pés. Hoje carregarão os cestos da moínha para o monte maior. Amanhã será o dia de aproveitar o regresso a casa do carreto do mato para a sementeira do pinhão.
O pagamento é à quinzena. Uma carrada bem calcada, com a ajuda do subtil e treinado trabalho da machadinha, dá duas na folha dos apontadores. Claro que só um tolinho desprezará o trabalho do menino ou do velhinho, e este bom dinheiro dava o luxo de ter uma conta corrente no livro da loja do Português.
O acordo de cavalheiros de palmo e meio funcionava, entre eles, “ambos os dois”, tinham acordado na técnica do repartir carradas, de duas fariam cinco. Esta última não era declarada aos pais por estes novos comissionistas misseiros sabidos, de palmo e meio, que se sentiam bem e senhores do seu nariz, com modos e confiança perante os mais velhos, quando passavam com cada uma das carradas em frente dos poderosos e respeitados apontadores.
Os dois apontadores, lado a lado, soberanos, exibindo os bastões do poder da escrita, registam o número das carradas de mato que irão a colocar sobre a sementeira do pinho, um rego enorme no comprimento, um carreiro de formigas de mulheres de negro de lenços traçados cobrindo as faces de memórias de tempos sarracenos ancestrais, de rostos queimados e retalhados de rugas, inclemências do tempo e do sol que queima mais vindo da areia que do céu, arrunhando e cobrindo a sementeira que o vento levará aqui, ali e acolá para o fundo da baleira.
Era usual o pequeno e curto trajecto que atravessa a vala do Corgo Seco e terras do Rodrigues ser substituído por trajectos alternativos, longos, que os levariam pelo Pinhal do Mano, Marranhuças, Saibreiras e Seixeira, de forma a diluir a apanha da monda, os trabalhos da machadinha em mão de menino.
Naquele dia o trajecto seria muito mais curto. Iriam a direito como todos os outros tarefeiros fornecedores de mato fixador de areia, matéria-prima ao carreiro formigante de mulheres arrunhadoras, chefiadas pelo garboso capataz que de dia para dia se apresentava cada vez mais bem adonairado, mais interessante para o mulherio. De dia para dia o homem apresentava-se aos olhos delas cada vez mais bem barbeado, mais elegante, mais cingido de cinta e peito saliente, mais bem cheiroso e o odor de sexo que ele largava, sem cessar, pelos poros directamente para as narinas delas.
Naquele dia o trajecto seria o mais curto, o que atravessa a vala do Corgo Seco e as terras do Rodrigues, em vez dos alternativos pelo Pinhal do Mano, Marranhuças, Saibreiras ou mesmo pela Seixeira, pois na manhã anterior, nos Sanguinhais, do longo trajecto até ao arneiro da casa, por entre pinhais do pai do Doutor fez-se o poupado trabalho naquele dia à machadinha. Ali mesmo ao lado da rodada do carro, marcada a compasso dos passos das vacas, ali mesmo estava o embrulho branco apresentado com curiosidade, arrecadado na pequena bolsa de trapos que levava farnel de broa com sardinha já assada de véspera, pois o capataz proibira fazer fogueira. A curiosidade do companheiro espicaçava ainda mais a sua em abrir o pequeno embrulho branco, mas a estrada estava concorrida. Ali mesmo à frente ia o velho Rolo naquela pachorrice do andar das velhas marinhas. Tal carro tal dono! Atrás vinha o Pimpão novo. Ali não se poderia abrir nada. A vara corria os lombos da Amarela e da Castanha.
Atravessavam a poeirenta rua mal vincada entre muros feitos de adobos de barro e lama, por entre crianças como eles descalças e sujas de ranho vincado por debaixo do nariz, onde se nota a pele rosada, limpa pelas crostas dos punhos. No relveiro da Baleiras d’Areia começaram com a multiplicação das carradas.
A meio da primeira carrada, o nó de cordel foi desatado e aberto o embrulho branco. Três onças de tabaco Virgínia. Agora, o tabaco que o velho Rolo levava para o apontador estava ali nas suas mãos.
Na primeira carrada, o apontador recebe as duas onças em cima da folha do livro. Tabaco Virgínia! Dá cumprimentos ao teu senhor pai, meu menino.
Nessa tarde os meninos fumavam. Já eram homens.

quinta-feira, maio 20, 2010

terça-feira, maio 18, 2010

domingo, maio 16, 2010

Boletim municipal

Para quando a Câmara Municipal de Cantanhede pensa fazer um Boletim Municipal tão jeitoso como a congére de Mirandela?
É que eu ando farto de ver sempre as mesmas caras!

sexta-feira, maio 14, 2010

Há podas e phodas

A diferença entre uma poda de árvores no Largo da Sanguinheira e uma phoda de árvores no Largo da Tocha. Ambos os largos têm plátanos, que são do género Platanus da família Platanaceae. No geral são árvores de interesse ornamental, podendo atingir mais de 30 metros de altura.

terça-feira, maio 11, 2010

quarta-feira, maio 05, 2010

Como está bonita a Praia da Tocha

Bom dia
Como está bonita a Praia da Tocha, desde que tiraram o café que "que agredia a paisagem", agora sim, para qualquer pessoa por muito sensivel que seja, fica contente por ver finalmente um lindo monumento no local do anterior "mamarracho".
Feliz de quem consegue este tipo de mudança, belo cartaz de apelo aos turistas, para o início da época balnear.
P.S.- Gostei muto, talvez as chapas se fossem maiores e com "grafities" dariam outro colorido mais apelativo. Bela obra e muito oportuna.

segunda-feira, maio 03, 2010

O grelo que todos querem comer

(clicar na imagem para aumentar e ver a ementa)
Nos Carapelhos, onde há grelo fresquinho que todos querem comer. Há grelo para todos.