terça-feira, junho 30, 2020

Apesar de doce não deixou de ser o que era.



Então ele decidiu comer merda.
Misturou-a muito bem com o muito açúcar que lhe juntou, e depois comeu uma colherada.
Era doce, mas não deixava de ser merda.
Se há gente que teima em comer merda, o problema é dela.

Dança



Pintura em óleo sobre tela, Álvaro Cunhal

Dos headphones saem sons abafados para o meio acústico externo ao sistema, sons da sonata para piano.
Agora ouve-se um silêncio, espera,  e recomeça em andamento mais alegre, saltitante, com passagens dançáveis. O prazer da dança dos dedos sobre o teclado.
Só pode ter sido assim que o compositor e o intérprete tenham visto e sentido a dança que se ouve.




Miguel Torga, o poeta (Adolfo Rocha, o médico) escreveu que no fim de cada consulta, ou depois de cada livro, lhe apetecia correr atrás do cliente ou do leitor, e contar-lhes toda a verdade, que a receita era inútil e os versos inúteis também.
O destino é maior que a sua pobre ciência e a poesia mais alta que a sua rasteira inspiração.
Miguel Torga – Diários Vols. V a VII
Coimbra, 12 de novembro de 1953

O fado do Alfredo




O fado do Alfredo


Eram três, quatro horas da tarde
O Alfredo no campo a lavrar
Quando lhe veio a notícia
Que Maria estava para acabar.


Acabou-se meu bem, acabou-se
Acabou-se a nossa alegria.
Tenho pai, tenho mãe, tenho tudo
Só me falta o amor de Maria.


Só me falta o amor de Maria,
Só me falta o amor de José.
Tenho pai, tenho mão, tenho tudo
Só me falta o açúcar pró café.


Só me falta o açúcar pró café
Só me falta a garrafa pró vinho.
Tenho pai, tenho mãe, tenho tudo
Só me falta partir-te o focinho.


Jogo infantil do oh melrinho, oh melroto.



Jogo infantil do oh melrinho, oh melroto.
As crianças sentam-se no chão, em paralelo umas às outras, ombro com ombro, e com as pernas esticadas. Cada criança escolhe para si o nome de um animal distinto dos outros já escolhidos. A uma pequena distância marcar-se um círculo no chão a que é o local da feira. Uma delas, fazendo de mestre de cerimónia, com um pequeno pau, vai cantarolando a lengalenga, e a cada linha toca nos pés sequencialmente. No último enganchai que toca um pé, a criança engancha a respectiva perna. 
Ganha o que enganchar primeiro as duas pernas, que se desloca para o local da feira. O procedimento repete-se até ficar o último, o perdedor.

Lengalenga

Oh melrinho
Oh melroto
Quem tem bota
Tem sapato
Quem morreu foi o meu rato.

O meu rato é freguês
Faz os ninhos pelas paredes
As paredes são de pedra
Acolá é a sua terra.
Riquetai, riquetai
Vinte e quatro enganchai.

Ao sortudo vencedor diz o mestre de cerimónia:
- Ide para a feira!
Terminada sequência de eliminatórias, o mestre de cerimónia pergunta ao vencedor:
- Em que animal quer vir?
Responde o ganhador
- No melhor que me provir - e diz o nome do animal que o perdedor escolheu.
Se  acertar com o nome do animal escolhido pelo perdedor, é carregado às costas por este até ao local inicial,, Se não se lembrar a situação inverte-se, e o perdedor passa a vencedor, que para tal terá que dizer o nome do animal do que estava no local da feira, de modo a que o jogo recomece do início, agora com novo mestre de cerimónia, o último ganhador.


quarta-feira, junho 24, 2020

O Fado. Uma visão de 1873.


O Fado.
Uma visão de 1873.
Na gravura do mestre Raphael Bordallo Pinheiro, podemos ver a guitarra portuguesa ainda de cravelhas de pau.

O Fado é a cantiga que define um povo. Melancólica e apaixonada, como o temperamento que a deu à luz, ela tem na sua toada sonolenta alguma coisa de magoado em que transluz toda uma epopeia roxa de saudade. Da antiga tradição aventureira e sonhadora que nos tem vindo pelos séculos fora até estacar ma miséria inerte d’hoje em dia, é ela o grito mais fundo e mais bem lançado que a alma de uma nacionalidade tem sabido – grito que só se dá a sós com o coração, grito intimo de tortura e descalabro de ambições. À ventura pelos mundos de Cristo, sacola ao ombro e bordão de peregrino a quem nada preocupa, peregrino da ilusão- o português leva sempre nos lábios a doce cantiga do fado, como balsamo para todas as mágoas e incentivo à sua sensibilidade. Raça de poetas e viageiros, não se dá connosco a fria realidade; d’olhos vendados se caminha: se amanhã não houver pão, Deus o dará; ao longe é a bruma e para ela se vai, inconscientemente, não antevendo perigos, desdenhando obstáculos, abandonando conselhos da consciência, d’aí a valentia do português, a sua tenacidade, a sua ingenuidade e o seu bom fundo. Quem mal não pensa mal não cuida. O Fado foi, pois, a cantiga mais consentaneamente inventada para companheira deste simples deixar correr que reside em todos nós. Lutas da alma, saudades de tempos idos e coisas desaparecidas, queixas d’amante desprezado, soluço amargo de uma dor oculta, tudo isso ela traduz com um sentimento pungente e doloroso. A mesma ironia é coada por lágrimas; abranda nas inflexões do lamento e em vez de irritar, sensibiliza; amolece os intuitos; quer ferir e afaga, quer apunhalar e dá vida.


terça-feira, junho 16, 2020

A guitarra portuguesa na caricatura política


Neste cartoon do grande Rafael Bordalo Pinheiro, podemos observar uma guitarra portuguesa com pá de cravelhas, ainda sem o afinador de leque metálico e voluta que tanto a caracterizam na atualidade. O mesmo se passa com a viola que marca o ritmo do fado bailado eleitoral.
A guitarra dá música orçamental, a viola marca o ritmo legislativo do diário do governo, enquanto a política assa castanhas no fogareiro da crise.
Os dançarinos e mais elementos à volta são os politicos da época. Um dos fadistas é o rei D. Carlos, enquanto o Zé Povinho está com a bebedeira do costume.
Publico isto só para mostrar que a nossa guitarra evoluiu bastante.

terça-feira, junho 09, 2020



Soluções para problemas a inventar.
Eu tenho uma solução tão boa, que só me falta buscar o problema para a aplicar.

quinta-feira, junho 04, 2020

Carta para Josefa, minha avó


Carta para Josefa, minha avó
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.
Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)
Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.