quarta-feira, abril 09, 2014




A ORIGEM DO MUNDO

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

 

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“A origem do mundo”, de Courbet (*)

 

Sérgio Telles

 

O quadro “A Origem do mundo” tem uma história curiosa à qual se acrescentou um novo capítulo semana passada. A tela foi pintada em 1866 por Courbet, a pedido de Khalil Bey, diplomata turco-egípcio e colecionador de quadros eróticos, que a possuiu até o momento em que, arruinado pelo jogo, teve sua coleção leiloada. Em 1889, o quadro foi encontrado num antiquário pelo escritor francês Edmond de Goncourt e, posteriormente, comprado por um nobre húngaro que o levou para Budapeste, onde escapou da pilhagem realizada pelas tropas russas no final da Segunda Guerra. Trazido de volta a Paris, foi comprado por Jacques Lacan, que o mantinha em sua casa de campo em Guitrancourt, na qual o exibia ritualisticamente a seus convidados. Após a morte de Lacan, a família cedeu o quadro ao Museu d’Orsay dentro das negociações com o estado francês em torno de impostos referentes à transmissão de herança. 

“A origem do mundo” mostra os genitais femininos da maneira mais crua possível. Vê-se um torso da mulher, os seios, o ventre, as pernas afastadas, a frondosa cobertura pubiana e a vagina entreaberta. A novidade recente é que teria sido encontrada a parte superior do quadro, que exibe os ombros e a face da modelo, confirmando hipóteses anteriores que afirmavam ser ela a irlandesa Joanna Hiffernan, que posava também para o grande pintor Whistler, de quem fora companheira e que estaria envolvida afetivamente com Courbet na ocasião em que o quadro estava sendo pintado.

Supondo a veracidade da descoberta, que ainda está em discussão entre os especialistas, podemos conjecturar quem teria seccionado a pintura e por que motivo. O quadro era tido como pornográfico e até muito recentemente mantinha essa conotação. Não é então difícil imaginar que o próprio pintor tenha resolvido mutilar sua obra com o intuito de proteger sua modelo. Ainda em 2009, livros cujas capas o reproduziam foram confiscados pela polícia em Portugal e páginas do Facebook que o exibiam foram retiradas do ar em 2011.  Não deixa de ser surpreendente que, em função do noticiário, sua imagem tenha aparecido abertamente em todos os jornais.

 

 

A trajetória do quadro, vindo dos porões da pornografia para a consagração definitiva nos salões do Museu d’Orsay mostra como a apreciação de uma obra está inevitavelmente atrelada aos valores vigentes no tempo e no lugar de seu surgimento.

Contrariando a representação idealizada do nu feminino, Courbet o apresenta de forma realista. Consta que o grande crítico de arte e ensaísta vitoriano John Ruskin, reverenciado por Proust, jamais superou o choque ocorrido no leito nupcial, ao se deparar com as características hirsutas de sua mulher, tão distantes da lisa e glabra estatuária clássica que lhe era familiar, acontecimento de consequências desastrosas para seu casamento, jamais consumado fisicamente. Mais recentemente, no final dos anos 60, o editor da “Penthouse”, Bob Guccione, causou furor ao mostrar esse detalhe da anatomia feminina, até então pudicamente evitado até mesmo por sua rival, a revista “Playboy” de Hugh Hefner.

Atualmente a forma de dispor o velo pubiano parece estar num outro estágio, evidenciando que, a cada época, o erotismo desenvolve novas estratégias de sedução e formas de acicatar o desejo. Se Courbet, fiel aos costumes de seu tempo, mostra o genital feminino envolto em sua pilosidade natural, constata-se como a moda atual é diferente, na medida em que a depilação é a regra para as mulheres e até mesmo para os homens. Nos dias de hoje, Ruskin não teria tido problemas em sua lua de mel.

As transformações na maneira como a sociedade acolheu “A origem do mundo” mostra como a arte, enfrentando a censura e os preconceitos da época, luta para representar e expor o que é considerado inaceitável, proibido, não representável. Desta forma ela está permanentemente ampliando os limites e as fronteiras daquilo que é permitido pela moral e os costumes.

Trata-se de um serviço inestimável que a arte presta ao conhecimento. Na medida em que simboliza, representa e põe em circulação conteúdos até então excluídos, torna possível o pensar e o refletir sobre eles. Com isso, os aspectos mistificadores, idealizadores, ideológicos – ou seja, a dimensão fantasiosa que acompanha estes conteúdos quando forçados a medrar no escuro – são expostos  à luz, o que lhes retira a conotação assustadora, devolve-lhes a real dimensão e a possibilidade de um tratamento objetivo adequado.

No fundo, estamos falando da liberdade de expressão. O estado tem o dever de proteger os cidadãos e neste sentido, deve exercer a censura (aqui entendida lato censo, como o poder de reprimir e punir) para limitar os impulsos agressivos e sexuais que nos são próprios e que precisam ser coibidos para garantir a vida em sociedade. Mas o exercício da censura é complicado, pois o estado tem seus próprios interesses, que nem sempre coincidem com os da sociedade que deveria representar. Por isso  esta deve estar sempre atenta ao poder do estado, especialmente no que diz respeito às tentativas de reprimir a livre manifestação de opinião.

Pornografia ou arte, o quadro de Courbet mostra como a representação explícita dos genitais mantém inalterado um efeito perturbador sobre nós, como algo arcaico vindo de tempos imemoriais que nos atinge profundamente, sem que possamos evitá-lo.  Ela evoca, sim, a “origem do mundo”, o mistério da vida, o enigma da diferença sexual cujo impacto determinante ocorrido na infância continuará para sempre repercutindo em nossas existências.

A propósito da diferença sexual, em 1989, a artista francesa Orlan, conhecida por suas incursões na body art e outras vertentes da vanguarda, criou sua versão do quadro de Courbet, na qual mostra um torso masculino com o falo em ereção, intitulando-o, significativamente, como “A origem da guerra”. Como tudo que Orlan faz, o quadro e o título convidam à polêmica.  Mais uma vez traz à tona a questão do que deve ser exposto e do que deve ser ocultado. Ao atribuir às mulheres o poder criativo e delegar aos homens a carga da destrutividade, para tanto invertendo o significado convencional do falo enquanto símbolo de  fertilidade, Orlan toma uma posição política de denúncia contra a violência machista ainda vigente mesmo nas sociedades mais evoluídas.

 

(*) Versão ampliada de artigo publicado no Caderno 2 do jornal  “O Estado de São Paulo” em 16/02/2013


 

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