quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Ler os outros


Alternativas à troika? As respostas


Henrique Monteiro
10:52 Quarta feira, 27 de fevereiro de 2013

...

Ontem fazia uma pergunta: se mandarmos lixar a troika, o que fazemos em seguida. Não me posso queixar de falta de respostas: ente comentários no sítio do Expresso, na página deste jornal no Facebook e na minha página do Facebook foram quase 300 - ainda que alguns comentadores tenham intervindo mais do que uma vez, como é costume.

A todos agradeço, mas nenhum me convenceu totalmente. Vamos por partes.

Uma boa parte dos comentadores optava por renegociar a dívida em termos mais favoráveis. O argumento é válido, é provavelmente prudente e assisado, mas... não é argumento. Porque, nesse caso, não mandaríamos lixar a troika. Pelo contrário, chama-la-íamos a negociações, oferecendo-lhes, pelo menos, um cafezinho. Esta é uma solução do tipo daquela que é defendida pelo PS e por setores do PSD como Manuela Ferreira Leite. É sensata.

Outra parte considerável dos comentadores optava pela saída do euro. Seria, do meu ponto de vista, um erro trágico que nos condenaria a uma miséria ainda mais miserável, se me é permitida a tautologia. Se saímos com a paridade que entrámos (um euro igual a 200 escudos, mais ou menos), rapidamente o escudo se desvalorizaria substancialmente. Na Islândia, país muitas vezes apontado como exemplo, a desvalorização da coroa foi de 80%. Imaginemos que por cá era semelhante. Isto significa que quem ganhasse mil euros passava imediatamente a ganhar 200 contos. Mas passados momentos, esses 200 contos já não valiam mil, mas apenas cerca de 560 euros. Como a maioria dos bens de consumo são importados e como as dívidas dos bancos e do Estado é em euros, podemos antever o que isso significaria. Ou seja, a brutalidade de impostos que já pagamos seria, através da inflação, multiplicada e estendida de forma cega - uma vez que a inflação é um imposto escondido que tanto pagam ricos como pobres.

Boa parte apelava ainda à aventura. Um comentador João Sá, comentava no Facebook citando o poeta José Régio - "não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí". Outros, citaram a gesta dos Descobrimentos e outras ideias românticas. São interessantes e, por vezes, também me apetece ser assim. Mas se os versos de Régio podem ser um belo programa pessoal (o único prejudicado de uma má escolha é o próprio), não pode ser um bom programa social, em que os prejudicados são todos. Não me parece solução.

Há ainda, os que dizem - e com alguma razão - "você quer que quem já perdeu tudo, quem está desempregado, faça escolhas racionais?" (foi o caso de um comentador da página do Expresso de nickname Runaldinho). Mas, meu caro, não são esses que intervêm na praça pública. Quem está a intervir na praça pública, a cantar o Grândola não são, sobretudo, os desesperados. Entre os que estiveram no Parlamento conheci alguns. Um deles foi meu professor na universidade. O meu apelo à racionalidade é para aqueles que, como o senhor ou eu, ainda têm o suficiente para não desesperar e para perceber que da democracia se passa facilmente à demagogia e desta à ditadura que beneficia alguns, mas se torna ainda pior para todos.

O povo é quem mais ordena é uma frase que, pessoalmente, cantei muitas vezes. Tem sentido democrático e não há melhor método do que as eleições para decidir quem Governa. Mas, mesmo com eleições, não há a garantia de boas escolhas. Hitler ganhou na Alemanha. Berlusconi é um caso; Beppe Grillo outro.

As eleições italianas, como as gregas antes, demonstram o que acontece quando se deixa a demagogia à solta. Quando os sentimentos substituem a razão. Não me sentiria bem se contribuísse, um pouco que fosse, para isso.

Twitter: @HenriquMonteiro https://twitter.com/HenriquMonteiro


Facebook:Henrique Monteiro http://www.facebook.com/hmonteir


Efeito manada

É o "efeito manada" , "l'esprit moutonnier" - "mais vale errar em grupo do que ter razão sózinho".

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Se o Titanic naufragasse em 2013, estou seguro de que quase todos esses 400 super-ricos chegariam são e salvos, deixando para trás, se necessário, as suas próprias mulheres e crianças. A gente que manda hoje no mundo acredita apenas no sucesso egoísta, traduzido em ganhos monetários, pisando todas as regras e valores.
Ler mais no "Tropeçar no vilão".
De Viriato Soromanho Marques.
 

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3032870&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Miles Davis Someday My Prince Will Come


A nova (velha) ANP

O país parece ficou prisioneiro de uma certa mentalidade ruralista e tacanha do tempo do salazarismo. Até foi governado por um senhor de Boliqueime e foi o que se viu, pois até se aproveitou de Sá Carneiro, o líder da direita portuguesa com formação democrática, como poucos. Os que agora se sentam na cadeira do poder apresentam-se com patrocínios duvidosos, não passando de uns tacanhos competentes em fazer chegar a Coisa Pública ao estado que desejam e que para tal lá foram colocados. Nem esta coisa da TV rural é por acaso! Nada é por acaso. Estamos a empobrecer aos níveis da década de setenta.
A nova ditadura está a ser instalada.
 
 

quarta-feira, janeiro 30, 2013

segunda-feira, janeiro 28, 2013

A teimosia e a realidade

Por mais e melhor encenação que se faça, mesmo com a melhor propaganda possível, a realidade teima em ser teimosa. A realidade é demasiado teimosa.

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Pinhais do Escoural (2)

Cogumelo à beira do caminho.

Pinhais do Escoural (1)

Cogumelo à beira do carreiro.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Reis Magos

Como se via o céu antes dos potentes telescópios: “As 3 estrelas que formam a cintura de Orion, seguiram a estrela do oriente (Sírius) e chegaram ao local do nascimento da grande luz que ilumina toda a humanidade, o Sol”.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Aqui, ali e por acolá!

Aqui, ali e por acolá!
Em Portugal, com a devida vénia a Eduardo Aroso.
AQUI E ALI EM PORTUGAL

Andamos pelo país; vamos aqui e ali: aldeias, vilas e cidades. Portugal triste, cada vez mais entristece. O que não diriam hoje Unamuno, Pascoaes, Agostinho da Silva e muitos outros! Lojas que fecham, paisagens que ...definham, ruas e espaços de ausências; o resto dos sonhos queima-se na lareira. O que ainda resiste não é visível e palpável, e ainda bem porque se assim não fosse seria roubado ou pagaria mais algum imposto…

Em mais um Natal, Portugal é uma espécie de estábulo (com licença dos concidadãos) ou gruta fria e pobre, mas sem a luminosa esperança que nasceu há dois mil anos. Este “menino” já espigado – ou rapazola que nos governa – veio enganar-nos com a falsa estrela a que ele chama optimismo, como outros já o fizeram ainda não há muito tempo. Veio trazer-nos a estrela do optimismo e do “bom caminho”…

Desvirtuada e desventrada a doce parábola bíblica do Bom Pastor, ficámos a saber (e a sentir) que um mau pastor até pode indicar “o bom caminho”!

Eduardo Aroso

terça-feira, dezembro 25, 2012

Rosas de Inverno

Rosas de Inverno no meu jardim.
A rosa  quase branca pela falta do sol, é uma flor pequena de uma roseira primitiva. Ouvi chamar rosas de santa Teresinha! Em Maio liberta um aroma a roseiral que invade o exterior dos muros do jardim. A vermelha, é também primitiva e cheirosa. Temos outras que apesar de bonitas, não chegam aos cacanhares das primitivas, pois estas em pleno solstício de Dezembro ainda marcam presença.

(Dança)Tanz - Carmina Burana (6) - Carl Orff


segunda-feira, dezembro 24, 2012

Natal gandarês

 
Um bom Natal com fogueira  anunciadora do sol invictus, o anúncio da renovação.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

segunda-feira, dezembro 17, 2012


Porque é que não existem problema da nossa responsabilidade? Porque é que os problemas são sempre da responsabilidade dos outros?
A usada e abusada técnica simples e eficaz, que resulta sempre. Esta passa por não falar deles e muito menos admitir que eles existem. Melhor será os aceitar como vontade da providência divina, ou da falta de não palmilhar os caminhos que alguém diz serem dela, então ainda melhor.
É que abordar os problemas só traz chatice. Então para quê falar deles?
Em vez de falar de saúde é falar de DOENÇA.
Em vez de falar de desenvolvimento social é falar de ACÇÃO SOCIAL como prioridade. CULTURA fica sempre bem, é como o arroz doce numa sobremesa.
Em vez de falar de instrução é falar de EDUCAÇÃO.
O rio tem duas margens sabemos todos nós.
Já experimentaram olhar de cima da ponte?

domingo, dezembro 16, 2012


Gaivotas em terra…
Um vento forte e húmido que puxa a chuva é mandador da dança bailada dos pinheiros ao fundo do quintal.
Um bando de gaivotas sobrevoa os pinhais do Escoural, dançando lá muito alto um rodízio de volta, umas das outras no sentido contrário aos ponteiros de um relógio, daqueles que existiam em tempos.
O bando, um quarteirão delas, talvez nem tantas, trazido pelo vento forte, é empurrado para os lados da Fervença.
 

sexta-feira, dezembro 14, 2012

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Mudar de moleiro e não mudar de ladrão.

Mudar de moleiro e não mudar de ladrão.

A obsolescência programada deliberadamente tem objectivo de originar nova compra, reduzindo o tempo entre compras sucessivas.
Comigo isto já se passou pela segunda vez com um telemóvel, que deliberadamente deixa de funcionar três anos após a compra, obrigando-me a comprar outro equipamento. Como tudo é competitivo, esta estratégia é um risco. Assim, como da última vez não encontrei bateria de substituição, mudei de marca. Agora como um simples botão que tinha funções de rato, tipo do computador, avariou, irei adquirir, já amanhã, uma outra marca e outro tipo de equipamento, pois hoje à tarde fiquei sem telemóvel.
Irei mudar de moleiro, mas não irei mudar de ladrão.
Considero a obsolescência programada como anti Ético.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Guitarra modelo de Lisboa

Guitarra portuguesa.
Comprimento total: 800 mm
Comprimento de corda vibrante: 445 mm
Largura: 370 mm
Altura da caixa: 75 mm
Tampo: Espruce
Fundo: Pau Santo
Ilhargas: Pau Santo
Braço: Mogno , voluta obra do mestre entalhador José Carvalho
Escala: Ébano
Pestana e Cavalete: Osso de vaca
Rosácia: massa de pó de carvão com embutidos em madre pérola.

Data de construção: 07-12-2012.

domingo, dezembro 09, 2012

Pelo Natal, salto de pardal.


Pelo Natal, salto de pardal.

 

Vivemos a olhar demasiado para o chão, e quando olhamos o céu não afastamos a poluição de vária ordem que nos cobre a cabeça e nos ofusca a vista.

Sabemos que os povos antigos tinham um conhecimento do céu e descreviam tudo o que por lá se passava. Muitos estudiosos de antigamente aceitavam o simbolismo de uma estrela associada ao nascimento de alguém muito importante. Assim, alguém importante que nascia teria que ter um anúncio celeste de invulgar ocorrência.

O deus sol nasce após o seu declínio para a sua vitória sobre a noite, não de 21 para 22 de Dezembro, o solstício, mas 3 dias depois, na noite de 24 para 25 de Dezembro, quando começa a nascer mais a norte, isto é o tal salto de pardal pelo Natal, a ressurreição ao 3º dia conforme as escrituras que, efectivamente se podem ler no céu.

Olhem para o céu nestas noites de Natal e descubram a estrela que anuncia (aponta) o local do nascimento, assim como os 3 reis magos que vieram do oriente.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

As fezes do Borges.


As fezes do Borges.
(ter fezes no sentido de ter mais que uma fé)
Vivemos o Tempo que os que agora coçam os fundilhos nos cadeirões do Poder, e que ainda há pouco afirmavam a necessidade de “desregular”, ”não irritar os Mercados, “menos Estado melhor Estado”, esses mesmos, agora com aplicação e desvelo, estão a injectar dinheiro no sistema para o salvar da desregulação, ou a arranjar maneira de o fazer.
Vamos lá entender estes gajos! Tantas foram as postas de pescada arrotadas, onde a memória esquece o cheiro a fénico saído das TVs, ouço o Sr. Borges afirmar que não vê, ainda, a luz ao fundo do túnel, mas que acredita que está no caminho certo.
Na verdade, ele sabe que não está dentro do túnel. Ele faz parte dos eleitos do senhor deus Mercado que ninguém ainda viu, e tudo salvará. Só os incréus e os incapazes ficarão para trás. O Sr. Borges é um santo!

segunda-feira, dezembro 03, 2012

A Indústria de breu e carvão que existiu no Escoural


A Indústria de pez e carvão que existiu  no Escoural.
O breu (pez negro) é o produto extraído da resina e que era utilizado em tarefas tão diversas como a calafetagem dos barcos e a envolvência de redes de pesca na tentativa de evitar a deterioração da sensível matéria que as compunha, sisal.
 

Esboço retirado do meu moleskine de Dezembro de 2010, segundo a descrição do ti Faneco.

Presépio

‎02 de Dezembro, Mercado da Tocha.
Presépio à venda.

segunda-feira, novembro 26, 2012

Mais do mesmo


“No contexto económico criado pela União Económica e Monetária não é aceitável que a política fiscal quase não tenha eficácia enquanto instrumento de política económica; como aceitar que a taxa do IVA passe de 17 para 19% e as receitas não acompanhem o aumento?”

In http://jumento.blogspot.pt/ Thursday, February 10, 2005

 

Ainda a afinação da banza, tipo de "Lisboa" feita no Escoural.

Ainda a afinação da banza, tipo de "Lisboa" feita no Escoural.




sábado, novembro 24, 2012

Em equipa que ganha, mexe-se


Em equipa que ganha, mexe-se

 

Não há nada de mais errado do que este ditado popular que diz que “em equipa que ganha não se mexe”. Sempre achei esta ideia muito curiosa, porque penso que é muito perversa e excessivamente conservadora. No fundo o que este ditado diz é que se uma equipa ganha, ou seja, apresenta bons resultados, então é porque é uma boa equipa e não se deve mexer nela. Mas então quando é que se deve mexer? Se não se mexe enquanto ganha, então esperamos que perca para poder mexer. É por isso uma estratégia perdedora, a curto-médio prazo, e muito deficiente.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Ecce Gratum* - Carmina Burana (5) - Carl Orff


Ecce Gratum

Ecce gratum
et optatum
ver reducit gaudia,
purpuratum
floret pratum,
Sol serenat omnia.
Iam am cedant tristia!
Estas redit,
nunc recedit
Hyemis sevitia.
Iam liquescit
et decrescit
grando, nix et cetera,
bruma fugit,
et iam sugit
Ver estatis ubera;
illi mens est misera,
qui nec vivit,
nec lascivit
sub Estatis dextera.
Gloriantur
te letantur
in melle dulcedinis,
qui conantur,
ut utantur
premio Cupidinis:
simus jussu Cypridis
gloriantes
et letantes
pares esse Paridis.



Ecce Gratum (Tradução)

Eis a cara Primavera

Eis a cara
e desejada
primavera que traz de volta a alegria:
flores púrpuras
cobrem os prados
o sola tudo ilumina.
Já se dissipam as tristezas!
Retorna o verão,
agora fogem os rigores do inverno. Ah!

Já se liquefazem
e desaparecem
o gelo, neve, etc.
A bruma foge,
a a primavera suga
o seio do verão;
É de lamentar-se
aquele que não vive
nem se entrega
à doce lei do verão. Ah!

Que provem glória
felicidade
doce como o mel,
aqueles que ousam
aspirar
ao prêmio do Cupido;
Sob o comando de Vênus
glorifiquemos
e rejubilemo-nos
a exemplo de Páris. Ah!

quinta-feira, novembro 15, 2012

A A17 obrigou-me a ficar onde estou


A A17 obrigou-me a ficar onde estou

….” Devo estar enganado, cuido eu, a orientara-me. Devo estar enganado. Olho e reolho em toda a volta, mas não vejo nem a casa, nem as figueiras, nem o retalho das leiras que eu conhecia como a palma das mãos. O sol já vai alto e é bem capaz de me ter embrulhado o juízo. Mas penso que sei onde estou. Daqui, vejo o pinhal alto do cabeção, a casa do Porlico, as terras do Curto e a aba dos pinheiros da Lagoa do Porco. Não, eu não posso estar enganado. O estradalhão é que me fez perder o juízo, se é que o perdi, não foi o sol a arder-me no moleirinha e a dar comigo em tolo. Eu tinha pegado um ramalzito que vinha da porta do Zé das Sementes e entroncava depois na estrada do Brejo, bem perto já da casa do Moléstia. Dantes, lembro-me bem, este ramal era caminho-de-carro que seguia sempre, após cruzar-se com a estrada, virado ao Cabeção e ao Pousio. Depois, perdia-se pelos atalhos e serventias do Arneiro Meão. Sei bem o que estou a dizer. Mas, porém. Enquanto estive no Ribeiro da Horta, passaram-se coisas que nem lembram ao mais pintado dos diabos. A A17 obrigou-me a parar aqui onde estou, porque a estradita por onde eu vinha ficou-lhe por debaixo, abacelada, de fora do mapa. Esse ramalzito ficou desexistido. E fizeram uma ponte com duas saídas lá em cima.….”
[Idalécio Cação]

(Texto subversivo e inédito)

quarta-feira, novembro 14, 2012

A muralha da China


A muralha da China
 
….” O que eu quero é deixar contadas aqui as horas em que todos vivíamos felizes, sem nada a impedir-nos de falarmos uns com os outros. Principalmente os vizinhos de porta com porta, como sucedia comigo e o meu amigo compadre Luzio. Mesmo assim, sabe-me bem voltar ao estribilho. Entoá-lo um pouco mais ou menos é o meu desvelo, eis a questão. Ou o meu calvário, conforme. Lembro-me bem, tão vizinhos que nós éramos todos, eu que o diga, que é difícil esquecer esses pontos de verdade. Casas com casas, pinhais com pinhais, searas de pão com searas de pão. O sol nascia sempre do mesmo lado, das bandas do castelo, lembro-me como se fosse hoje, entre a casa da Maria Ferrita e o pinheiro do Arménio. E o astro, a erguer-se na sua glória, floreava sobre as searas, bafejava-as nas crescenças, poisava a sua luz nas folhas e nas espigas, até aloirarem no tempo das colheitas.….”
[Idalécio Cação]
 
(Texto subversivo e inédito)

 

Ler é sempre uma coisa de respeito


….”Ler é sempre uma coisa de respeito, e tem de haver muito silêncio para um homem não se perder na leitura e dar o tom mais conveniente às notícias. Ler é como apanhar fruta numa árvore, colhê-la, e dá-la a comer a quem não pode chegar lá acima. Agente recebe as palavras ouvidas, sempre com as orelhas guiadas, não vá perder-se nem um grãozinho da leitura, nem o seu tom…….”

[Idalécio Cação]
(Texto subversivo e inédito)

terça-feira, novembro 13, 2012

Omnia Sol Temperat - Carmina Burana (4) - Carl Orff


Omnia Sol Temperat
Omnia sol temperat
purus et subtilis,
novo mundo reserat
faciem Aprilis,
ad amorem properat
animus herilis
et iocundis imperat
deus puerilis.

Rerum tanta novitas
in solemni vere
et veris auctoritas
jubet nos gaudere;
vias prebet solitas,
et in tuo vere
fides est et probitas
tuum retinere.

Ama me fideliter,
fidem meam noto:
de corde totaliter
et ex mente tota
sum presentialiter
absens in remota,
quisquis amat taliter,
volvitur in rota.
 
Omnia Sol Temperat (tradução)
O sol aquece a tudo
puro e sutil,
Abril de novo revela
sua face ao mundo,
ao amor incita
a alma do homem,
e o deus pueril governa
sobre os prazeres.

Todo esse renascer
na festividade da primavera
e seu poder
nos convida a alegrar-nos,
mostra caminhos conhecidos,
e na tua primavera
é justo e leal
reteres teu amante.

Ama-me fielmente,
percebe a minha fidelidade
totalmente de coração
e de toda a mente,
estou presente
mesmo quando estou longe:
quem ama de tal modo
é torturado na roda.

No comments


segunda-feira, novembro 12, 2012

Deus, o ser imperfeito


Deus, o ser imperfeito

 

“”…. Segundo o missal que o padre nos lê, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Sou ignorante e pouco ou nada entendo destas coisas. Mas ainda assim, penso que Deus é um ser imperfeito, tal qual o bicho criado por ele, que mata e rouba o seu semelhante, que ateia a guerra e se vende por dinheiro, que é capaz das maiores tropelias. Sabe-se, e já o ouvi dizer a gentes de muitas letras, que o homem é o lobo do homem, e olhai que é bem verdade, penso eu, embora não saiba nada do mundo. Se eu estou errado, e se desconheço certos porquês, que Deus me perdoe. ……”

[Idalécio Cação]

(Texto subversivo e inédito)

sexta-feira, novembro 09, 2012

quinta-feira, novembro 08, 2012

Sinais reveladores


O deus da finança que ninguém vê, com os seus santos representantes sentados no alto do trono infalível e papal, decreta destes as suas doutrinas e dogmas, exige penitências e persignações através dos seus missionários, num proselitismo doutrinal constante, neste actual maximizar das culpas dos servos e nobilizando os senhores da sua graça divina. O novo cavaleiro do apocalipse revelador que aqui se mostra montado no seu cavalo de cascos silenciosos, entrando pela porta dos fundos da casa, paciente na espera no galgar dos nossos muros.

O medo invadiu os pinhais contaminados de eucaliptos, tojos, silvas e matagais da Gândara, entra quintais adentro, substituindo a invasão das areias dunares que em tempos idos, todoo os cultivos abafavam, paulatinamente, ao sabor e capricho do vento mareiro.

Sinais demasiado reveladores.

terça-feira, novembro 06, 2012

Sol, o deus da Gândara.


 
Sol, o deus da Gândara.
Lembro-me bem: tão vizinhos que nós éramos todos. E sempre saudando a manhã, e olhando-a de frente, com muita confiança e fé. Morávamos perto uns dos outros, casas com casas, pinhais com pinhais, searas de pão com searas de pão, no Brejo, em volta do nosso casal. O sol, ao abrir os olhos da manhã, clareava de luz as nossas searas, e fazia-as medrar. E era o milho a espipar, e o pão-macho, até aloirarem no tempo da colheita. O centeio não se ficava atrás e botava a espiga, onde a gente em cachopos ia apanhar o dente-de-cão para vendermos depois na loja do Zé Gadelheira. E amadureciam as uvas num tom de mel: ou na cor de uva diagalves, ou da vale-de-alicante ou da moscatel. Um deus tão muito bom e amigo das searas, o sol. Esse deus antigo, o sol que tudo criava, parece ter-se esquecido de nós para sempre. Que já não tem o calor nem o brilho desse tempo. O sol que tudo criava.
[Idalécio Cação]
(Texto subversivo e inédito)

 

segunda-feira, novembro 05, 2012

Também não nos tentam enganar sempre a falar do passado, como se erros passados justificassem crimes presentes.

quarta-feira, outubro 31, 2012

 

À margem, para sempre

29 OUT 12

"Se isto não muda, parte da população ficará à margem para sempre". O aviso é de Jorge Nuño, secretário geral da Cáritas Europa, em entrevista ao jornal espanhol ABC.
"Em todo o lado", diz Jorge Nuño, "os pobres estão a ser esquecidos". O secretário geral da Cáritas Europa acredita que a situação que conduziu a esta crise está a levar ao limite a coesão social em toda a Europa. Mas ele não aponta o dedo só a Bruxelas: "Quase sempre são os estados membros que tomam as principais decisões e depois culpam Bruxelas". E lembra, a propósito, os enormes esforços feitos para que, na Estratégia para 2020, cheia de objectivos macroeconómicos e de defesa do ambiente, surgisse como um desafio europeu tirar 20 milhões de pessoas da pobreza. E Jorge Nuño partilha a expectativa de que, ao contrário, o número de pobres aumente, na maior parte dos países da Europa, incluindo a Alemanha.
Ele recorda o percurso das últimas três décadas: a Europa cresceu nos anos 80, expandindo uma sociedade de bem estar, mas a partir dos anos 90 manteve esse padrão aumentando a dívida pública, sem contrariar o aumento das desigualdades e sem "garantir os meios para investir nas pessoas e assegurar uma economia sustentável, sobretudo na educação. Quando chegaram as medidas de ajustamento, os mais prejudicados foram os mais fracos".
Este sinal de alarme do secretário geral da Cáritas Europa surge uma semana depois de Ban Ki-Moon ter assinalado o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza passando em revista os números da tragédia global.
25 mil pessoas morrem todos os dias em consequência da fome e da pobreza (dados da FAO)
Mais de mil milhões de pessoas vivem actualmente na pobreza extrema.
Ban Ki-Moon constatou que no actual clima de austeridade económica "o financiamento das medidas de luta contra a pobreza corre perigo". E contudo, sublinhou o secretário geral da ONU, este "é precisamente o momento para proporcionar aos pobres o acesso aos serviços sociais, à segurança económica, ao trabalho decente e à protecção social. Só assim poderemos contribuir para uma sociedade mais forte e próspera e não equilibrando os orçamentos à custa dos pobres".
Agora, o secretário geral da Cáritas Europa avisa-nos: "Estamos muito perto do limite. A situação da Grécia, com violência nas ruas, ou os protestos em Espanha e Portugal, demonstram que se se continua a aplicar as receitas da austeridade é a coesão social que se ressente". Jorge Nuño aponta o caso da Islândia "onde foi a tomada a decisão de proteger primeiro os mais fracos, repartindo o sofrimento até ao topo. Essa decisão estratégica não foi ainda seguida pelo resto da Europa".
Nesse caso, o que é que ele prevê que aconteça? "Podemos deparar-nos com 25% de pobres e uma percentagem semelhante de pessoas com medo de perder tudo. Metade da população começa a duvidar do modo como está a ser gerido o bem comum".
Ora, conclui o secretário geral da Cáritas Europa, "se isto não muda, no melhor dos casos haverá uma parte da população que ficará à margem, para sempre".
Ainda intrigado com a expressão "no melhor dos casos", nem sei se pergunte "por que é isto não muda?".
Fernando Alves escreve no português anterior ao acordo ortográfico.

Um concerto na escuridão


http://www.jn.pt/blogs/festivaisdeverao/archive/2012/10/30/j-225-esteve-num-concerto-com-escurid-227-o-completa.aspx

Um casal de músicos cegos do Mali vai estar em Lisboa para um concerto que promete ser inolvidável: vai decorrer na total escuridão, sem luzes ou focos no palco ou fora dele. A intenção de Amadou & Mariam, invisuais desde muito novos, passa por tentar que a assistência absorva a música da mesma forma que eles a ouvem e sentem. "Se não consegues ver, a tua percepção do som é mais apurada", afirmou Amadou Bagayoko, cantor de 58 anos cego desde os 16.

O espetáculo intitula-se "Eclipse" e terá lugar no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a 18 de Novembro, um domingo, às 19 horas. Prevê-se uma experiência sensorial assinalável. Até as luzes de "saída de emergência" estarão apagadas. Além da ausência de qualquer luz, os nossos sentidos serão exacerbados com a propagação de aromas no ar. Consta que a sala será perfumada com um odor que recria o cheiro a terra quente de Bamako, a capital do Mali. Mais ainda: a percepção da temperatura ambiente também vai oscilar entre 15 e 30 graus celsius.

É claro que um espetáculo desta natureza acarreta medidas exepcionais. Por exemplo, toda a equipa de sala vai estar equipada com um sistema de visão noturna. "Em caso de emergência, desconforto, indisposição ou desorientação que provoque a necessidade de sair da sala, deverá o espetador agitar o programa no ar. Um assistente irá imediatamente ao seu encontro e prestará o auxílio necessário", lê-se no site da Fundação. Além disso, e "para garantir o êxito do espetáculo", afigura-se obrigatório respeitar determinadas regras: sacos, malas e casacos devem ser deixados no bengaleiro; "todos os equipamentos passíveis de emitir luz, som ou vibração (telemóveis, relógios, etc.) deverão estar desligados e é absolutamente proibido "qualquer dispositivo de gravação vídeo ou som". Após o início do concerto, não será possível a entrada ou reentrada na sala.

"Eclipse" terá a duração de 75 minutos e apresentará um repertório que pretende contar o trajeto de vida e obra da dupla. Com mais seis músicos em palco (entre os quais, Mamadou Diabaté, primo do magnífico Toumani Diabaté), não vão faltar as canções mais emblemáticas, que na última década têm conquistado fãs em todo o planeta. Amadou & Mariam são das mais entusiasmantes propostas do continente africano e já colaboraram com nomes como Manu Chao ou Damon Albarn, dos Blur. Fazem uma espécie de pop colorida e soalheira temperada com ritmos tradicionais do Mali e aberta a ramificações várias.
Ainda há bilhetes à venda no site da Fundação Calouste Gulbenkian

domingo, outubro 28, 2012

Chula da Liberdade


Veris Leta Facies - Carmina Burana (3) - Carl Orff



Veris leta facies
mundo propinatur,
hiemalis acies
victa iam fugatur,
in vestitu vario
Flora principatur,
nemorum dulcisono
que cantu celebratur.

Flore fusus gremio
Phebus novo more
risum dat, hoc vario
iam stipate flore.
Zephyrus nectareo
spirans in odore.
Certatim pro bravio
curramus in amore.

Cytharizat cantico
dulcis Philomena,
flore rident vario
prata iam serena,
salit cetus avium
silve per amena,
chorus promit virginum
iam gaudia millena.

quinta-feira, outubro 25, 2012

Pouco falta


terça-feira, outubro 23, 2012

Eccehomo

http://lounge.obviousmag.org/luelmos/2012/10/eccehomo.html?fb_comment_id=fbc_162828257191950_425402_162964363845006#fae20f487dcd7a

Eccehomo

por em 23 de out de 2012 às 01:27
Tornou-se famosa, mas sem intenção. Cecília Gimenez foi criticada e louvada. O seu "Eccehomo", débeis talentos artísticos e pouco ou nenhum senso comum, correram o mundo. Mas agora, finalmente consciente do grande impacto que a sua ingénua iniciativa despoletou, pede direitos de autora. O que começou por ser fervor religioso, transformou-se em negócio. O que acha o mundo disto?
Cecília Gimenez, uma mulher espanhola de 81 anos, esteve debaixo dos holofotes da comunicação social durante várias semanas após ter arruinado, segundo uns, ou recriado, segundo outros, um fresco do século XIX, que representava Jesus Cristo, “Eccehomo”, na igreja da Misericórdia, em Borja, Zaragoza.
asn___t_happy_with_how_long_it_was_taking_to_restore____Ecce_Homo____in_her_church_in_Spain__so_she_took_out_her_brush_and_went_to_work__374620986.jpg
Muitos consideraram-no um atentado 'terrorista'. Além de arruinar um fresco original do século XIX, dificilmente recuperável, Cecília atentou também à moralidade e religiosidade de muitos. Sendo ela apenas e não mais que uma paroquiana devota, sem qualquer formação na área de restauro, e não tendo o aval colectivo dos demais paroquianos para o efeito, Cecília, ainda assim, pegou nos seus pincéis e tintas e tentou recuperar o Cristo que há muito, segundo ela, estava em decadência.
A intenção seria boa, não fosse o seu pouco ou nenhum talento para a representação figurativa e tendo transformado “Eccehomo” numa pintura digna de uma menina de 5 anos. Feições distorcidas, volumetria perdida e cores empasteladas, cobrindo totalmente a pintura original, a igreja da Misericórdia perde para sempre uma das suas obras mais emblemáticas. Acto este cujo autor original, Elias Garcia, não haveria de ter aprovado.
Mas este peculiar e deformado Cristo está agora numa das paredes mais visíveis da igreja, que é já destino de centenas de curiosos.
Contudo, se por um lado houve milhares de pessoas que ‘crucificaram’ o acto de Cecília, por outro lado, houve milhares que se regozijaram com ele. Afinal de contas, deu que falar.
Em Espanha, e não só, muitos pedem que a obra se mantenha como actualmente se encontra. De entre as muitas considerações, a opinião generalizada é de que se tratou de uma acto ingénuo, nascendo dele uma obra ao estilo ‘naif’, que em poucos instantes se tornou, igualmente, em Pop Art. Canecas, t-shirts, posters, e os mais variados objectos, surgiram com o novo "Eccehomo". O Facebook foi invadido por brincadeiras, piadas e dissertações sobre o acontecimento. E o local que anteriormente era visitado apenas por paroquianos locais e turistas ocasionais, enche-se agora de gente de todos os lados, em busca do tal novo "Eccehomo".
PopArt.jpg

Matisse terá dito que a exactidão não é a 'verdade', “Temos que ver a vida como se fossemos meninos”; Picasso proclamou “ Um quadro bom no meio de quadros maus acaba por se transformar num mau quadro. E um quadro mau no meio de quadros bons acaba por se tornar um bom quadro.” Já Andy Warhol, o pai da Pop Art, dizia que nunca se poderia prever o tipo de reacções emocionais que determinadas obras provocariam no público, e que o valor das mesmas estava nessa não-antevisão do futuro e nas reacções emocionais, positivas ou negativas, que surgiriam, “O importante é criar vida.”
Um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não têm necessidade, mas que ele, por qualquer razão, pensa ser uma boa ideia oferecer-lhes. Cecília terá sido guiada por esta premissa. Talvez não seguindo um pensamento artístico, mas por um sentimento religioso de preservar a imagem do seu ídolo.
Se ela pode ser considerada artista ou não, está no livre julgamento de cada um, se ela deve ser julgada por ter destruído uma obra já existente, estará, igualmente, no livre julgamento de cada um. Se ela merece reconhecimento e futuros ganhos pela obra produzida já é mais controverso, pois ainda correremos o risco de ser invadidos por restauradores autodidactas em busca dos seus 5 minutos de fama e de perdermos muitas obras valiosas.
Contudo, rir faz bem. E ela, por certo, conseguiu, intencionalmente ou não, o riso de muitos. E conseguiu também eternizar as já eternizadas questões: “O que é Arte?” e “O que é moral?”.

domingo, outubro 21, 2012

quinta-feira, outubro 18, 2012

Fortune Plango Vulnera - Carmina Burana (2) - Carl Orff



Fortune plango vulnera
stillantibus ocellis
quod sua michi munera
subtrahit rebellis.
Verum est, quod legitur,
fronte capillata,
sed plerumque sequitur
occasio calvata.In Fortune solio
sederam elatus,
prosperitatis vario
flora coronatus;
quicquid enim florui
felix et beatus,
nunc a summo corrui
gloria privatus.

Fortune rota volvitur:
descendo minoratus;
alter in altum tollitur;
nimis exaltatus
rex sedet in vertice
caveat ruinam!
nam sub axe legimus
Hecubam regina

O Fortuna - Carmina Burana (1) - Carl Orff




O fortuna,
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis;
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem,
Egestatem,
Potestatem
Dissolvit ut glaciem.

Sors immanis
Et inanis,
Rota tu volubilis
Status malus,
Vana salus
Semper dissolubilis,
Obumbrata
Et velata
Michi quoque niteris,
Nunc per ludum
Dorsum nudum
Fero tui sceleris.

Sors salutis sorte,
Et virtutis
Michi nunc contraria,
Est affectus
Et defectus
Semper in angaria;
Hac in hora
Sine mora
Corde pulsum tangite,
Quod per sortem
Sternit fortem
Mecum omnes plangite.

terça-feira, outubro 16, 2012

Ler Arsénio Mota

http://arseniomota.blogspot.pt/2012/10/a-edicao-literaria-hoje.html?spref=fb

A edição literária, hoje



A cambalhota foi rápida. Efetivou-se nuns meses, de modo que o setor da edição literária nacional ficou virado de pernas para o ar. Já lá vão uns três anos e resta por aí ainda quem, escrevendo ou lendo livros, não tenha percebido claramente o que aconteceu e, portanto, estranhe a situação.
As principais editoras caíram na mão do poder financeiro. O livro reduziu ou perdeu de todo a sua dignidade cultural, transformando-se em objeto de negócio puramente lucrativo. Os autores literários mediáticos passaram a produzir para o mercado e os sobrantes viram-se obrigados a aceitar a condição de supranumerários senão mesmo a invisibilidade.
As consequências objetivas da viragem tinham de ser desastrosas nos planos da cultura e de uma normal renovação das linguagens literárias. Os autores de best-sellers, os nossos e os outros, proclamados escritores profissionais, produzem as obras (romances, muitos romances) que o mercado gosta de consumir depressa e em quantidades o mais possível industriais. Os editores querem que sejam os autores a vender com a força da sua imagem mediática e diligência aplicada no terreno, enquanto os próprios autores, profissionalizados, se tornam necessariamente produtores de obras vendáveis por «encomenda» do mercado.
Num pequeno país e, para mais, afundado em profunda crise, cabem poucos autores de best-sellers. A máquina da edição literária lança o preciso para funcionar e refuga os demais (não lucrativos). A comunicação social, orientada para a atualidade mediática que chama às luzes da ribalta os autores badalados, segue na corrente que, por outro lado, a inexistência de uma crítica pronta e atuante deixa correr sem baias.
O resultado ficou à vista. Os leitores, pegando nos livros à venda em supermercados, correios, papelarias e etc. (isto é, consumindo o que lhes metem pelos olhos dentro), estratificam o gosto em leituras padronizadas, feitas para eles pelos fabricantes de textos seguindo indicações estratégicas do marketing. Em suma, a edição literária torna-se monocórdica e repetitiva tanto quanto a imprensa, também caída em poucas mãos convenientes, é tendenciosa e unilateral.
O número das editoras e chancelas em atividade cresceu até à desmesura e a quantidade total dos livros novos publicados a cada ano causa verdadeira estupefacção. As lojas e barracas de saldos de volumes a pataco mal esvaziam os armazéns atulhados com verbos de encher. Nas livrarias, os clientes arreliam-se porque, entre tanta livralhada, falta lá espaço para as obras de autores clássicos ou mesmo para obras lançadas há dois ou três meses e, se querem encomendar, o livreiro faz má cara - a distribuição está num caos.
Predomina na paisagem o preciosismo da escrita criativa com talento para extrair de banalidades imenso suco de barbatana. Anemiza-se o envolvimento social do narrador, a palpitação humana autêntica na união sincera da arte com a vida. Boa escrita (liofilizada) não serve a boa literatura.
A intensificação da circulação desta literatura (dita descartável, light) espalha no terreno consequências indesejáveis a vários níveis. A mais saliente consistirá na imposição de um tipo de «cultura popular» capaz de submergir a cultura popular de raiz. Contribuirá também para estratificar nos seus leitores o conformismo ideológico, a debilidade do sentido crítico, o consumismo acéfalo.
Nesta situação confusa, ficam condenados a uma marginalidade nada inocente bons autores interventivos carecidos de «vedetismo» porque vendem pouco e devagar. Tinham editoras, leitores, renome, e a cambalhota reduziu-os quase ao emudecimento. Na sua visceral solidão, vêem-se constrangidos a conservar inéditos originais que não tiram da gaveta.
Mas agora são abundantes, numerosíssimos, os novos «escritores». Surgem e multiplicam-se pelos quatro cantos, parece que está na moda isso de publicar livros e qualquer estreante os publica, pagando a edição, com tiragens reduzidíssimas, do seu próprio bolso, e depois corre a vendê-los a conhecidos e vizinhos dos conhecidos. Escrevem, editam, distribuem e fazem venda direta - será este o caminho que resta aos autores não mediáticos?!
Quem isto escreve optou pela solução que se sabe: publica os seus livros com formato e-book numa plataforma da Internet. Nesse escaparate já alinhou dez títulos e pretende continuar. Os milhares de visitantes que os folheiam nada pagam ao autor mas deixam-no perfeitamente gratificado.
A conjuntura sociopolítica, dominada pelas ganâncias da máquina ultra e neoliberal que tudo oprime e devora, acicata a criatividade individual e coletiva. De qualquer modo, é preciso, é urgente elaborar respostas, rasgar saídas. A liberdade de expressão, a necessária renovação cultural e literária, e a democracia pedem-nas.