quinta-feira, março 19, 2015

A lista, por favor.

EU DEFENDO A LISTA VIP DO FISCO
(António José Teixeira, Expresso Diário, 19/03/2015)

Há um enigma que envolve a paixão dos humanos por listas. Listas imperdíveis de favoritos de tudo, de livros, filmes, dos melhores, dos piores. Gostamos de listas. De ordenar, selecionar, catalogar, incluir, excluir. Estar, ou não estar, na lista, faz toda a diferença. Fica-se dentro, por dentro, ou à margem, de fora. Há listas no fisco? «Lista de contribuintes VIP»? «Bolsa VIP»? Ou «pacote VIP»? Foi a pergunta das últimas semanas. A dúvida pairou ao ritmo das mais convictas negações. É da natureza humana, nem precisamos de recorrer à semiótica, a desconfiança nas grandes juras. A repetição de nãos, nunca e jamais, gera mais dúvidas do que certezas. E quando algumas centenas de almas, investidas como inspetores tributários estagiários, escutam um chefe do fisco falar de «bolsa VIP» ou «pacote VIP» vale de pouco negar a evidência. A intenção parece igualmente óbvia. Trata-se de proteger nomes importantes da devassa. Não é uma lista VIP para escrutínio fiscal mais apurado. Poderia ser. Mas uma lista de individualidades com campainhas nos cortinados, que denunciam os voyeurs que lhe querem deitar os olhos.

Há lista, há indignação, escândalo e caso. Afinal, havia lista. Mentira, demissão, responsabilidade política, desconfiamos de tudo e de todos. De pouco valem as proclamações mais democráticas: todos somos iguais perante o fisco, não podem existir privilégios só para alguns. O nascimento do Estado moderno ficou precisamente marcado pelo princípio da igualdade perante os encargos. Uma lista de proteção não significa necessariamente contas menos certas, evasão ou fraude fiscais, mas o alarme de proteção só para alguns lança suspeições compreensíveis. A ideia de casta protegida é incompatível com o estado democrático.
Os principais titulares de cargos públicos merecem figurar numa lista fiscal VIP, não para se protegerem, mas para tornarem públicos os seus rendimentos e o cumprimento das suas obrigações fiscais
Segundo a Visão, Vítor Lourenço, chefe de divisão dos serviços de auditoria do fisco, contou de viva voz perante uma grande plateia reunida na Torre do Tombo, que há «promiscuidade de passwords» entre os funcionários, que há «conflitos de interesses» envolvendo negócios paralelos, que funcionários reformados, agora a trabalhar no setor privado, têm acesso aos ficheiros dos contribuintes... Doravante, é precisa muita fé para confiar nos fiéis do armazém da coleta fiscal. Lourenço revela ainda que estão monitorizados os «acessos indevidos» ao «pacote VIP». Os muito importantes deste país, mesmo sabendo-se pouco da sua identidade e extensão, poderão ficar descansados. Os ditos «contribuintes em geral» é que não. Isso mesmo reconhece o chefe de divisão.
Para o fisco, cada cidadão devia ser um número. Direitos e deveres semelhantes de acordo com as obrigações definidas por lei. A haver alguma desigualdade, a haver uma lista VIP entre os contribuintes, devia funcionar ao contrário do que se fez. Os principais titulares de cargos públicos merecem figurar numa lista fiscal VIP, não para se protegerem, mas para tornarem públicos os seus rendimentos e o cumprimento das suas obrigações fiscais. Esta deveria ser a verdadeira lista VIP do fisco. Não a que se quer esconder, mas a que se deveria mostrar. Desde logo para matar a curiosidade. Mas também pela clareza e pelo exemplo. A transparência não é um valor absoluto democrático. Pode até ser um valor totalitário. Mas neste caso, deve ser uma obrigação de rigor. E em boa parte já se cumpre perante o Tribunal Constitucional.
A lista VIP respondeu à curiosidade sobre a carreira contributiva do primeiro-ministro. Almas diligentes quiseram pôr travões à devassa. Não foi necessariamente por boas razões. Mesmo que possam parecer piedosas. Lista VIP sim, mas para prestar contas. Não para as esconder.

terça-feira, março 17, 2015

O analfabeto político



O analfabeto político

O pior analfabeto, é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguel, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil,
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
Pelintra, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht

Vê lá se és capaz, mas sem te rires!


Vê lá se és capaz, mas sem te rires!
https://rcag1991.wordpress.com/2015/03/17/o-fmi-diz-sem-se-rir-que-o-ajustamento-falhou/

segunda-feira, março 16, 2015

A caminho do baile

Luis Ricardo Falero
(Granada, 1851 - Londra, 1896)
"Witches going to their Sabbath", 1878
olio su tela, 145.5 × 118.2 cm.
Collezione privata

O Diabo rola pedras pelas Marranhuças abaixo até à Lagoa do Frade onde a dança das bruxas se prepara para a noite de amanhã. Amanhã será o dia delas. Hoje, o Chifrudo rola as pedras de enxofre, muda o inferno de sítio pondo todos os diabos, diabinhos e almas penadas em polvorosa.

sexta-feira, março 13, 2015

Tu já eras o presidente, acredita!

- Por mim, tu já eras o presidente, acredita! Não é que eu esteja a virar a casaca, nem penses em tal que eu sempre fui da causa, conforme tu bem sabes. Eu não espero nem peço um qualquer favorezeco dele nem que seja coisa pouca, apesar de não estarmos ainda perto para ganhar, mas tu tens grandes chances. Tu não tens nada que te apontem, enquanto ele tem muitos rabos trilhados, muitas borradas, coisas feias e erradas que ele tem feito para aí. Eu sei que há pessoas que vão a correr a oferecer os seus préstimos ao presidente, alguns para as listas, eles ou um dos filhos, para suplentes, dizem, em troca de umas coisitas sem importância. Sabes que essas pessoas pensam que será sempre melhor ser a favor que contra, mesmo que isso não seja a garantia de convite para o porco assado no espeto. Como sabes, eles são uns invejosos e traiçoeiros, mas eu não sou desses! Eu e a minha família votaremos em ti, e só que não posso fazer parte da tua lista porque depois o presidente nem me irá falar.

quarta-feira, março 11, 2015

O fenómeno e a sua observação


O fenómeno e a sua observação
Há 40 anos a Figueira da Foz era uma cidade com um nevoeiro matinal muito semelhante ao de hoje, mas tinha um outro cheiro garantidamente, e outros ruídos no meio dele. Não circulavam muitos automóveis e os autocarros do Farreca cheiravam a peixe nos aventais das peixeiras de Buarcos ao chegarem ao Mercado Municipal, ali ao lado do Jardim. A cidade dominada pela torre do Grande Hotel, ainda ouviria, mas por pouco tempo mais, os ruídos dos carros de cavalo dos distribuidores da mercadoria chegada à estação do Caminho-de-ferro, via linha do Oeste e Ramal de Alfarelos. Os cavalos estavam a deixar de ser rentáveis e o som dos seus cascos estava perto de deixar de ser ouvido nas ruas da cidade Rainha da Praias de Portugal. Com os sons dos cascos dos muares do carreto iriam os Festivais da Canção e de Cinema, perdendo a cidade e a praia a Claridade, e o Grande Hotel o tamanho. O comboio seguiu-lhes os passos. A nova ponte tardava na sua construção e os camiões estavam cada vez mais impacientes.
Os rádios transístores portáteis, os mais avançados meios de disseminação da notícia, eram tão sofisticados que até cabiam num bolso do casaco, no bolso das calças não cabiam pois nesses nada cabia dada a moda da sua justeza junto ao corpo e larga em boca-de-sino abaixo do joelho, e só usavam, isto para os topos de gama, duas pequeníssimas pilhas de dois centímetros e meio de comprimento.
Pela primeira vez, em Portugal, a televisão fez a cobertura em directo, ao vivo e a cores preto e branco, de um acontecimento. Alguém terá comentado que tudo aquilo seria encenado, pois até a televisão lá estava.


segunda-feira, março 09, 2015

Manual do bom caloteiro

 
Manual do bom caloteiro
(Qualquer semelhança com a realidade é coincidência)
- O caloteiro nunca ofende, é sempre ofendido.
- O caloteiro coloca a honestidade acima de tudo. A dele.
- Exceção feita aos que o conhecem demasiado bem.
- O caloteiro tolera os adversários, desde que não ameacem o seu lugar.
- E o elogiem.
- O caloteiro respeita a presunção de inocência e só a despreza se necessário.
- O caloteiro não gosta de ser chamado caloteiro, acha que o retrato é injusto.
- E a justiça é muito importante para o caloteiro, ele não suporta injustiças.
- O caloteiro é sempre justo, mesmo quando reconhece não ser «exemplar».
- O caloteiro não pensa. Ele é mais um homem de ação.
- O caloteiro não tem saudades de Salazar, tem inveja.
- Acha apenas que lhe faltam os meios.
- Alguém que impedisse a divulgação dos factos contra si.
- E publicasse calúnias contra os adversários.
- Ou mesmo factos, se lhe fossem úteis.
- O caloteiro sabe que a descolonização foi muito mal feita.
- O caloteiro gostava de uma Pátria maior, a que julgava dele.
- E de mandar nela.
- O caloteiro acha que os políticos são todos corruptos.
- E por ele ia tudo preso.
- Mas diz que nem todos os políticos são iguais.
- O caloteiro não é político, ocupa o lugar que os amigos lhe impuseram. 
- O caloteiro acha que pagou todas as contas.
- Pelo menos, nunca deixou de pagar o que o Fisco o convidou a pagar.
- O caloteiro acha que as dívidas são para pagar.
- Mas pagá-las, antes de serem noticiadas, é eleitoralismo. 
- O caloteiro sempre pensou em pagar, apesar de prescrito o calote.
- E só não pagou a totalidade porque o credor negou qualquer dívida.
- O caloteiro gosta de um presidente que não se meta na luta eleitoral.
- E aprecia que repita o que dizem os outros assessores.
- O caloteiro acha que isso é isenção.
- O caloteiro sente-se injustiçado e não é como o preso.
- O caloteiro acha que a prisão preventiva é o mínimo para quem o ataca.
- O caloteiro respeita a Justiça.
- Quando é aplicada a adversários.
- O caloteiro é contra o direito à diferença.
- Mas ofende-se que não lhe reconheçam o direito à diferença.
- O caloteiro sabe que é crime enriquecer no lugar que ocupa.
- Mas não aceita a confusão com os lugares que ocupou.
- O caloteiro sofre de amnésia.
- O caloteiro não sabe onde trabalhou durante alguns anos.
- O caloteiro esqueceu-se de quem lhe pagou.
- Mas reconhece que desconhecia que tinha de pagar impostos.
- O caloteiro é pela transparência.
- Mas recusa a devassa às suas declarações de IRS.
- O caloteiro pede um subsídio de reintegração pela exclusividade de funções.
- Mas não se recorda se outras funções, em simultâneo, eram pagas.
- O caloteiro é a favor da democracia.
- Mas acha que uma democracia, com esta oposição, não é democracia.
- O caloteiro detesta que lhe chamem caloteiro.
- O caloteiro sabe que, ao negar que o é, está a ser manhoso.
- Outras vezes não sabe mesmo.
- O caloteiro odeia as Finanças e a Segurança Social.
- Mas defende que todos devem cumprir as suas obrigações.
- O caloteiro só não paga por distração e falta de dinheiro.
- O caloteiro nunca perde autoridade para exigir aos outros o que não faz.
- O caloteiro não cumpriu porque não foi convidado a fazê-lo.
- Ou foi.
- Sem carta registada.
 
(Texto adaptado de Rui Zink, sobre o «Manual do bom fascista)

Carlos Esperança

segunda-feira, março 02, 2015

A Lulu de herr Schäuble Wolfgang.


A Lulu de herr Schäuble Wolfgang.

sábado, fevereiro 28, 2015

O folclore que anda por aí


Nos anos 30 do século passado os ranchos não eram folclóricos, mas sim, uns grupos tipo mais regional ou com alguns tipicismos, empurrados pela ascensão da propaganda Ditadura Nacional na formatação ideológica do Estado Novo. 
Os trajes foram criados para o efeito, assim como as músicas e as danças, baseadas no tradicional, não mais do que isso. O mesmo se passou com as marchas populares. 
Temos ainda alguns ranchos, mas poucos, do tipo “os Esticadinhos de Cantanhede”, como o exemplo de esforço em manter essa origem do rancho regional. Daí até ao aparecimento de ranchos federados na Federação de Folclore há uma história que se sabe, mas a meu ver é pouco conhecida, ou pouco divulgada.
Os tempos mudaram. A memória agrícola e os rituais cíclicos do tempo, a base do folclore e das nossas origens, já não fazem parte das actuais gerações, do país, nem das aldeias. Daí o definhar das tradições e o revitalizar das pseudo tradições.
Há o recente fenómeno fado, onde nem tudo o é, e as marchas dos santos populares, essas também herdeiras dos iniciais ranchos dos anos 30. 
O folclore, esse, anda por aí.


quinta-feira, fevereiro 26, 2015

O admirável tempo intoxicado que vivemos.




Este magnifico desenho eu o associo a certas "lutas" nas redes sociais, resultado desta autêntica central de intoxicação informativa que nos sufoca e que se replica  por aqui.
É este o admirável tempo intoxicado que vivemos.
Jacques Bellange, “Pelea entre ciegos”, ca. 1614, 31 x 21 cm.

A teimosa realidade



A realidade é teimosa e ganha-nos sempre por mais injusta ou benevolente que seja a cada um dos seus momentos.
Dizer que as coisas são como são a cada momento a pessoas que querem ouvir só aquilo que lhes convém é muitas vezes considerado como um tiro no pé, ser colocado à parte das opções dessas mesmas pessoas.
A realidade fez o seu caminho para aqui chegar, tem a história que tem e não aquela que nós gostaríamos que tivesse ou aquela que nós contamos, muito menos a que nos cantam e querem, e que assim nós a aceitemos.
A manada segue o caminho, pois mais vale errar em grupo do que estar só na razão.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Mudança da paisagem

 
A lagoa secou por completo. Uma camada de lodo seco estalou em pedaços encarquilhados, côdeas soltas e estaladiças. Debaixo a areia seca e ainda fede a humidade e cheiro a enguias que se afundaram na terra atrás da fresquidão. A norte, a duna avançou sobre a antiga pastagem e está mais rasa devido ao afunilamento do vento que sopra pela valeira.

A inveja tem Facebook

 

A inveja tem Facebook
 
Quando o valor mais alto é a atenção recebida, e não sendo esta mostrada, o fulano facebookiano asseia por um gosto ou, ouro sobre azul, um comentário. 
Nesse sentido há fulanos que chegam a criar falsos perfis de pessoas conhecidas e consideradas na teimosa realidade que vivemos, apropriando-se de uma face que não têm.
A teimosa realidade, para essa pessoa, é um enorme deserto.
Lamente-se!

terça-feira, fevereiro 24, 2015

As ideias que nos andam impingir

Há muito bem-falante e escrevinhador sobre negócios pelas redes sociais e em especial nos Mídias, que nunca tiveram ou sentiram o stress negocial em que do outro lado se sentam representantes de grandes grupos económicos, suportados com milhões dele. Repito milhões dele.
É que isto de usar frases e termos da moda do momento de pouco serve.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

O conselho que eu não segui


Depois não te queixes se tiveres problemas! Tu bem sabes que isto da liberdade a mais é o que dá. Tu sabes que depois não terás as facilidades de arranjar um emprego no Estado, como cantoneiro na estrada ou mesmo o poderes ir para a Guarda-fiscal depois de fazeres a tropa, claro. Tens que ter tento nessa língua, não andares por aí a fazer essas partidas de Entrudo. Tens que ter cuidado com os papéis e jornais que andas a ler no café, tens que ter cuidado, pois olha à tua volta, todos os que estão em bons empregos, como os que te disse, andam aí mansinhos, mas andam bem, são respeitados e logo tu, um rapaz de boas famílias e inteligente, andas sempre metido em sarilhos. Mas já agora amostra cá o que diz esse papel que tu aí tens! Amostra cá, pois também quero saber quem escreveu tal coisa. Tu tem cuidado, que assim não arranjarás emprego no Estado, nem para cantoneiro, Guarda Fiscal ou mesmo para a Câmara, pois tu até és inteligente tu sabes isso, claro, que eu já te tinha dito.

A valiosa excepção


Há um bailado caoticamente ordenado vindo do caos e a caminho de caos, um vórtice galáctico arrastando uma insignificante estrela que embrulha, helicoidalmente, uns planetas que nada representam na negrura do vazio.
A luz que emana dos inúmeros vórtices sugadores dos universos que existem, e que devem existir muitos outros além deste, os multiuniversos do outro lado dos vórtices, engolidores de matéria, energia, luz e outros vomitadores. Do outro lado do vórtice luz, matéria e tempo formam um vómito único.
O sol, esse invicto deus criador, se não existisse, não teria qualquer significado ou importância para o vórtice em que se despenha e arrefece.
Seguimos neste bailado e não nos detemos a pensar na existência sem importância, onde a regra é o negrume vazio e a luz que viaja nele é a excepção.

segunda-feira, setembro 08, 2014


Vivemos este tempo de democracia decorativa e virtual, em que o grande desígnio nacional se confunde com o atingir um valor para um deficit. Há uns trinta e tal anos, esse desígnio chamava-se Europa.

terça-feira, setembro 02, 2014

A Europa a Brioches

A Europa a Brioches


Às classes altas ficou reservado o frango verdadeiro (agora adquiriu um novo nome, frango gourmet, o outro não é frango, é um mutante feito em 3 semanas com injecções químicas), o peixe fresco, os figos, as nozes. Aos outros cidadãos, trabalhadores em geral, mais pauperizados ou menos, os chamados sectores médios, ficou a farinha, o açúcar, o leite (cereais e leite, a base da PAC), o tal mutante e o porco. É o que nos diz o INE e está aquém da verdade – é uma balança alimentar de médias que não estuda populações, classes sociais, regiões. O INE apresenta médias, e estas penalizam sempre em termos alimentares os pobres, isto é, se há um consumo de carne de 4 isso pode querer dizer que um consumiu 3 e outro 1. Outro dado impressionante -a proporção de açúcar consumido em muitos países da Europa passou de 4 quilos ao ano no início do século XX para 40 a 50 quilos hoje (nos EUA atinge os 60 a 70). Quanto mais baixa é a classe social mais açúcar consome. É a base de alimentação hiper calórica, de efeito rápido e baixo custo para reprodução da força de trabalho. A dieta mediterrânea foi declarada património imaterial da humanidade (terras, mar, sol, águas, que permitem produzir os alimentos), mas de facto é património privado porque não está ao alcance da maioria da população, devido a uma combinação explosiva de baixos salários (fraco consumo interno) e a opção política de exportações (os mercados de mais altos salários nos outros países consomem o peixe e os figos). Mal sabia Maria Antonieta que 200 anos depois os europeus pediam peixe fresco e legumes sem pesticidas e os governantes respondiam dando-lhes brioches.
A fotografia é uma fila de racionamento de açúcar na II Guerra
ww2-16
 

terça-feira, agosto 05, 2014

Novo Banco da casta do costume

Nuno Ramos de Almeidapublicado em 5 Ago 2014 - 05:00
http://www.ionline.pt/iopiniao/novo-banco-da-casta-costume/pag/-1
Novo Banco da casta do costume
 
Portugal tudo na mesma, continuamos a pagar os buracos e o roubo dos banqueiros. Está a chegar a hora de exigir o fim deste regime de políticos ligados a interesses privados 
O primeiro-ministro frisou que os contribuintes não vão ser prejudicados com os custos dessa medida tomada em relação ao Banco Espírito Santo.
"Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para valorizar os activos do Novo Banco e para diminuir os encargos para os contribuintes portugueses, que serão muito menores do que aqueles que seriam se não tivesse sido feito nada", disse o primeiro-ministro.
Estas declarações parecem-lhes familiares? Estão descansados? Agora façam o favor de substituir BES e Novo Banco por BPN. E fiquem cientes de que são declarações do primeiro-ministro Sócrates em 2009, transcritas em notícia do site da TSF em 11 de Fevereiro desse ano.
Recordemos então a sequência. O BPN tinha um buraco anunciado de 700 milhões de euros, o governo e o então governador do Banco de Portugal garantiram-nos que tudo estava sob controlo. No final, estamos ainda a descobrir o buraco do BPN. Está entre 5 mil e 8 mil milhões de euros pagos pelo contribuinte, e o banco foi vendido a um privado por 40 milhões de euros. Neste momento ninguém está preso, os inúmeros políticos e ministros que estiveram no BPN continuam a ser gente feliz e com dinheiro. Lembrem-se das simpáticas mais-valias das acções do SLN ganhas pelo actual ocupante de Belém. Em compensação, a maioria dos portugueses estão muito mais pobres. A crise portuguesa deu cabo da vida da população e continuou a enriquecer os muito ricos e os políticos que eles empregam.
Dizem-nos que o caso do BES é muito diferente dos casos BPN, BCP, BPP, Banif. O banco é sólido, dizem com voz poderosa. "O banco novo, Novo Banco, não vai custar um cêntimo aos contribuintes." O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, repetiu isso, várias vezes, na sua comunicação ao país na noite de domingo.
Voltem a recordar-se, foi o mesmo governador que garantiu ao longo deste ano a idoneidade bancária de Ricardo Salgado. Foi este mesmo governador que garantiu há menos de um mês que o BES era sólido. Foi o Presidente da República, Cavaco Silva, que disse, e Passos Coelho fez coro a 11 de Julho, que "os depositantes podem confiar no BES".
O que sabemos é que os contribuintes vão emprestar mais de 4400 milhões de euros, do empréstimo da troika que o Estado português garante com os nossos impostos, a um sindicato bancário que vai "sanear" o banco e vendê-lo a um privado. Pode garantir-se que não vamos pagar um centavo? Tanto como se podia garantir que o BPN não nos ia custar um cêntimo Se o BPN tivesse sido vendido por 8 mil milhões, em vez de 40 milhões, claro que os contribuintes não seriam penalizados. Mas pensem: na sexta feira o valor em bolsa do BES era 674 milhões de euros e agora querem convencer-nos que o vendem por mais de 4400 milhões de euros.
Por isso, é preciso apoiar as pessoas que não querem mais ser roubadas e que vão no próximo sábado às 15 horas para a frente do BES. Não há democracia com corrupção. É preciso acabar com este regime de banqueiros que usa quem trabalha e os reformados como porta- -moedas para salvar os amigos. Temos o direito a decidir que economia queremos: se para salvar os empregos se os banqueiros. E façam o favor de devolver o país - sequestrado por um regime de políticos que saltitam alegremente nos grupos financeiros privados - aos portugueses. Democracia significa o governo do povo, com o povo e para o povo, e não esta roubalheira.
Editor-executivo
Escreve à terça-feira
 

segunda-feira, agosto 04, 2014

Eis o cão

 

Eis o cão

por Sérgio Lavos

E assim se consumou a fornicação. Em directo para o país, um governador de um banco (ainda que de Portugal) anunciou ao povo a solução milagrosa. O acontecimento é extraordinário por várias razões.
Primeiro, a mentira: que não é uma nacionalização, que nenhum dinheiro público irá ser gasto no BES. Claro que os 4 500 milhões (para começar) são um empréstimo da troika pelo qual estamos a pagar juros e claro que esse dinheiro, doravante emprestado ao fundo de resolução, nunca irá ser devolvido. E porquê? Quem não tiver memória curta e não papar a converseta dos comentadólogos televisivos lembra-se do exemplo do BPN, com um buraco que começou por ser de 800 milhões e já vai nos 6 000 milhões de euros.
Segundo, a sensação de que a bullshit atingiu níveis nunca antes vistos. Depois de várias semanas em que vários agentes (políticos, o PM, o PR, o governador) nos garantiram que o BES era um banco sólido, anuncia-se a falência e o nascimento de uma nova instituição financeira e todos os comentadores aplaudem, como se não estivesse a acontecer o maior escândalo financeiro da História recente. Tudo passa por normal. A newspeak faz o resto: não há "nacionalização", mas sim "resolução", não há falência de um banco, mas um simples nascimento, como se o antigo BES nunca tivesse existido. A absoluta anormalidade de uma falência monstruosa passada para o público sob uma capa de normalidade inevitável. É tanta a aparência de normalidade que até a excitação dos comentadores de economia nos canais de notícias serve o propósito propagandístico: com sorrisos rasgados elogiam o discernimento da solução encontrada, como se esta pudesse apenas trazer um radioso futuro ao país.
Terceiro, o mais incrível de tudo: parece que deixámos de ter primeiro-ministro e que o líder da gloriosa pátria passou a ser Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal. Passos Coelho, a banhos no Algarve (com metade da população), lava as mãos como Pilatos e não dá a cara pela solução, escondendo-se na casa alugada de Manta Rota como o cão cobarde que é. Quando estão em causa a falência e a capitalização com dinheiros públicos do maior banco privado português, Passos mostra mais uma faceta da sua absoluta mediocridade, e por puro calculismo político não assume a tomada de decisão, como se fosse Carlos Costa o responsável pelo destino a dar aos 4 500 milhões emprestados pela troika. Não há memória de tal demonstração de cobardia política, de tanta cobardia pessoal. A imagem de Passos Coelho em trajes menores passeando pelo areal de Manta Rota enquanto fala para as câmaras sobre a falência do BES com a leviandade de um inimputável ficará como corolário de uma governação marcada por uma trágica sucessão de actos e acontecimentos indignos. E sim, estamos todos de parabéns.

http://365forte.blogs.sapo.pt/eis-o-cao-249553
 

sexta-feira, agosto 01, 2014

Espírito Santo — Uma força que você precisa em sua vida

 
 
Espírito Santo Uma força que você precisa em sua vida

Construtores do caos

Construtores do caos

por VIRIATO SOROMENHO MARQUES29 julho 2014
 
O caso GES-BES tem suscitado uma pergunta simples: como foi possível que gravíssimas práticas fraudulentas tivessem escapado durante anos à vigilância das autoridades de regulação, incluindo à vigilância da troika sobre o setor bancário? A resposta é tão dura quanto simples: nos últimos 30 anos muitos governos (de direita e de esquerda) foram responsáveis pela criação dos alçapões e das opacidades que transformaram o sistema financeiro europeu (e mundial) num campo minado onde aventureiros põem em perigo a segurança de milhões de pessoas. Em 1933, em plena Grande Depressão, o Congresso dos EUA produziu uma lei (Glass-Steagall Act) que restaurou a confiança no sistema financeiro: separou e protegeu os bancos comerciais, face aos bancos de investimento. Por outras palavras: os bancos que recebiam as poupanças dos depositantes e que emprestavam às empresas na economia real não podiam fazer operações especulativas com produtos financeiros. Durante décadas essa higiénica distância permitiu prosperidade económica, a par de visibilidade e eficácia no trabalho dos reguladores. Contudo, o lóbi financista, embalado pelo mantra do neoliberalismo, não descansou enquanto não meteu no bolso os governos e os parlamentos necessários para misturar tudo de novo. Em 1999, o Congresso americano revogou a lei de 1933, regressando à promiscuidade especulativa. Por todo o lado, incluindo a UE, as leis "liberalizaram-se", no sentido de criar obscuridade, onde antes havia transparência. Criaram-se condições para mascarar a exposição da poupança das famílias, no labirinto arriscado das ações, das obrigações e de uma miríade de derivados toxicamente imaginativos. Os políticos que se queixam dos banqueiros deveriam ter vergonha. O caos habita nas leis que eles próprios assinaram. Seria interessante saber como e porquê...
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4051730&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco#.U9fDT5DAcQA.facebook
 

domingo, julho 27, 2014

terça-feira, julho 08, 2014

Tanta é a fartura que já não apetece comer.

Tanta é a fartura que já não apetece comer.
Depois do enxameamento das associações e colectividades de ranchos e grupos folclóricos, temos o último fenómeno de materialização de fadistas, a torto e a direito.
Terminada a época das noites de fados, eis que os festivais de folclore aparecem em força, passada que foi a época das marchas dos santos populares. Até do desfile de Carnaval mais famoso do mundo, que é o do Rio, já me informaram que teve influência das marchas de Lisboa. Imaginem as coisas que eu ouço! Isto para não falar dos fins-de-semana gastronómicos, vinhos e petiscos, onde um qualquer vereador municipal da cultura, além de munido do discurso chapa cinco, deve também estar municiado, geneticamente, de um bom gancho de fígado e sucos estomacais de reserva.
Cultura a quanto obrigas neste tempo de espelhos, onde o buraco do BES não tem reflexo possível, logo não existe.

OS FACILITADORES (ler os outros)

OS FACILITADORES




OS FACILITADORES
O título, só por si, já era assustador: "Goldman Sachs aposta em Portugal". E a entrevista em que António Esteves, apresentado como ex-desportista de elite e actual partner do banco, revelava ao Expresso da semana passada os planos que eles têm para Portugal era de dei­xar em estado de alerta quem quer que conheça a história desse grande preda­dor global que é a Goldman Sachs. Qua­se se pode dizer que o que é bom para a Goldman Sachs é fatalmente mau para os países onde eles fazem negócios, pa­ra os seus consumidores e contribuin­tes. Pois que, como diz António Este­ves, "a Goldman é um banco muito di­reccionado para a performance". Isto é, não está especialmente interessado em financiar a economia dos países on­de se instala, mas em realizar o máxi­mo de lucros no mínimo de tempo. Que o digam os gregos ou os america­nos, que o diga a Comissão Europeia que acaba de a multar por manipula­ção das taxas Euribor, em cartel com outros tubarões da banca internacio­nal, que o diga a história desta crise mundial, onde a Goldman Sachs de­sempenhou um papel à altura dos seus pergaminhos. Agora que 250.OOO portugueses paga­ram com o desemprego e outros tantos com a emigração as políticas devastado­ras impostas pelo resgate a que fomos obrigados em consequência da crise ex­portada a partir dos EUA para o mun­do inteiro e causada pela ganância cri­minosa de bancos como a Goldman Sachs; agora que o resgate estilhaçou a legislação laboral, tornando qualquer novo emprego um trabalho precário e fazendo recuar dez anos o nível das re­munerações salariais; agora que o Go­verno português, fiel executante do que chamam o "processo de ajustamento da economia portuguesa", vende tudo o que é empresa estatal lucrativa, sem qualquer salvaguarda do interesse pú­blico; agora que as grandes empresas privadas, outrora chamadas "campeões nacionais", ou se expatriaram ou foram descapitalizadas por taxas de juro ban­cárias insustentáveis, praticadas pelas Goldman Sachs deste capitalismo de ra­pina; agora que, enfim, Portugal se tor­nou barato, vulnerável e indefeso, Antó­nio Esteves, como grande quadro ban­cário que é, repara que aqui "há oportu­nidades muito interessantes para os in­vestidores que estão à procura de acti­vos que lhes dêem mais retorno vis-à-vis com o resto da Europa". Foi isso que eles já fizeram, tornando-se o maior accionista privado dos CTT, na recente privatização levada a cabo pelo Governo. E isso é apenas o princípio, pois, como ele diz, "olhamos com mui­tos bons olhos para Portugal". Não contribui muito para me sosse­gar a notícia da contratação de José Luís Arnaut pela Goldman Sachs — na­quilo que suponho ser a primeira conse­quência prática da nova política do ban­co para Portugal, definida por António Esteves como assentando no "investi­mento em pessoas e talento". Desco­nhecendo eu qualquer talento ou expe­riência bancária de Arnaut, resta o seu talento — esse, sim, por todos reconhe­cido — no capítulo "pessoas". Tal como Miguel Relvas, outro notável talento em "pessoas", o novo "conselheiro" da Goldman Sachs, José Luís Arnaut, tem a capacidade de chegar às pessoas que interessam, utilizando um inestimável património, trabalhado com mestria anos a fio, e que no ramo se chama "lis­ta de contactos" — dos que atendem o telefone. Trata-se de uma próspera acti­vidade em qualquer lugar do mundo, mas sobretudo em países como Portu­gal, onde tudo pode ser vendido, con­cessionado, facilitado, negociado, e on­de a intimidade com o poder é a chave dos grandes negócios. Estes profissio­nais são bem designados pela deliciosa expressão que um amigo de Relvas en­controu para caracterizar a sua actual actividade: "um facilitador de negó­cios". O "facilitador de negócios", às ve­zes também designado por outras ex­pressões mais cruas ou menos elegan­tes, é alguém que tem a capacidade de fazer poupar tempo e desembrulhar dossiês complicados, encontrando sem­pre um vendedor para um comprador, um decisor para um interessado. José Luís Arnaut é, neste aspecto, um ás de trunfo para a Goldman Sachs: basta di­zer que não houve privatização feita por este Governo em que ele não tenha estado presente, representado ou os "investidores" face ao Estado ou o Esta­do face aos "investidores" — o que diz muito sobre a sua capacidade de acro­bacia negocial e ausência de estados de alma nocivos e deslocados. Não pen­sem que é fácil ou que qualquer um po­de chegar a um tão elevado estatuto na distinta profissão de facilitador de negó­cios. Não é essencial ter estado na políti­ca, mas é indispensável dormir com a política, sem olhar a camas. Embora a filiação num grande escritório de advo­cacia de tráfico de influências seja im­portante como porta de entrada, há ou­tras formas de lá chegar que não requerem sequer qualquer habilitação acadé­mica ou título profissional, como Rel­vas bem ilustra: uma agenda de contac­tos irrepreensível vale mais do que qual­quer PhD ou o nome no papel timbrado de uma sociedade de advogados. É ain­da necessário que essa agenda não se limite a conter o nome de políticos de um governo, pois que os governos vão mudando, enquanto que o essencial dos contactos deve permanecer na agenda: "jotinhas" do "arco da governa­ção", líderes emergentes da oposição, alguns autarcas de concelhos atracti­vos, académicos e técnicos tantas vezes necessários para dar credibilidade às pretensões, professores de direito para venderem pareceres, jornalistas para colocarem notícias ou opiniões a troco de um pagamento adequado. E é neces­sário também evitar que se aposte tudo apenas num nome em cada momento, para não acontecer o que aconteceu a Relvas, quando o seu grande contacto brasileiro, José Dirceu, acabou em des­graça atrás das grades. É um trabalho de filigrana, que exige inteligência, tac­to, cautela e capacidade de observação, muitos pequenos-almoços, muito salão, muita gravata Hermès. No fim de tudo isto, garantidos "os talentos e as pes­soas" certas, a Goldman Sachs pode di­zer, pela boca do seu partner António Esteves: "Portugal é um risco de que gostamos". Compreende-se o gosto, não se percebe é o risco.
Quando questionado sobre a sua omnipresença em todos os processos de privatizações, José Luís Arnaut defende-se atacando o miserabilismo dos crí­ticos e louvando-se de ter ajudado a tra­zer para Portugal milhares de milhões de "investimento externo". É um ponto de vista de quem acha que toda venda de bens públicos ao exterior é um inves­timento e bem-vindo. Mas, na mesma edição do Expresso da semana passa­da, um painel de economistas, professo­res e gestores defende exactamente o contrário, criticando o que se privati­zou e a forma como foi feito, chamando a atenção para a perda de poder de de­cisão alienado ao estrangeiro, para a perda de dividendos para o Estado e pa­ra a perda de lugares qualificados para portugueses nas empresas vendidas. Não é inocentemente que os progra­mas da troika para Portugal, Grécia e Irlanda insistiam tanto nas privatiza­ções, E não foi por capricho que mes­mo o governo de direita de Rajoy tudo fez para evitar a receita da troika em Espanha.
Quando acontecer o 1640 de Paulo Portas, marcado para 17 de Maio, só por inconsciência ou por conveniência se poderá dizer que recuperámos parte da nossa soberania. Apesar das privati­zações (justificadas para a diminuir), a dívida pública terá aumentado, mas, por via delas, Portugal terá alienado quase tudo o que, no sector económico, público ou privado, caracteriza um país soberano. A produção de electricidade foi vendida a uma empresa estatal chi­nesa, a distribuição dada em monopó­lio a chineses e árabes, parte substan­cial da banca e dos combustíveis vendi­dos a angolanos, os cimentos e as tele­comunicações aos brasileiros, os aero­portos aos franceses, a única compa­nhia aérea prestes a ser vendida a quem mais der, os correios aos america­nos da Goldman Sachs ou clientes seus, um terço do mercado de seguros tam­bém aos chineses e o próprio forneci­mento de água, o mais essencial de qualquer bem público, pronto a ser con­cessionado a quem os "facilitadores de negócios" determinarem. Se isto vai ser um país soberano, eu prefiro que voltem os Filipes. EXPRESSO 18/JAN/2014
 http://www.leituras.eu/out.php?u=http%3A%2F%2Fcadernosdalibania.blogspot.pt%2F2014%2F01%2Fos-facilitadores.html
 

segunda-feira, junho 16, 2014

quarta-feira, junho 04, 2014

Uma excelente notícia!

A crise no PS – uma excelente notícia!

A crise do país, como a da Europa, é a crise de lideranças, a submissão de 27 Estados aos ditames da senhora Merkel.
        
Esta anémica vitória do Partido Socialista era um fracasso anunciado, assim como era de prever as reacções de alguns militantes e notáveis do partido ao “avanço”de António Costa: os titubeantes, apanhados de surpresa e que preferem esperar para ver, os que se precipitaram e agora têm de se esconder para ter tempo de mudar de fato, os ex-críticos, mas que, “pelo seguro”, decidiram apoiar o secretário-geral a troco de uma sinecura no Parlamento Europeu.
Foi penoso ver Ana Gomes, na SIC, defender a continuidade do “líder”, contra as evidências que João Galamba lhe pôs à frente, ela que tem boas razões de queixa de Seguro, que abandonou o heróico presidente da Câmara de Viana à sua sorte, enquanto sozinha processava o ministro pelo obscuro processo que conduziu à entrega dos Estaleiros à Martifer. Foi doloroso ouvir João Soares dizer o que disse do seu camarada António Costa, sem se precaver contra inevitáveis interpretações freudianas das suas declarações. Os outros, Francisco Assis, Alberto Costa, Álvaro Beleza e alguns anónimos limitaram-se a confirmar o seu triste voto de fidelidade ao “líder” em exercício e a agarrar-se aos estatutos, como a uma bóia de sobrevivência.
Quanto às tristes peripécias estamos conversados. Seguro é um “líder” a prazo, um patético sobrevivente, um homem que passou a viver, desde segunda-feira, barricado no Rato, assombrado pela sua própria sombra. Vamos à substância.
Desde a grande manifestação popular de 15 de Setembro de 2012, sobretudo desde a demissão de Gaspar, a cambalhota de Portas e a tentativa patética de Cavaco para mostrar que estava vivo, qualquer líder do PS teria levado o país para eleições antecipadas e ganho com maioria absoluta. Desde então até agora, o descontentamento aumentou, pelos atentados diários aos direitos dos cidadãos, pelas mentiras do Governo, pela vil abdicação da nossa soberania, pelo caminho aberto para o abismo. Seguro assistiu a tudo, paralisado e impotente, fazendo os serviços mínimos: umas proclamações semanais no Parlamento, umas declarações avulsas garantindo vagamente que o país não aguentava mais austeridade. Quando era preciso aparecer, escondeu-se. No caso dos Estaleiros, na privatização dos CTT, em todos os casos em que a soberania do país e os direitos das pessoas estavam em causa, deixou esse papel ao PCP, ao BE, à CGTP e a cidadãos que, em desespero, multiplicavam as petições nas redes sociais.
Pretender que foi uma vitória eleitoral, quando cativou apenas 10% do descontentamento dos portugueses (menos do que o número de desempregados!), exigir eleições antecipadas, quando, pelas mesmas razões, devia ser o primeiro a exigi-las no seu partido, pretender que este resultado é a projecção antecipada do que serão as legislativas, sem explicar com quem se iria associar no governo para resolver o imbróglio de não ter conseguido uma maioria, é um prenúncio do desastre que seria se, a exemplo de Hollande, este jovem inexperiente e incapaz de decidir alguma vez chegasse a S. Bento. A defesa disfarçada que a coligação fez da “sua vitória” na noite das eleições devia bastar para nos elucidar.
O país vive a maior crise da sua História, depois da que antecedeu a proclamação do Mestre de Aviz, de Alcácer Quibir, de meio século de ditadura, porque aceitou por descuido que lhe roubassem a soberania, e que uma geração de políticos de aviário e um presidente mumificado lhe viessem dizer que não havia alternativa, que a culpa foi dos outros e que tínhamos de nos resignar à miséria e à escravidão. A crise do país, como a da Europa, é a crise de lideranças, a submissão de 27 Estados aos ditames da senhora Merkel, o que provoca um crescente nacionalismo isolacionista e antidemocrático na sua versão mais assustadora.
António Costa é alguém que já provou ser capaz de gerar consensos sem abdicar dos princípios. No estado em que está o país e a UE, é um acto de coragem e de patriotismo ter desafiado a liderança do PS. Mas a sua vitória pode também abrir caminho a que, no PSD e no CDS, possa emergir um idêntico apelo de fundo dos militantes que guardam um resto de dignidade e um assomo de patriotismo, para que mudem as lideranças e as orientações dos seus partidos.
Somos um pequeno país no concerto das nações europeias, que, em 1992, se deixaram enredar na teia de uma globalização sem freio e sem regras, na miragem de uma Europa federal alargada, em nome de uma paz duradoura e da mirífica coesão solidária dos Estados. Passos Coelho e a sua ministra das Finanças, com a cumplicidade de Portas, de Cavaco e de 108 deputados, quiseram fazer-nos crer que a destruição do Estado social e a venda do património eram a factura inevitável que a Europa nos cobrava por ter financiado a nossa integração, e o castigo da nossa apregoada nonchalance. Mas somos também o mais velho país da Europa, que deu provas de saber conviver com outros povos e outras culturas sem abdicar de prezar a sua independência.
Não é fácil governar um país, nesta Europa que se desfaz aos bocados, aprisionada pela lógica predadora do capitalismo global e pela gestão burocrática dos seus alegados interesses. Mas há que tentar. O gesto de António Costa é uma promessa arriscada: para ele e para nós. Porque a esperança gasta-se a cada nova decepção. Mas há que confiar que é possível mudar de política e, sobretudo, de atitude. Há que estabelecer os limites do tolerável, que encontrar alternativas à austeridade, que tomar medidas que devolvam a esperança no Estado, a confiança na Justiça e na solidariedade entre gerações. Sobretudo, há que falar verdade e repor a credibilidade na política e a confiança nos nossos representantes. Como disse Giraudoux: “A Pátria está em perigo, mas, se calhar, esse perigo é o que nos resta da Pátria.”
 
http://www.publico.pt/politica/noticia/a-crise-no-ps--uma-excelente-noticia-1638083
 

segunda-feira, maio 26, 2014

Lavandaria


Hoje cheguei ao local do trabalho como se não percorrido o habitual trajecto casa-trabalho. Não me lembro de ter percorrido tal caminho. O piloto automático funcionou.
Arrefeceu um pouco esta primavera. O céu de tom cinzento plúmbeo diz que vai chover. A sirene da fábrica arrebita os braços e as mente para os ruídos e sons do trabalho que começam a afinar e a executar a ritmada sinfonia do laboro.
Recordo ter vindo a ouvir a música de J. S. Bach, ritmos usados antes dos actuais marcados pela máquina e lembro que revisitei o armário das memórias, servi-me do olvidar do trajecto como limpeza de memórias de passados e pessoas inseguras que me trazem as tais, de muitos que tenho ouvido, energias negativas. Lentamente as empurro borda fora e, à mediada que o seu espaço por elas ocupado no armário diminui, melhor me sinto.
Não sendo dos meus interesses, não poderão fazer companhia de estrada. Além de me roubar essa tal energia, colam-me uma sensação de ressentimentos de ordens várias e estranhas, ou mesmo uns resquícios de culpa. Lentamente tudo para fora do armário das memórias e não me levem nas memórias. Eu sigo o meu caminho.
Vai começar a chover, não tarda nada.

quinta-feira, maio 15, 2014

Os novos e os velhos maoístas


Os novos e os velhos maoístas
Eu ainda sou do tempo em que havia em Portugal um partido irmão do Partido Comunista da China, era o nosso PCP-ml o partido que os chineses reconheciam como o partido da vanguarda da classe operária portuguesa. Era uma das várias organizações ML que deram ao país uma boa parte dos seus actuais políticos. Curiosamente, o seu líder era um tal Eduíno Vilar que durante anos deixou de ser visto, para ressuscitar num congresso do PSD ocorrido no Coliseu dos Recreios em Lisboa, onde deu nas vistas por causa de um qualquer incidente. Não sei se faz parte da imensa comitiva medieval que serviu de corte aos nossos monarcas da Quinta da Conchas, mas era da mais elementar justiça ter sido convidado.
  
E quando o Eduíno Vilar era o tuga que representava o puro comunismo maoísta o metalúrgico Jerónimo de Sousa era o modelo de comunista na versão soviética, nesse tempo ao mesmo tempo que a URRS trocava tiros na fronteira com a República Popular da China e o Vietname pró-soviético expulsava os khmers vermelhos pró-chineses do Cambodja por cá o Eduíno seguia a linguagem do MRPP de Durão Barroso e chamava social-fascista ao Jerónimo e este respondia designando os ML por pequena burguesia radical. Era o tempo em que a camarada Zita Seabra, o modelo de mulher comunista, peluda e a cheirar a cavalo, liderava um MJT, uma espécie de milícia do PCP, numa batalha épica com o MRPP que destruiu a biblioteca do ISE.
  
Por vezes o destino é mesmo irónico e a orgulhosa direita portuguesa vai hoje a Pequim passar a mão no pêlo dos perigosos comunistas nascidos na revolução cultural chinesa e moldados na repressão mortífera dos manifestantes da Praça da Paz Celestial. Mas isso aconteceu muito antes das primavera árabes ou das manifestações de Kiev e agora os comunistas chineses são bem-vindos, eles e o seu dinheiros conseguindo à custa de dumping social e de um dos sistemas mais repressivos do planeta.
  
A admiração da direita pelos chineses é tanta que até o Eduardo Catroga decidiu prolongar a sua dedicação ao país, depois de ter trabalhado a título gratuito na produção do memorando com a troika decidiu perder dinheiro ao prescindir das suas pensões para ganhar muito menos na EDP. Por este andar ainda terá lugar reservado no próximo congresso do PC chinês, como representante da zona económica da Praça Marquês de Pomba, onde se situa a sede maior empresa chinesa da Europa.
  
Um dia destes ainda vamos ver Eduíno Vilar, Jerónimo de Sousa, Durão Barroso concluírem que aquilo que os une aos chineses é muito mais do que os que os divide em Portugal e superarem as suas divergências políticas. Enfim, não é nada que já não aconteça em muitas autarquias, para não referir o silêncio do PCP em torno do negócio da EDP ou de qualquer interesse chinês no capitalismo português. O amor aos chineses, o ódio ao PS, o desprezo pelo Dalai Lama, os projectos comuns nas autarquias, os jeitos parlamentares no derrube de governos não maoístas são mais razões mais do que suficientes para que um dia destes as correntes portuguesas se fundam num mesmo projecto político.
  
Da forma mais inesperada Portugal é governado por maoístas e o sucesso do maoísmo por estas bandas é tão grande que até conseguimos colocar um maoísta à frente da Comissão Europeia. Temos a direita com mais maoistas, temos os maoístas melhor colocados na política internacional à escala mundial, temos o maior partido comunista pró-chinês da Europa e talvez mesmo do mundo ocidental. Só falta mesmo sugerir a união de todos os pró-chineses no mesmo partido e a geminação de Portugal com a República Popular da China.
 

http://jumento.blogspot.pt/2014/05/os-novos-e-os-velhos-maoistas.html?fb_action_ids=637081843042195&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=%5B725769147462565%5D&action_type_map=%5B%22og.likes%22%5D&action_ref_map=%5B%5D

terça-feira, maio 13, 2014

Uma questão cultural


A mensagem ideológica que mais tem passado nas reportagens televisivas destes últimos dias de Maio tem sido a valorização e resignação da pobreza.
Eu partilho da ideologia cultural na abertura das pessoas e dos povos contra a pobreza individual e colectiva.

segunda-feira, maio 12, 2014

Ajudas a Portugal e Grécia foram resgates aos bancos alemães


É incorrecta a narrativa que os alemães contaram a si próprios de que a crise do euro teve a ver com o Sul a querer levar o dinheiro deles, diz ex-conselheiro de Durão Barroso.

Philippe Legrain, ex-conselheiro do actual presidente da Comissão Europeia DR

Philippe Legrain, foi conselheiro económico independente de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, entre Fevereiro de 2011 e Fevereiro deste ano, o que lhe permitiu acompanhar por dentro o essencial da gestão da crise do euro. A sua opinião, muito crítica, do que foi feito pelos líderes do euro, está expressa no livro que acabou de publicar “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”.
A tese do seu livro é que a gestão da crise da dívida, ou crise do euro, foi totalmente inepta, errada e irresponsável, e que todas as consequências económicas e sociais poderiam ter sido evitadas. Porque é que as coisas se passaram assim? O que é que aconteceu?
Uma grande parte da explicação é que o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro. Foi por isso que, quando a crise financeira rebentou, foram todos a correr salvar os bancos, com consequências muito severas para as finanças públicas e sem resolver os problemas do sector bancário. O problema tornou-se europeu quando surgiram os problemas da dívida pública da Grécia. O que teria sido sensato fazer na altura – e que era dito em privado por muita gente no FMI e que este acabou por dizer publicamente no ano passado – era uma reestruturação da dívida grega. Como o Tratado da União Europeia (UE) tem uma regra de “no bailout” [proibição de assunção da dívida dos países do euro pelos parceiros] – que é a base sobre a qual o euro foi criado e que deveria ter sido respeitada – o problema da Grécia deveria ter sido resolvido pelo FMI, que teria colocado o país em incumprimento, (default), reestruturado a dívida e emprestado dinheiro para poder entrar nos carris. É o que se faz com qualquer país em qualquer sítio. Mas não foi o que foi feito, em parte em resultado de arrogância – e um discurso do tipo ‘somos a Europa, somos diferentes, não queremos o FMI a interferir nos nossos assuntos’ – mas sobretudo por causa do poder político dos bancos franceses e alemães. É preciso lembrar que na altura havia três franceses na liderança do Banco Central Europeu (BCE) – Jean-Claude Trichet – do FMI – Dominique Strauss-Kahn – e de França – Nicolas Sarkozy. Estes três franceses quiseram limitar as perdas dos bancos franceses. E Angela Merkel, que estava inicialmente muito relutante em quebrar a regra do “no bailout”, acabou por se deixar convencer por causa do lobby dos bancos alemães e da persuasão dos três franceses. Foi isto que provocou a crise do euro.
Como assim?
Porque a decisão de emprestar dinheiro a uma Grécia insolvente transformou de repente os maus empréstimos privados dos bancos em obrigações entre Governos. Ou seja, o que começou por ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar os bancos, acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa entre países credores e países devedores. E em que as instituições europeias funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores. Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.
Quando diz que os Governos e instituições estavam dominados pelos bancos quer dizer o quê?
Quero dizer que os Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos como campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com ligações financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta entre bancos e políticos. No meu livro defendo que quando uma pessoa tem a tutela de uma instituição, não pode ser autorizada a trabalhar para ela depois.
Também diz no seu livro que quando foi conselheiro de Durão Barroso, o avisou claramente logo no início sobre o que deveria ser feito, ou seja, limpar os balanços dos bancos e reestruturar a dívida grega. O que é que aconteceu? Ele não percebeu o que estava em causa, ou percebeu mas não quis enfrentar a Alemanha e a França?
Sublinho que isto não tem nada de pessoal. O presidente Barroso teve a abertura de espírito suficiente para perceber que os altos funcionários da Comissão estavam a propôr receitas erradas. Não conseguiram prever a crise e revelaram-se incapazes de a resolver. Ele viu-me na televisão, leu o meu livro anterior (*) e pediu-me para trabalhar para ele como conselheiro para lhe dar uma perspectiva alternativa. O que foi corajoso, e a mim deu-me uma oportunidade de tentar fazer a diferença. Infelizmente, apesar de termos tido muitas e boas conversas em privado, os meus conselhos não foram seguidos.
Porquê? Será que a Comissão não percebeu? A Comissão tem a reputação de não ter nem o conhecimento nem a experiência para lidar com uma crise destas. Foi esse o problema?
Foram várias coisas. Claramente a Comissão e os seus altos funcionários não tinham a menor experiência para lidar com uma crise. Era uma anedota! O FMI é sempre encarado como a instituição mais detestada [da troika], mas quando foi juntamente com a Comissão à Irlanda, as pessoas do FMI foram mais apreciadas porque sabiam do que estavam a falar, enquanto as da Comissão não tinham a menor ideia. Por isso, uma das razões foi inexperiência completa e, pior, inexperiência agravada com arrogância. Em vez de dizerem “não sei como é que isto funciona, vou perguntar ao FMI ou ver o que aconteceu com as anteriores crises na Ásia ou na América Latina”, os funcionários europeus agiram como se pensassem “mesmo que não saiba nada, vou na mesma fingir que sei melhor”. Ou seja, foram incapazes e arrogantes. A segunda razão é institucional: não havia mecanismos para lidar com a crise e, por isso, a gestão processou-se necessariamente sobretudo através dos Governos. E o maior credor, a Alemanha, assumiu um ponto de vista particular. Claro que isto não absolve a Comissão, porque antes de mais, muitos responsáveis da Comissão, como Olli Rehn [responsável pelos assuntos económicos e financeiros], partilham a visão alemã. Depois, porque o papel da Comissão é representar o interesse europeu, e o interesse europeu deveria ter sido tentar gerar um consenso de tipo diferente, ou pelo menos suscitar algum tipo de debate. Ou seja, a Comissão poderia ter desempenhado um papel muito mais construtivo enquanto alternativa à linha única alemã. E, por fim, é que, embora seja politicamente fraca, a Comissão tem um grande poder institucional. Todas as burocracias gostam de ganhar poder. E neste caso, a Comissão recebeu poderes centralizados reforçados não apenas para esta crise, mas potencialmente para sempre, que lhe dão a possibilidade de obrigar os países a fazer coisas que não conseguiram impor antes. É por isso que parte da resposta é também uma tomada de poder.

http://www.publico.pt/economia/noticia/ajudas-a-portugal-e-grecia-foram-resgates-aos-bancos-alemaes-1635405

domingo, maio 04, 2014

A limpeza da saída. Este país não é para velhos. Este país não é para novos. É para quem não tem sentido crítico, para quem tem estômago de avestruz e memória de peixe. Este país dificilmente será para mim. Reservo-me novamente o direito de me sentir indignada e desejo que um dia a história me dê algum suporte. Mas creio que este país não seja para quem deseje. Mas vai ser de quem luta.
Com Marta Ribeiro