terça-feira, julho 08, 2014

Tanta é a fartura que já não apetece comer.

Tanta é a fartura que já não apetece comer.
Depois do enxameamento das associações e colectividades de ranchos e grupos folclóricos, temos o último fenómeno de materialização de fadistas, a torto e a direito.
Terminada a época das noites de fados, eis que os festivais de folclore aparecem em força, passada que foi a época das marchas dos santos populares. Até do desfile de Carnaval mais famoso do mundo, que é o do Rio, já me informaram que teve influência das marchas de Lisboa. Imaginem as coisas que eu ouço! Isto para não falar dos fins-de-semana gastronómicos, vinhos e petiscos, onde um qualquer vereador municipal da cultura, além de munido do discurso chapa cinco, deve também estar municiado, geneticamente, de um bom gancho de fígado e sucos estomacais de reserva.
Cultura a quanto obrigas neste tempo de espelhos, onde o buraco do BES não tem reflexo possível, logo não existe.

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OS FACILITADORES




OS FACILITADORES
O título, só por si, já era assustador: "Goldman Sachs aposta em Portugal". E a entrevista em que António Esteves, apresentado como ex-desportista de elite e actual partner do banco, revelava ao Expresso da semana passada os planos que eles têm para Portugal era de dei­xar em estado de alerta quem quer que conheça a história desse grande preda­dor global que é a Goldman Sachs. Qua­se se pode dizer que o que é bom para a Goldman Sachs é fatalmente mau para os países onde eles fazem negócios, pa­ra os seus consumidores e contribuin­tes. Pois que, como diz António Este­ves, "a Goldman é um banco muito di­reccionado para a performance". Isto é, não está especialmente interessado em financiar a economia dos países on­de se instala, mas em realizar o máxi­mo de lucros no mínimo de tempo. Que o digam os gregos ou os america­nos, que o diga a Comissão Europeia que acaba de a multar por manipula­ção das taxas Euribor, em cartel com outros tubarões da banca internacio­nal, que o diga a história desta crise mundial, onde a Goldman Sachs de­sempenhou um papel à altura dos seus pergaminhos. Agora que 250.OOO portugueses paga­ram com o desemprego e outros tantos com a emigração as políticas devastado­ras impostas pelo resgate a que fomos obrigados em consequência da crise ex­portada a partir dos EUA para o mun­do inteiro e causada pela ganância cri­minosa de bancos como a Goldman Sachs; agora que o resgate estilhaçou a legislação laboral, tornando qualquer novo emprego um trabalho precário e fazendo recuar dez anos o nível das re­munerações salariais; agora que o Go­verno português, fiel executante do que chamam o "processo de ajustamento da economia portuguesa", vende tudo o que é empresa estatal lucrativa, sem qualquer salvaguarda do interesse pú­blico; agora que as grandes empresas privadas, outrora chamadas "campeões nacionais", ou se expatriaram ou foram descapitalizadas por taxas de juro ban­cárias insustentáveis, praticadas pelas Goldman Sachs deste capitalismo de ra­pina; agora que, enfim, Portugal se tor­nou barato, vulnerável e indefeso, Antó­nio Esteves, como grande quadro ban­cário que é, repara que aqui "há oportu­nidades muito interessantes para os in­vestidores que estão à procura de acti­vos que lhes dêem mais retorno vis-à-vis com o resto da Europa". Foi isso que eles já fizeram, tornando-se o maior accionista privado dos CTT, na recente privatização levada a cabo pelo Governo. E isso é apenas o princípio, pois, como ele diz, "olhamos com mui­tos bons olhos para Portugal". Não contribui muito para me sosse­gar a notícia da contratação de José Luís Arnaut pela Goldman Sachs — na­quilo que suponho ser a primeira conse­quência prática da nova política do ban­co para Portugal, definida por António Esteves como assentando no "investi­mento em pessoas e talento". Desco­nhecendo eu qualquer talento ou expe­riência bancária de Arnaut, resta o seu talento — esse, sim, por todos reconhe­cido — no capítulo "pessoas". Tal como Miguel Relvas, outro notável talento em "pessoas", o novo "conselheiro" da Goldman Sachs, José Luís Arnaut, tem a capacidade de chegar às pessoas que interessam, utilizando um inestimável património, trabalhado com mestria anos a fio, e que no ramo se chama "lis­ta de contactos" — dos que atendem o telefone. Trata-se de uma próspera acti­vidade em qualquer lugar do mundo, mas sobretudo em países como Portu­gal, onde tudo pode ser vendido, con­cessionado, facilitado, negociado, e on­de a intimidade com o poder é a chave dos grandes negócios. Estes profissio­nais são bem designados pela deliciosa expressão que um amigo de Relvas en­controu para caracterizar a sua actual actividade: "um facilitador de negó­cios". O "facilitador de negócios", às ve­zes também designado por outras ex­pressões mais cruas ou menos elegan­tes, é alguém que tem a capacidade de fazer poupar tempo e desembrulhar dossiês complicados, encontrando sem­pre um vendedor para um comprador, um decisor para um interessado. José Luís Arnaut é, neste aspecto, um ás de trunfo para a Goldman Sachs: basta di­zer que não houve privatização feita por este Governo em que ele não tenha estado presente, representado ou os "investidores" face ao Estado ou o Esta­do face aos "investidores" — o que diz muito sobre a sua capacidade de acro­bacia negocial e ausência de estados de alma nocivos e deslocados. Não pen­sem que é fácil ou que qualquer um po­de chegar a um tão elevado estatuto na distinta profissão de facilitador de negó­cios. Não é essencial ter estado na políti­ca, mas é indispensável dormir com a política, sem olhar a camas. Embora a filiação num grande escritório de advo­cacia de tráfico de influências seja im­portante como porta de entrada, há ou­tras formas de lá chegar que não requerem sequer qualquer habilitação acadé­mica ou título profissional, como Rel­vas bem ilustra: uma agenda de contac­tos irrepreensível vale mais do que qual­quer PhD ou o nome no papel timbrado de uma sociedade de advogados. É ain­da necessário que essa agenda não se limite a conter o nome de políticos de um governo, pois que os governos vão mudando, enquanto que o essencial dos contactos deve permanecer na agenda: "jotinhas" do "arco da governa­ção", líderes emergentes da oposição, alguns autarcas de concelhos atracti­vos, académicos e técnicos tantas vezes necessários para dar credibilidade às pretensões, professores de direito para venderem pareceres, jornalistas para colocarem notícias ou opiniões a troco de um pagamento adequado. E é neces­sário também evitar que se aposte tudo apenas num nome em cada momento, para não acontecer o que aconteceu a Relvas, quando o seu grande contacto brasileiro, José Dirceu, acabou em des­graça atrás das grades. É um trabalho de filigrana, que exige inteligência, tac­to, cautela e capacidade de observação, muitos pequenos-almoços, muito salão, muita gravata Hermès. No fim de tudo isto, garantidos "os talentos e as pes­soas" certas, a Goldman Sachs pode di­zer, pela boca do seu partner António Esteves: "Portugal é um risco de que gostamos". Compreende-se o gosto, não se percebe é o risco.
Quando questionado sobre a sua omnipresença em todos os processos de privatizações, José Luís Arnaut defende-se atacando o miserabilismo dos crí­ticos e louvando-se de ter ajudado a tra­zer para Portugal milhares de milhões de "investimento externo". É um ponto de vista de quem acha que toda venda de bens públicos ao exterior é um inves­timento e bem-vindo. Mas, na mesma edição do Expresso da semana passa­da, um painel de economistas, professo­res e gestores defende exactamente o contrário, criticando o que se privati­zou e a forma como foi feito, chamando a atenção para a perda de poder de de­cisão alienado ao estrangeiro, para a perda de dividendos para o Estado e pa­ra a perda de lugares qualificados para portugueses nas empresas vendidas. Não é inocentemente que os progra­mas da troika para Portugal, Grécia e Irlanda insistiam tanto nas privatiza­ções, E não foi por capricho que mes­mo o governo de direita de Rajoy tudo fez para evitar a receita da troika em Espanha.
Quando acontecer o 1640 de Paulo Portas, marcado para 17 de Maio, só por inconsciência ou por conveniência se poderá dizer que recuperámos parte da nossa soberania. Apesar das privati­zações (justificadas para a diminuir), a dívida pública terá aumentado, mas, por via delas, Portugal terá alienado quase tudo o que, no sector económico, público ou privado, caracteriza um país soberano. A produção de electricidade foi vendida a uma empresa estatal chi­nesa, a distribuição dada em monopó­lio a chineses e árabes, parte substan­cial da banca e dos combustíveis vendi­dos a angolanos, os cimentos e as tele­comunicações aos brasileiros, os aero­portos aos franceses, a única compa­nhia aérea prestes a ser vendida a quem mais der, os correios aos america­nos da Goldman Sachs ou clientes seus, um terço do mercado de seguros tam­bém aos chineses e o próprio forneci­mento de água, o mais essencial de qualquer bem público, pronto a ser con­cessionado a quem os "facilitadores de negócios" determinarem. Se isto vai ser um país soberano, eu prefiro que voltem os Filipes. EXPRESSO 18/JAN/2014
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