quarta-feira, outubro 28, 2020

A quarentena das quarentonas

 


A quarentena das quarentonas

Na sala de espera para exames clínicos, com a demarcação de cadeiras e circuitos de circulação marcados a serem cumpridos, aguarda-se a chamada.

A televisão está ligada. Só se ouve do canto superior da parede covid para aqui, covid para ali.  

Uma mulher na casa dos quarenta anos pelo corpo e pela voz apesar de mascarada relatava em voz alta para a interessada em ouvir que estava na cadeira a mais de dois metros, um ror de sessões de fisioterapias, as dores de espinhela caída, para não falar das do dente do sizo.

Do outro lado da sala, duas irmãs quarentonas também, acompanham a mãe que apresenta várias dificuldades, entre as quais a mais notada, a de locomoção. Estas, cada uma de telemóvel em punho, comentam o Facebook de um fulano Tal que no vídeo postado até mostra a porta para ele ir mijar, diz uma para a outra

Uma voz monocórdica, mascarada, chama pelo meu nome.

Eu, aliviado, lá fui para o exame, cuja prova resolvi com êxito, recorrendo à demonstração por absurdo.


terça-feira, outubro 20, 2020

Uma chuva fraca à espera que engrosse.


Uma chuva fraca à espera que engrosse.

Assim têm sido os recados dos manda-chuvas pelos diversos canais de informação, na espera do escoar do dia, como o gato espera na sua liberdade de me aturar em troca de uns grãos de ração e umas coçadelas pelo lombo até ao rabo, o barómetro do seu nível de tolerância para comigo. O felino quando me olha pensa coisas acerca de mim que nem eu imagino.

 

 

segunda-feira, outubro 19, 2020

O modelo económico da Estupidez

 

O modelo económico da Estupidez

Tal como cair na asneira de aceitar ajudar o Estúpido nos cria problemas sem solução, cair em conversa com um Fundamentalista, além de impraticável, faz mal à saúde.

quarta-feira, outubro 14, 2020

Heróis ao mar

 

Aqui vivendo este momento, no ano com tanto por comemorar . Estamos na terra do Covid que tudo escusa, o país do heróis ao mar, a pátria dos Cristianos da bola.
Nem D. Marcelo escapa, nem ele quer escapar, a falar sobre o assunto.

segunda-feira, outubro 12, 2020

Icterícia na parede da Casa Velha

 




Na manhã poluída de luz amarela suspensa nos postes de cimento, vislumbro do lado de onde virá o Sol a Lua em Minguante e o brilho de Vénus. Do lado do Mar, por cima da Casa Velha pejada de icterícia da luz projetada na sua fachada, Marte prepara-se para afundar nas águas do Oceano. A Sul, Sirius aponta a cintura do Grande Caçador, os três reis que vêm do Oriente.

 


terça-feira, outubro 06, 2020

A bomba de neutrões

 


Percorro ruas e vejo automóveis, não vejo pessoas. Nas estradas e autoestradas rolam viaturas, umas para lá e outras para cá, como se as pessoas vivessem dentro de uma lata, com vidros e plásticos, com motor e rodas, como se morássemos num não-lugar. 

Dantes a estrada fazia parte da viagem. Hoje a viagem é chegar ou partir.

Nas cidades e vilas a bomba de neutrões foi deflagrada. A propriedade está lá intacta, mas não se veem pessoas, nem cães, nem gatos.

Também não há moscas.

 


Ainda a construção da banza

 

Retomado o assunto das melhores madeiras para a construção de uma guitarra portuguesa, e sabendo que há preceitos técnicos que têm que ser respeitados, eu estou cada vez mais de acordo com um conceituado interprete, músico e compositor do nosso cordofone: o melhor instrumento é aquele que em determinado momento nos toca a todos, e em primeiro lugar a quem o executa.