segunda-feira, dezembro 23, 2013

O inverno de hoje no meu jardim


O Inverno de hoje no meu jardim!
O ninho no topo magnólia e a rosas primitivas que chegam até ao início do inverno.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

A Lua andou toda a noite com Júpiter.


Hoje, do meu quintal, a Lua e Júpiter estavam assim.
Ontem Vénus deitou-se com o Sol, e a Lua andou toda a noite, até o dia amanhecer, com Júpiter.

Novo máximo

http://www.dinheirovivo.pt/Graficos/Detalhe/CIECO287328.html


quinta-feira, dezembro 12, 2013

O cinzento começa a cobrir todo o céu


O cinzento começa a cobrir todo o céu, como a antecipar a noite quando ainda não são três horas da tarde.

Este tempo de morrinha até dá sonolência a este lado, um pouco mais aquecido no interior de uma tristeza, a inundar o negrume celeste esfera a dentro. Afunda-se sobre o chão.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

É urgente avisar as pessoas

Urgente!, de Miguel Esteves Cardoso

por Nuno Castelo-Branco, em 07.12.13

Do Miguel Esteves Cardoso, um alerta já feito há MUITOS anos pelo PPM de Ribeiro Telles que previu o que tarde ou cedo chegaria. Façam o favor de DIVULGAR, partilhem o aviso do MEC. 

"No PÚBLICO.pt de ontem dá-se conta de uma reportagem da LUSA sobre o protesto dos pequenos produtores da aldeia transmontana de Duas Igrejas contra a nova lei das sementes que está quase a ser aprovada pelo Parlamento Europeu.

Falam por todas as sementes, todas as hortas, todos os agricultores e, sobretudo, pela economia e cultura portuguesas. A lei das sementes - que proíbe, regulamentando, a milenária troca de sementes entre produtores - é pior do que uma invasão francesa de Napoleão.

É uma invasão fascista que quer queimar a terra para preparar a incursão das agro-corporações multinacionais (como a gigantesca e sinistra Monsanto) que virão patentear as sementes que são nossas há que séculos, obrigando-nos depois a pagar-lhes direitos de autor, só por serem legalisticamente mais espertos. Pense-se em cada semente como uma palavra da língua portuguesa. Na nova lei colonialista das sementes é como obrigar os portugueses a sofrer a chatice e a despesa de registar tudo o que dizem, burocratizando cada conversa.

Atenção: é o pior ataque à nossa cultura e economia desde que todos nascemos. Querem empobrecer-nos e tornar-nos ainda mais pobres do que somos, roubando-nos as nossas poucas riquezas para podermos passar a ter de comprá-las a empresas multinacionais que se apoderaram delas, legalmente mas sem qualquer mérito, desculpa ou escrutínio.

Revoltemo-nos. Já. Faltam poucos dias antes de ser ter tarde de mais. É para sempre. Acorde."

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Do editorial do Público: "Mandela não foi um político, foi um homem de Estado. Não foi calculista, foi visionário. Não foi rancoroso, foi magnânimo. Não foi mesquinho, foi altruísta. Não foi arrogante, foi humilde.".
Em contra partida, Cavaco é um político, calculista, rancoroso e arrogante.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Casa

CASA
A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.
Carlos de Oliveira, Sobre o lado esquerdo



domingo, dezembro 01, 2013

quinta-feira, novembro 28, 2013

Estava frio lá fora

Fui ver a noite!
As estrelas já indicam que o fim das trevas virá dentro em breve , pois a estrela do Oriente brilha a indicar o caminho dos 3 reis magos da cintura de Orion, ao ponto onde ressuscitará ao terceiro dia o deus da luz, conforme as escrituras, esse livro aberto que é o meu céu gandarês do Escoural.
Estava frio lá fora.

quarta-feira, novembro 27, 2013

"Epicurista"

Tudo à minha volta segue o seu caminho, como se eu não existisse, mas como observador atento do fenómeno. De momentos a momentos dou-lhe um pequeno toque como que a indicar o caminho previsível que deve seguir, o que me dá o pequeno alento de me sentir participativo. Puro engano! As coisas seguem o caminho que têm que seguir, e eu não passo de um observador que só pelo facto de observar altero o espaço e tempo à minha volta, alteração essa que pouco afecta o fluxo observado. “Faz sempre tudo como se estivesses a ser comtemplado”. Esta máxima é atribuída a Epicuro. Sigo-o!

segunda-feira, novembro 25, 2013

Cavaco e o consumo mínimo



Cavaco e o consumo mínimo

 

Baptista Bastos sobre Cavaco Silva



«O dr. Cavaco consumiu vinte minutos, no Centro Cultural de Belém, a esclarecer os portugueses que não havia português como ele. Os  portugueses, diminuídos com a presunção e esmagados pela soberba, escutaram a criatura de olhos arregalados. Elogio em boca própria é vitupério, mas o dr. Cavaco ignora essa verdade axiomática, como, aliás, ignora um número quase infindável de coisas.  

O discurso, além de tolo, era um arrazoado de banalidades, redigido num idioma de eguariço. São conhecidas as amargas dificuldades que aquele senhor demonstra em expressar-se com exactidão. Mas, desta vez, o assunto atingiu as raias da nossa indignação. Segundo ele de si próprio diz, tem sido um estadista exemplar, repleto de êxitos políticos e de realizações ímpares. E acrescentou que, moralmente, é inatacável.

O passado dele não o recomenda. Infelizmente. Foi um dos piores primeiros-ministros, depois do 25 de Abril. Recebeu, de Bruxelas, oceanos de dinheiro e esbanjou-os nas futilidades de regime que, habitualmente, são para "encher o olho" e cuja utilidade é duvidosa.

Preferiu o betão ao desenvolvimento harmonioso do nosso estrato educacional; desprezou a memória colectiva como projecto ideológico, nisso associando-se ao ideário da senhora Tatcher e do senhor Regan; incentivou, desbragadamente, o culto da juventude pela juventude, característica das doutrinas fascistas; crispou a sociedade portuguesa  com uma cultura de espeque e atrabiliária e, não o esqueçamos nunca,
recusou a pensão de sangue à viúva de Salgueiro Maia, um dos mais abnegados heróis de Abril, atribuindo outras a agentes da PIDE, "por serviços relevantes à pátria." A lista de anomalias é medonha.
Como Presidente é um homem indeciso, cheio de fragilidades e de ressentimentos, com a ausência de grandeza exigida pela função. O caso, sinistro, das "escutas a Belém" é um dos episódios mais vis da história da II República. Sobre o caso escrevi, no Negócios, o que tinha de escrever. Mas não esqueço o manobrismo nem a desvergonha,
minimizados por uma Imprensa minada por simpatizantes de jornalismos e por estipendiados inquietantes. Em qualquer país do mundo, seriamente democrático, o dr. Cavaco teria sido corrido a sete pés. O lastro de opróbrio, de fiasco e de humilhação que tem deixado atrás de si, chega para acreditar que as forças que o sustentam, a manipulação a que os cidadãos têm sido sujeitos, é da ordem da mancha histórica. E os panegíricos que lhe tecem são ultrajantes para aqueles que o antecederam em Belém e ferem a nossa elementar decência.
É este homem de poucas qualidades que, no Centro Cultural de Belém, teve o descoco de se apresentar como símbolo de virtudes e sinónimo de impolutabilidade. É este homem, que as circunstâncias determinadas pelas torções da História alisaram um caminho sem pedras e empurraram para um destino que não merece. Triste República, nas mãos de gente que a  não ama, que a não desenvolve, que a não resguarda e a não protege!
Estamos a assistir ao fim de muitas esperanças, de muitos sonhos acalentados, e à traição imposta a gerações de homens e de mulheres. É gente deste jaez e estilo que corrói os alicerces intelectuais, políticos e morais de uma democracia que, cada vez mais, existe, apenas, na superfície. O estado a que chegámos é, substancialmente, da
responsabilidade deste cavalheiro e de outros como ele.

Como é possível que, estando o País de pantanas, o homem que se apresenta como candidato ao mais alto emprego do Estado, não tenha, nem agora nem antes, actuado com o poder de que dispõe? Como é possível? Há outros problemas que se põem: foi o dr. Cavaco que escreveu o discurso? Se foi, a sua conhecida mediocridade pode ser
atenuante. Se não foi, há alguém, em Belém, que o quer tramar.
Um amigo meu, fundador de PSD, antigo companheiro de Sá Carneiro eleitor omnívoro de literatura de todos os géneros e projecções, que me dizia:



"Como é que você quer que isto se endireite se o dr. Cavaco e a maioria dos políticos no activo diz 'competividade' em vez de 'competitividade' e julga que o Padre António Vieira é um pároco de qualquer igreja?"

Pessoalmente, não quero nada. Mas desejava, ardentemente desejava, ter um Presidente da República que, pelo menos, soubesse quantos cantos tem "Os Lusíadas."»



 

terça-feira, novembro 19, 2013

Poisio


Estou em poisio
O Poisio dá descanso e repouso às terras cultiváveis, interrompendo-lhe as culturas para tornar o solo mais fértil. Além desta finalidade, pode ser usado como meio de controlo de ervas daninhas consorciada a outras práticas, como a rotação de culturas.O poisio aumenta a recuperação da bio estrutura do solo e a profundidade de enraizamento.
Esta prática foi comum no passado. Actualmente, na Gândara entre pequenos agricultores, passou-se do poisio ao abandono nuns casos, e ainda mais recentemente à eucaliptização acelerada das pequenas parcelas aráveis da Gândara.
As pessoas também sentem, às vezes, a necessidade terapêutica de um poisio, não da eucaliptização acelerada vigente que nos estão a impor.

terça-feira, novembro 05, 2013

As conquistas de Almançor

As conquistas de Almançor

Astor PIAZZOLLA Quinteto en Lisboa 1987 (completo).Archivo Hugo Omar Vig...

http://www.youtube.com/v/HAnVmAHMnGA?version=3&autohide=1&showinfo=1&attribution_tag=52si2Bp_S6haQIeI17m73Q&autoplay=1&autohide=1&feature=share

terça-feira, outubro 29, 2013

Se não sabes, porque perguntas?


Como ouvir a música que desconhecemos?
O inesperável virá! Virá de Nenhures como a música que desconhecemos e iremos ouvir. Como iremos reagir aos primeiro acordes desconhecidos e desconcertantes, que nada terão de semelhança como o que o som que nos é familiar?

E já agora, se não sabes, porque perguntas?

 

quinta-feira, outubro 24, 2013

Sangue Novo - Serenata Festa das Latas e Imposição de Insígnias - Coimbr...



FRA para Luiz Goes

Lepra do nosso tempo.

A miséria forçada é a lepra do nosso tempo. Os impuros são colocados de quarentena, como faziam os filhos de Abraão na idade do bronze.
Levítico 13-45 "Quem ficar leproso, apresentando quaisquer desses sintomas, usará roupas rasga­das, andará descabelado, cobrirá a parte inferior do rosto e gritará: 'Impuro! Impuro!'

quarta-feira, outubro 23, 2013

Atenção pessoal!


Atenção pessoal!
Há censura no «Facebook», e é por cá, até pela nossa santa Gândara. Os censores são piores do que aquilo que vós podeis imaginar. São pessoas que se prestam a ler o que aqui escrevemos, O julgamento e punição são também funções que assumem. O meu mural «Facebook» já esteve horas e horas bloqueado.
Por isso, leiam bem o que escrevem, pois esses amigos virtuais zelam pela ordem. 

Folhetim (1)

Folhetim (1)

MACHETE / BRAGUINHA
A primeira menção conhecida do vocábulo machete, desta feita usando o diminutivo machinho, encontra-se citada num longo poema (escrito provavelmente em Coimbra por volta de 1660) de Gregório de Matos (Salvador, 7-IV-1636 – Recife, 26-XI-1696), onde se lê: “[…] Criam-nos com liberdade / nos jogos, como nos vícios, / persuadindo-lhe, que saibam / tanger guitarra e m...

achinho. […]. No “Regimento para o ofício de violeiros” de Guimarães, datado de 1719, o pequeno cordofone de mão é mencionado sob a designação de “Machinhos de quatro cordas” [duplas?] bem como “Machinhos de sinco cordas”, juntamente com “Violas de marca grande”, “meias Violas” e “Viollas pequenas”. O instrumento, neste caso designado já por Machete, é também incluído – juntamente com Violas, Bandurras, Harpas e Rabecas – no “Rol da tacha do ofício de violeiro”, feito em Évora a 30 de Dezembro de 1778. Numa colectânea para viola de cinco ordens, que se guarda na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (P-Cug M.M.97), manuscrito não datado mas seguramente copiado em inícios do séc. XVIII, o termo volta a surgir do seguinte modo: “como se tempera a viola com o machinho”. Num manuscrito setecentista (c. 1720) para rabeca de Pedro Lopes Nogueira (P-Ln, M. M. 4824) a afinação do machete serve de base para se praticar a “scordatura” no violino: “afina-se a terceira corda da Rabeca pella terceira corda do Machinho” ou a “segunda da Rabeca pela quarta corda do Machinho”, etc.. Infelizmente não chegou até nós nenhum machete ou machinho do séc. XVII ou XVIII, salvo que em alguns presépios, ou lapinhas, setecentistas se mostram uma panóplia de instrumentos músicos, onde se poderão encontrar alguns cordofones de caixa em forma de oito e braço longo que poderão ser tomados por representações iconográficas do machete, sendo problemática a sua justa atribuição, já que existiam neste período violas pequenas, que de certo modo, se podem confundir com o pequeno e peculiar cordofone aqui mencionado. Para terminar, acrescento que o termo machete ou machinho, segundo vários léxicos sete e oitocentista, é uma “violinha, descante”, e que “Machete, s.m. [é] viola pequena [e] vem do Lat. macer”, que quer dizer “magro ou delgado”.

P.S.:Só os ignaros (bem como os curtos ou abreviados em música) é que não sabem que no séc. XIX e início do seguinte, se designavam por “Folhetins” os textos de índole literária ou artística normalmente inscritos no fundo das páginas de um periódico. Que os Deuses tenham piedade da estúpidez humana!
Foto: Pormenor do "Presépio da Madre de Deus", Lisboa 
Autor: Manuel Morais
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Morais










 

quarta-feira, outubro 16, 2013

O esplendor dos ditadores de capas pobres e discretas.

Como se a culpa principal fosse dos partidos políticos.
Do que sei, os partidos políticos não passam de associações de pessoas. A ideia de quê são os culpados de todo o mal, vem da ideia veiculada constantemente pelos fazedores de opinadelas, e posteriormente replicadas em câmara de eco primeiro pelos emails e depois pelas redes sociais, estes sim ao serviço de algo mais obscuro, dado que mesmo servindo-se das pessoas que vivem à babuje dos partidos, quando os votos, as leis, os tribunais, incluindo os constitucionais, e outros entraves e estorvos à propagação da actual boa nova, as sociedades criaram para sua organização.
É efectivamente por aí, vindos das escolas da ideia vigente, garotos ambiciosos nos governam, denegrindo, até, os partidos que os pariram, ultimamente têm colocado, também, no poder alguns de cabelo pintado de preto, mas estes são ainda mais manhosos que os primeiros, que costumam atacar os salvadores. Escolhido o alvo, e quando a coisa tiver a massa crítica, mesmo a da indiferença que funciona sempre para o seu lado, aparecerão no seu esplendor. O esplendor dos ditadores de capas pobres e discretas.

A tecnologia, essa salvadora, é agora a ferramenta usada para o ser supremo nos escravizar.


A tecnologia, essa salvadora, é agora a ferramenta usada para o ser supremo nos escravizar.
Depois do feito ida à Lua, não resolvemos, porque não reconhecemos a nossa ignorância em não evitar o derrame de uma simples gota de óleo num rio. Não falo na irradicação da fome no mundo, que aí já nós sabemos que assim á que está bem, que há pessoas que não podem conhecer outra coisa, e que é assim que corre a notícia.
Até parece que os pobres foram convencidos, pelos poucos ricos claro, que tem mesmo que ser pobres, enquanto a catequese do futuro salvífico aí continua a encher os canais de informação, agora cada vez mais controlados, usando essa tecnologia e conhecimentos avançados, cada vez menos por nós planeado.
Enganam-nos quando nos dizem que temos futuro, tal como um slogan eleitoral, mas caso as respostas das pessoas não sejam dentro do padrão desejado, não se coíbem em passar a mensagem que não há futuro, que tudo será tão mau, que o menos mau já é bom, mas o futuro que a divindade suprema nos impõe.
Há 40 anos os padres, nas homilias, falavam de um plano divino, como se fosse um determinismo divino em que todos os resultados do somatório dos esforços humanos como de um esforço divino se tratassem. Agora o ser supremo assim aplica o plano. Agora as homilias não referem mais o lugar de choro e ranger de dentes. O inferno, agora, é outro. As ameaças de banca rota, dívida e deficit, são os terramotos e dilúvios resultado dos pecados da sociedade que despertou a ira do novo ser supremo. Condenações aos que não seguem esta nova lei divina são apregoadas. São hereges a lançar à fogueira da clandestinidade, ostracização e silenciamento. Os subversivos serão derrotados, pois o senhor é o senhor do dinheiro que compra os exércitos.
A tecnologia, essa salvadora, é agora a ferramenta usada para o ser supremo nos escravizar.

Às vezes acordo como com a ideia que posso organizar o meu futuro.


Às vezes acordo como com a ideia que posso organizar o meu futuro.
Depois, olhando a memória, a realidade foi sempre teimosa, ganhou-me sempre a aposta, trazendo-me aqui apesar de esta ter encontrado este outro teimoso pela frente, pois um teimoso nunca teima sozinho. Tem que teimar com alguém, em última análise teima com a realidade, essa teimosa suprema. A realidade é teimosa, e a todos embrulha no papel que fazemos no teatro da vida sem grande controlo do futuro.
Não há futuro para além daquele que já sabemos, que tudo será pior que hoje, já que tudo piora.
 

terça-feira, outubro 15, 2013

Coitado do pequeno filho da puta!


As pessoas agarram-se ao pouco que ainda julgam possuir, e vão deixando-se cozer como o sapo na panela cuja temperatura é gradualmente incrementada. O tal “aí aguenta, aguenta” até está a ser aplicado, sente-se. A ditadura efectiva, existe e é real. A catequese dos Mídias funciona na perfeição, enquanto o balão vai esticando com o aumento gradual da temperatura de cozimento do sapo. Tudo corre como planeado, controlado por extensómetros que enviam sinais à monotorização da Coisa. O balão estica, mas os mainatos diligentes vão assegurando que não apareçam estrias localizadas, pois estes estão a ser pagos para isso e até interiorizaram “ que é mau para o grande filho da puta também o é para o pequeno filho da puta”.

Coitado do pequeno filho da puta!

segunda-feira, outubro 14, 2013

Poema à Mãe

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

terça-feira, outubro 08, 2013

Cavaco Silva, o funcionário, o chefe e o princípio da incerteza

Cavaco Silva, o funcionário, o chefe e o princípio da incerteza
 
7 de Outubro de 2013 por As Minhas Leituras
 
Julgo que, a maioria dos portugueses, mesmo os que sempre votaram nele, vêem hoje Cavaco Silva como um problema no meio da crise em que estão mergulhados. Penso que essa visão resulta do desajustamento que sentem entre a natureza dele e as qualidades necessárias para o desempenho do cargo de presidente da República. Mas Cavaco Silva é também um perigo. Tanto maior porque inconsciente. Estou convencido de que Cavaco Silva tem a ideia de si de ser um honesto funcionário cumpridor dos seus deveres. Mas também a de que a presente situação de Portugal não é da sua responsabilidade. Foram os outros, o “eles”, essa recorrente figura fora de nós, que tramaram isto tudo. Penso que o primeiro desajustamento de Cavaco Silva resulta da sua pobre visão da História de Portugal: de esta ser para ele uma longa e confusa trapalhada, cujos pormenores abandonou depois do distante exame da antiga quarta classe do ensino primário obrigatório no Estado Novo (Língua e História Pátria), antes de ingressar na Escola Comercial e Industrial para se fazer contabilista. Acontece que Aníbal Cavaco Silva chegou a chefe de Estado Português, já em segundo mandato, e é o político que mais tempo esteve à frente de um governo (1985/1995) desde o 25 de Abril de 1974. Quer isto dizer que, além de se ter feito por si, subido a pulso na vida, devia ter outras qualidades que o levaram a ser reconhecido pelos portugueses. As atuais críticas de vastos setores da sociedade, por vezes a raiar a humilhação, tornam claro que tais atributos não são (nunca foram) suficientes, nem os adequados e que, fossem quais fossem, se esgotaram. O comportamento de Cavaco Silva desde o derrube do governo Sócrates, a fingida surpresa que revelou pelo impacto das medidas da troika, o seu visível e doloroso atarantamento durante a crise do governo deste verão, provocada por Gaspar e Paulo Portas, a ofensiva inabilidade com que não deu um sinal de vida aos bombeiros que se desesperavam nos fogos, a quase obscena veneração demonstrada na morte do aristocrático economista António Borges, comprovam que ultrapassou o seu nível de incompetência, o do principio de Peter, de que, num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência.
 
 

sexta-feira, setembro 20, 2013

quando a tarde morria


quando a tarde morria

era no cais, quando a tarde morria, o velho cata

névoa de olhos espetados no céu, tinha a face

coada de rugas e os lábios de cor púrpura. era no

cais, quando a tarde morria. de cachimbo na

boca, acenando, o velho entreviu a sereia,

despejada das ondas, estendida na areia, da

maré. era no cais, quando a tarde morria. os

olhos do velho inundavam a sereia. e os ventos,

 escultores mareiros, moldavam-lhe o vestido ao

 esplendor dos seios…

 

António Canteiro

o silêncio solar das manhãs

Poema tirado da obra galardoada com o prémio nacional de poesia Sebastião da Gama 2013

quarta-feira, setembro 18, 2013

Eigenlob stinkt

Post em alemão
“Gemeinsam erfolgreich”.
“Juntos, vamos ter sucesso”.
Esta é a possível tradução do slogan merkeliano. Uma tradução tuga de quem mal consegue associar uns termos germânicos.
Os marqueteiros sabem do seu trabalho, que todos nós nos sentimos bem quando nos associam a um sucesso qualquer, apesar de eu não simpatizar coma senhora, mesmo após aturado fotoshop da fota, nem sequer a acho atraente, antes pelo contrário, e não comungar, nem co concordar com as suas principais linhas ideológicas.
Lá como cá, quem tem lugar na peanha do altar do poder, apresenta os seus cartazes de propaganda mais brilhantes, de melhor feitura de materiais, boa colocação e melhor localização.
“Gemeinsam erfolgreich” é um slogan que foi pago a peso de ouro. A equipa de marqueteiros fez um bom trabalho e senhora Merkel pagará bem, disso temos a certeza, pois até tem dinheiro para anunciar, ouvi hoje numa rádio alemã, que os assalariados temporários iriam ter 5% de aumento salarial. O excedente orçamental da Sra. Merkel assim o dá para usar a seu belo prazer eleitoral, e lá estou eu a lembrar que o dito excedente foi obtido à custa dos povos malandros do sul.
Volto agora ao slogan “Juntos, vamos ter sucesso”, repetindo os meus parabéns ao seu criador e sua equipa, pois quem tem dinheiro tem vício e é de aproveitar o cheque que há-de vir, estou a fazer a comparação possível com quem na nossa politiquice tuga e local, que apresentando um bom cartaz de propaganda de muitas centenas de euros, boa foto, bom tratamento de fotoshop, e auto definindo-se como pessoas de confiança, que acaba por replicar o velho ditado alemão “Eigenlob stinkt”.
O auto elogio cheira mal.

quarta-feira, setembro 11, 2013

A legalidade do tacho

A quantidade de panelas que por aí há já transformados em tachos como utensílios já considerados obsoletos dado que são muito baixos. É que é a fundura, logo quantidade ou capacidade que distingue um tacho de uma panela. Como sabemos dos "paneleiros" fazedores de boas panelas, devem ser estas as preferidas, pois só nestas se fazem as melhores cozedoras conservadoras do bom paladar dos alimentos. Experimentem fazer um cozido à portuguesa, com todos os devidos ingredientes numa panela, bem cardada, e depois num simples tacho. Que diferença de paladar.
E eu, que nunca fui sequer funileiro, apesar de saber deitar pingos, sei que nesta aldeia-jardim à beira-mar plantada de quem merecia bem uma boa recompensa pelo trabalho desempenhado no serviço da coisa, pois ainda não viram recompensados todos os seus esforços.
Só teve direito a um pote, também conhecido por panela, com três pernas, em certas regiões do país, em ferro bem forjado, como bem forjadas foram as saídas dos pobres que se abarbataram a pensões de reforma obscenas. E ela, quando de lá sair? Vai ter direito a uma como a do Gajo ou, pelo contrário, vai ver-se a mãos com uma simples pensão relativa a um salário mínimo? O Coiso disse ir mandar rever tais situações, aberrantes. Estaria a pensar na D. Marafona.
 

(texto subversivo e obsoleto de autor não identificado)

 

segunda-feira, setembro 09, 2013

quinta-feira, setembro 05, 2013

Confraria do porco assado

Anda tudo muito calado pela Praça do Marquês.
Tudo caladinho, como quem anda de mansinho, que não quer que se saiba que existe. A tal agregação de freguesias e a redução de cadeiras assusta a quem se vê empurrado para o mercado de trabalho, num excesso de caciques para tão poucas capelas. Depois, a guita para a obra feita não existe, foi em pão e circo levada, e o encosto cá fora já não é o que foi.
Não se definiu o papel das autarquias, em especial as juntas de freguesia, esse nível raso do Estado, nem se aproveita o reviralho que por aí anda para mudar este estado de coisas. Definha-se em obsolescência prevista de caciques excedentários, num poderzinho triste e pedincha, à espera que a coisa pingue da seca teta.
É que uma campanha com confraria do porco assado é outra fartura.

terça-feira, setembro 03, 2013

Não se fala a ninguém, tal nunca aconteceu.


A noite é no largo toda inundada de luz como um campo de futebol, daqueles do Euro 2004, da primeira divisão. Se estes luzeiros todos existissem quarenta anos atrás, até os treinos do União teriam sido aqui no largo e os miúdos, os tantos que havia na altura, jogariam à bola todas as noites, tal qual o faziam nas noites de luar de Agosto. Tudo vazio, e ela cheirosa convidava-o a entrar com naturalidade. Como não se conta, tal não aconteceu. Depois de um tempo de longas e ofegantes práticas olha o largo vazio, cheio de luz potente e branca a cegar o santuário. Ninguém para usufruir do fruto dos holofotes, fotões ali colocados pelo senhor presidente, a obra feita, enquanto ele olha as fotos de casamento ali colocadas sobre o móvel do quarto. Sai da casa, atravessa o largo iluminado naquela hora de luz que tudo ilumina e que não dá para ver se alguém passa. A fotografia sorridente do ausente marido lá está sobre o móvel a olhar para ela. Não se fala a ninguém, tal nunca aconteceu, nem poderia acontecer ou vir a acontecer, não é?
(Manuel Ribeiro)
Texto inédito e subversivo.

Vinho da mesma pipa, farinha do mesmo saco.

Tarde percebi que, se o desenvolvimento técnico serve para manobrar objectos, também serve para manipular pessoas.
Na aldeia global em que habitamos, não é f...ácil limpar a chusma de promotores da normalidade que gira em torno dos superiores interesses dos patrões do mundo; é ver pedagogos, terapeutas, psicólogos e professores, prosélitos de reciclagem de almas e esforçados politólogos - e mais o bocejo dos juízes, o traço dos burocratas e o bastão das policias -, tudo irmanado no controle da opinião pública.
É um exército de salvação, que transforma a politica na arte de vender ilusões na vida terrena, tal como a religião vende ilusões celestes. Que admiração, se ambas - politica e religião - são vinho da mesma pipa. (..)."

Autor: Cândido Ferreira "in" Setembro Vermelho

domingo, setembro 01, 2013

quinta-feira, agosto 29, 2013

Morrer em vão

 "Onde estavam os senhores no dia 19 de Julho de 2013?". Nesse dia foi aprovado, em Conselho de Ministros, o ignóbil Decreto-Lei n.º96/2013, que, debaixo da habitual linguagem tabeliónica usada para disfarce, estimula ainda mais a expansão caótica da plantação de eucaliptos, aumentando o risco de incêndio, e fazendo dos bombeiros vítimas duma política de terra queimada ao serviço dos poderosos.
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3392419&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%EF%BF%BDo+-+Em+Foco#.Uh7zwhD7je0.facebook

Fumo no Escoural


quarta-feira, agosto 28, 2013

O sol nascia sempre do mesmo lado

….” O que eu quero é deixar contadas aqui as horas em que todos vivíamos felizes, sem nada a impedir-nos de falarmos uns com os outros. Principalmente os vizinhos de porta com porta, como sucedia comigo e o meu amigo compadre Luzio. Mesmo a...ssim, sabe-me bem voltar ao estribilho. Entoá-lo um pouco mais ou menos é o meu desvelo, eis a questão. Ou o meu calvário, conforme. Lembro-me bem, tão vizinhos que nós éramos todos, eu que o diga, que é difícil esquecer esses pontos de verdade. Casas com casas, pinhais com pinhais, searas de pão com searas de pão. O sol nascia sempre do mesmo lado, das bandas do castelo, lembro-me como se fosse hoje, entre a casa da Maria Ferrita e o pinheiro do Arménio. E o astro, a erguer-se na sua glória, floreava sobre as searas, bafejava-as nas crescenças, poisava a sua luz nas folhas e nas espigas, até aloirarem no tempo das colheitas.….”
[Idalécio Cação]

(Texto subversivo e inédito)

Este texto do mestre da escrita nada tem a ver com estes gajos. Está aqui como candidato a preso político. Ele e eu, pois não merecemos mais.

terça-feira, agosto 27, 2013

Descontinuado


Descontinuado

Livraria de centro comercial, daqueles de luzes em cuzes, tudo muito apelativo, organizado.
Os tops de vendas ali estão, mesmo a entrar pelos olhos adentro, como arco triunfal editorial. Os temas em letras garrafais indicam-nos que agora é que vai ser, que vamos todos saber de informática, religião, psicologia e ler, ler muita, ficção. Todo o bicho careta que leva com as luzes da televisão passou a ser escritor de nome na praça, pergunto a mim mesmo como é que eles ainda têm tempo para escrever tampa letra para tanta página de livro, aparecem nas estantes por detrás do balcão de atendimento.
Já tem o nosso cartão? Não se quer fidelizar? Os Dan Brown abafam a bancada com livros de capa dura, colorida e de relevos, com anjos, anjinhos e anjolas.
Venho à procura do livro do autor tal, com este título, disse eu quando chegou a minha vez de ser atendido. A busca rápida no sistema informa-me que o nome do autor e do título correspondem, que está correto, mas a edição está descontinuada. Descontinuada, o palavrão para dizer que já não editam, que a gestão do stock livreiro não está interessada.
Os Dan Brown não estão descontinuados, assim como todos aqueles bichos caretas escritores da televisão. Um sorriso desconfortável mostrou-me que quem está a ficar descontinuado sou eu. Senti-me subversivo. Sou um candidato a preso político, ou melhor, em regime dito democrático a ser mais um ostracizado.

 

segunda-feira, agosto 26, 2013

domingo, agosto 25, 2013

Cavacadas

Cavaco e a morte de Borges.
Cavaco afirmou que Borges foi brilhante.
Cavaco é um ignorante.
Brilhante, foi Portugal ter tido um Prémio Nobel da literatura.
Cavaco ainda não sabe disso, pois não leu.
A cultura de Cavaco é cagarras e vaquinhas.

sexta-feira, agosto 16, 2013

A propósito do Acordo Ortográfico

(Clica na imagem)
A propósito do Acordo Ortográfico, apresento cópia de um velho e conhecido livro cá de casa.

terça-feira, agosto 06, 2013

Sua majestade, o cacique

Sua majestade, o cacique
por ADELINO MALTEZ*

Se eu começasse este meu depoimento sobre as candidaturas autárquicas, declarando que "a forma de governo" em Portugal "é uma monarquia absoluta cujo rei é sua majestade o cacique", estava apenas a parafrasear o que escreveu o aragonês Joaquín Costa, em Oligarquia y Caciquismo, de 1901. Se sublinhasse que o dito cujo "é quem todo lo manda numa determinada zona do terreno, numa freguesia, num concelho, num distrito", apenas repetia palavras de Joaquim Pedro de Oliveira Martins. Um grupo de pressão é um grupo de interesse que passa do mero estádio da articulação e da agregação de interesses, típico da mera sociedade civil, à extensão das suas canalizações no interior do sistema político. Onde não faltam as relações privadas do clientelismo, do nepotismo e da pantouflage, bem como, em casos extremos, do próprio processo de compra do poder. As eleições autárquicas, que podiam ser os vasos capilares da reg...eneração da democracia, até porque os principais partidos têm de apresentar bem mais candidatos do que a soma dos respetivos ativistas, sofrem com o enferrujamento da representação política. Podem levar a que continue em vigor a tal lei de Hermes Trismegisto, segundo a qual, aquilo que está na micropolítica traduz em calão a macropolítica, isto é, à partidocracia da cabeça da república correspondem os influentes, a nível local. Por outras palavras, há sempre oligarquias e plutocracias extralegais, correspondentes ao "coronel" no Brasil e ao boss anglo-saxónico, onde a lei de bronze da organização política faz com que "doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam o Poder, trocam o Poder. O Poder não sai duns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar num rumor de risos" (Eça de Queiroz, em 1867).

* Politólogo

A obra literária de Silvério vista por Pedro Calheiros




Pedro Calheiros

21 de Julho de 2013

Gandarilhos de Napoleão
Não vou apresentar-vos o autor de Gandarilhos de Napoleão, aqui no seu concelho, onde é sobejamente conhecido. Além disso, muitos nesta sala conhecem-no bem melhor do que eu. Vou falar sobretudo dos seus livros.
No entanto, inovando no protocolo tradicional destes baptismos literários, e mesmo sem ter grandes dotes vocais, vou apresentá-lo sumariamente cantando:
Os meninos das dunas de Mira
São como as ovelhas
Têm Carapelhos atrás das orelhas.
Pois é, o moreno Silvério,actualmente residente na vila morena da célebre canção, na terra da fraternidade, tem Carapelhos no corpo e na alma. Os seus livros e a Confraria que na sua terra natal criou são disso prova indesmentível.

1 -  Contos da Confraria.
A sua actividade literária começou em 2003 com os Contos da Confraria. Ao oferecer-me este livro, humildemente, pediu-me na dedicatória que fosse benévolo na apreciação deste modesto trabalho – o primeiro, lembrava.
Não vou aceitar o seu pedido e vou julgá-lo severamente.
Com sinceridade, devo confessar que fiquei nabo de surpresa com a confraria e seu trabalho e com a literatura do seu fundador.
Há neste seu livro, e nos seguintes, uma profunda humanidade, uma singeleza e uma humildade que são marcas de água de um humanismo visceral e universal que compensariam a eventual falha de requintes formais, formalistas, mas nem essa muleta é precisa para fazer avançar no palco literário a sua primeira obra.
Repare-se no texto do 4º. Encontro Ementa Bacalhau à enterro. Com ar descontraído, de quem se prepara para um ágape, não esquece o drama imenso de quem trabalha nas marinhas ou na pesca do bacalhau, evocando a alma destes homens que quase não foram meninos (59), numa provável reminiscência de Soeiro Pereira Gomes que escreveu Esteiros Para os filhos dos homens que nunca foram meninos.
Note-se também que não se trata apenas de uma passagem isolada do livro. Há muitas outras notas do mesmo teor. Logo no texto seguinte, 5 º. Encontro Ementa Lapas (a abrir) Pargo no Forno, a propósito das recordações do ti Manel Marques, Silvério Manata apresenta-o como um homem bom que, depois de nas marinhas provar o amargor do sal, de penar na apanha do moliço e de se desterrar nos lodaçais do arroz, experimentou o exílio insular por trinta meses (66).
Nesse mesmo texto se refere o espírito ecléctico da confraria, implícito no nome, que permite ao seu autor ser diverso, grave e ligeiro, não esquecendo os duros sacrifícios daqueles que possibilitam os prazeres de muitos outros, não temendo estragar a festa com tais rememorações.
No 13º. Encontro Ementa Porco no Espeto, neste texto com numeração aziaga, Silvério Manata recria a figura ímpar da Virgínia das Dores, embaixadora da palavra divina, que com trejeitos clericais, apregoava um evangelho torto e atabalhoado (127), para se vingar de Valentina que lhe roubara o Felizardo. Convém notar a carga simbólica dos nomes das personagens.
A onomástica simbólica está igualmente presente noutros textos do livro. Do Chico Alegria (23) ou do Fininho (29) do primeiro texto, ao Vital, biólogo (95), ou ao Cândido ou ao Inocêncio (94) do 9 º. Encontro, ou ainda no 12º. Encontro o crisma do Galo Velho, o Penante (111) ou da sua preferida Pelúcia (113) ou ainda do seu dono o Courelas (111), não faltam exemplos que se possam colher nos Contos da Confraria. Que mais não seja até por antífrase, como é o caso do Fortunato do último encontro.
No penúltimo parágrafo do livro Silvério Manata acaba por pedir ao leitor que deixe o narrador ser simbólico (138).
A dimensão lúdica está omnipresente e, em particular, nos pequenos episódios picarescos, como o do empanturramento com a vaca do Grosso, morta de febres, enterrada e desenterrada para lhe aproveitar a alcatra (102) ou o das bicadas de respeito no rabo dos donos do Penante, aliviando-os do andaço de lombrigas (117), ou o do logro do rapazelho, sôfrego de ver o buço despontar ao ponto de ir dormir com as galinhas debaixo do poleiro, pois tinham-lhe garantido que caca de galinha era óptimo adubo para ver crescer os pêlos da cara (119), ou ainda, entre outros incidentes, o da sementeira de leitões no quintal da ti Valentina (122).
Estes pequenos apontamentos são o fermento embrionário de onde há-de provir um caudal mais farto da veia picaresca nos livros seguintes, dando maior dimensão lúdica, burlesca, às obras.
O andarilhar, que será tema privilegiado dos Gandarilhos de Napoleão já fazem uma discreta aparição nestes primeiros textos de Silvério Manata. No 7º. Encontro, ou desencontro, pois é o capítulo que tem o mesmo número que os pecados capitais, a personagem principal, muito significativamente inominada, é obrigada a partir a salto para França, já que tinha herdado do avô os genes de andarilho (79). No último texto, o protagonista, Fortunato é descrito como um homem de partir e chegar (131),  que longe da terra que o viu nascer, fora nómada e errara pelo mundo, naquela vocação de ser Português (135). Fortunato sôfrego de partir e vaguear nunca assentou, pois por força de girar à volta do mundo, sempre arranjou maneira de continuar a chegar e a partir (138).
O próprio autor é também ele um andarilho gandarês em terras alentejanas.
Algumas imagens ou acontecimentos são narrados sob os auspícios de bons nomes da literatura portuguesa, como é o caso de Júlio Dinis, através do médico gandarês Rosete que superava na região, o paradigma do João Semana (24), ou de Tomás Ribeiro, cujo artifício literário, sobre o “jardim à beira mar plantado”, Silvério Manata considera sempre actual (77), de Raul Brandão, aceitando o autor dos Contos da Confraria as palavras avisadas do autor de Húmus retomando a pergunta de Ferdinand Denis sobre a identidade de um país onde até os bois vão lavrar no oceano (78), de Gedeão  ao convocar a imagem do sonho que comanda a vida a propósito dos anseios dos ceifeiros gandareses na safra do arroz (86),  ou do mestre Torga, que elevara aos píncaros da fama o Tenório, galo aristocrático, enquanto ele Silvério Manata trazia à baila o seu Penante, galo plebeu, filho de um deus menor (111).
Ah, se os políticos que nos desgovernam, governando-se à grande a si próprios, tivessem outra humanidade outro galo cantaria…
Antes de passar ao livro seguinte, não quero deixar de assinalar o provável record de 4 notas introdutórias destes Contos da Confraria. E não deixarei também na obscuridade a belíssima capa e ilustrações de Alves André, epítome do livro, da Gândara e da Confraria dos Nabos e Companhia.
Na primeira Nota Introdutória, Mário Ribeiro Maduro gaba apropriadamente o precioso contributo cultural da confraria que ajuda a levar Mira pelo Mundo e assevera que o livro mostra a Gândara no mais gandarez que ela tem, fazendo um apelo à contemplação do seu colorido especial e à simpatia das suas gentes (9).
Na segunda Nota, Paulo Sá Machado escreve muito justamente que o que é narrado em Contos da Confraria são histórias que ultrapassam a gastronomia, quase a bordejar a própria vivência do autor, grande parte delas verídicas o que torna a obra muito pessoal e narrativa, que facilmente cativa o leitor, não só gastrónomo, mas também o recebedor de histórias (11).
Na terceira nota, a mais extensa, João Reigota escreve que leu com agrado os textos de Silvério Manata, o GRÃO-MESTRE da Confraria, que “passeia” com “graça”, rara sensibilidade e saber pela vida da região, pelo seu património e identidade (12). Depois de um largo apanhado da temática de Contos da Confraria João Reigota conclui o seu texto declarando que Silvério Manata, o GRÃO-MESTRE da Confraria soube valorizar a causa. Com escrita de interessantes textos (reunidos em obra) vem, certamente, prossegue João Reigota, dignificar a terra e a região enriquecendo e divulgando o Património Gandarês.
Um esforço de louvar !, acrescenta no seu remate.
Na última Nota, Manuel Coquim explica a génese dos contos:
Para animar os capítulos da confraria – leia-se os seus jantares – o grão-mestre teve a feliz ideia de apresentar um em cada encontro (22).

2  -  No Reino dos Nabos

O livro seguinte tem capa e ilustrações de Zé Penicheiro, onze desenhos, um para cada conto, estilizados, de traço contrastante e reduzido ao essencial. Abre também com uma epígrafe do artista que diz :
Num coração de esperança /Mora o fruto da Gândara
Numa Nota Introdutória, lembrando a sua afirmação anterior, nos Contos da Confraria, sobre o valor e a dimensão patrimonial dos textos do autor, João Reigota louv[a] renovadamente o mesmo esforço patente  No Reino dos Nabos, consolidando um significativo contributo dado à História da Região (11).
Salientando a seriedade e a força telúrica da obra, o prefaciador declara que essa é a grande mensagem de Silvério Manata, acrescentando ainda esta apreciação: Muito mais do que a inestimável divulgação do património gandarez (13).
O autarca mirense escreve mesmo que ao lermos esta obra sentimos a força telúrica para abraçar grandes causas (12).
O prefaciador proclama que os textos No Reino dos Nabos não são escritos de ocasião ou circunstância, mas sim uma realidade afectiva e científica que marcará, seguramente, as gerações vindouras (14). Estes contos constituem um cristalino legado de Vivência e História locais. Nestes textos estão todos os gandareses. Os de ontem e os de hoje, acrescenta João Reigota, explicando assim o seu pensamento: Ali estão as suas palavras, as suas vivências e peculiaridade na luta diária e na construção dum território (14).
Um pouco antes já escrevera:
Do sentir do autor, brotam para o papel profundas vivências, criatividades, imaginações, emoções, saídas de retalhos e episódios que, muitos já terão “passado à história”, mas que, pela sua autenticidade, marcaram a Alma Gandaresa. Cada palavra, cada frase, constituem um riquíssimo manancial linguístico da região (13).
João Reigota afirma ainda que nos escritos de Silvério Manata brotam para a vida páginas duma velha epopeia (15) e que na obra não viu apenas o jeito, a sensibilidade e a boa disposição do Grão Mestre da Confraria, mas também confessa que sentiu a força das palavras escritas,
o seu magnetismo especial, que recorda, liberta, acalenta, invoca e se projecta nas gerações vindouras (16).


No primeiro conto, “Sarrabulhada”, Silvério Manata aborda a oposição entre a vida rural e a vida citadina, tema que desenvolverá na obra seguinte Arneiro do Mar. Romance ao entardecer.

O registo picaresco reaparece no segundo conto “Leitão à Bairrada”, onde o camarada Leitão (48) antecipa o Albuquerque de Arneiro do Mar. Romance ao entardecer. O sindicalista Leitão recorrendo ao caciquismo e à promiscuidade dos políticos com o futebol e com a igreja, chega a Presidente da edilidade. Sonha com a consagração do autarca Leitão que seria festejada com muito leitão à Bairrada (53). As trafulhices levam a que por falta de fundos as lápides do cemitério sejam usadas para bancas do mercado, provocando um abalo geral quando a marosca é descoberta, até pelo Ministro que procedia à sua inauguração. Silvério Manata conjuga a surpresa com o suspense, dando no final do conto um remate caricato, picaresco, que se enquadra perfeitamente na arte do conto.

Há também notas picarescas em “Favas com Quinhões” na lenda de S. Tomé (69 e 72).

Em “Passarinhos com Grelos”, além do vento, andarilho por definição, o louro sedutor, nas suas andanças vadias, volta a partir para outras paragens, empurrado pela mão cúmplice do vento, mas também porque tinha esgotado o encanto da novidade, seduzido pelo amanhã, pela incógnita do devir, deixando na aldeia e nas cercanias a semente que as inundaria de recém-nascidos, que herdaram a sua vocação nómada (100).
No oitavo conto “Nabos com Farinha” Silvério Manata trata de um problema que retomará depois no seu primeiro romance Arneiro do Mar. Romance ao entardece, com a personagem de Mário – o problema da paternidade desconhecida ou não assumida. O conto, como o romance trata dos desencontros humanos. Um pai desconhece que teve um filho; pai este que vem a reencontrar a mãe do seu filho num asilo onde ambos se encontram instalados, fazendo a felicidade da sua companheira, sem que esta suspeite, ou saiba, que ele é o pai desaparecido.
Este filho que não conhece o pai tem saudades de Coimbra, onde começa a sua memória afectiva, saudades que se estendem até à aldeia da sua mãe (115), tal como isso acontece com o protagonista de Arneiro do Mar. Romance ao entardece.
No conto seguinte “Punheta com grelo à vista”, é também uma história de paternidade problemática, pois tem como protagonista José Medas Tavares, filho de um desses Medas Tavares abastados que outrora estendiam a sua fazenda por três concelhos da Gândara (119), filho enjeitado, conhecido pela alcunha de José Bosta, que se ficou pela escola de penar, cujo mestre foi a labuta diária (120) e se tornou num incorrigível mulherengo.
O penúltimo conto, o 11º., “Sardinhas na Telha” foi seleccionado para integrar a Antologia de Ficcionistas Gandareses.
Neste conto podemos ler desabafos de quem, ajudado por um burro, cresceu a esquadrinhar aqueles pinheirais à cata de pinhas (p131), trocados entre dois amigos de infância, o ti Bento e o Padre Jerónimo. O primeiro fora obrigado de calças arregaçadas e pés descalços, a rumar a sul, a engrossar o rancho de caramelos que batalhavam nas lezírias sadinas (p132), porque naquele tempo e na sua região só ao bácoro, em trabalho de ceva, era dado o luxo de comer e resfolgar.
Ali não medrava futuro. As sementes não enraizavam e a terra teimava em manter-se calva. Só o pessoal rachado, fincava raízes e não partia. A ranchada de filhos e o esfalfamento para lhe arrancar uns mimos cedo lhes chupavam o viço. Enquanto elas murchavam nas pariduras do destino, eles rabeavam pelas marinhas de sal, pelas pevides e pelas pinhas (p132).
Na Gândara, o destino de Bento e do seu burro de carga, explica o narrador, eram as pinhas. A alimária safava-se mas ele... Entre a apanha destas e a recolha de pevides de eira em eira, de aldeia em aldeia, a puxar por uma bicicleta a pedal, viesse o diabo…
 Este campo de batalha, juncado de ramos e pinhas secas, despojos de uma guerra pelas sopas há muito perdida que obrigou à debandada para as Américas do sul, era então chão mais catado do que piolhos em moleirinha de criança de berço. Palmilhava-o de lés a lés e desunhava-se a trepar aos pinheiros para encher os sacos com que, à tardinha, o burro, todo gaiteiro de tais alforges, encostava às padarias da região de Ílhavo (p133).
Neste remoer memórias e sofrer saudades, ficamos a saber que, mesmo sem vocação, por vontade do pai, o Jerónimo, aos doze anos, foi engolido pelo seminário. O cárcere, na sôfrega barriga dos seus muros altos e tristonhos, só apontava para o céu, a roubar-lhe a planura da aldeia onde se espojava à solta (p133). A prisão durou dois anos e o pai de Jerónimo logo o mandou tirar a recruta nas pinhas e o instrutor ia ser o Bento, perito com um ano de carreira (p. 134). Foi, no entanto, obrigado a voltar para o seminário que lá continuava com cama e mesa certas (p134); acabou acatando o regime de clausura: o pão era certo e a esperança sua aliada. Ordenou-se padre (p135).
Bento tinha herdado dos seus maiores, sem eira nem beira, os bens imateriais. Daquelas mãos brotavam saberes ancestrais. Ele e o bondoso e rústico sacerdote pelavam-se por sardinhas na telha.
 Estes aromas, emanados dos seus maiores, a que se atiram com a gula de quem saboreia um doce conventual, são património da região. O padre Jerónimo, defensor ferrenho da mesa regional, já consultara, nos tempos de ócio que um rebanho adestrado permitia, livros e colegas e não dava fé de tal ementa por esse Portugal fora (p136-137).
Prossegue o narrador, com voz ternurenta também, a explicação da paixão dos dois amigos nestes termos: Em festa de sardinhas, as pinhas vinham, inevitavelmente, à baila. O padre Jerónimo servia-as à mesa com lumes tão intensos no olhar como o que aquecera o forno. Eram as memórias afectivas a comandar o paladar (137).
O enraizamento do sacerdote e o orgulho pela sua terra são tais que magica a ideia de um monumento aos homens desse adorado rincão, mas o projecto não chega a ganhar raízes, pois o seu rebanho envergonhava-se do passado e parecia ter esquecido que fora a míngua arrastada de pão que obrigara um punhado de homens a esgaravatar na Venezuela e amealhar para fazer de uma terriola de burros e pinhas uma aldeia próspera (p137).
Como vemos, a tela negra do conto é a fome e miséria gandaresa, mas também os pequenos-grandes prazeres da vida, os aromas e sabores, o ar livre e a liberdade, o esforço e a sua poesia.
O último conto de No Reino dos Nabos “Tripas à Gandaresa mostra – utilizando a poética do to show, not only to tell, especialmente através do recurso mais abundante ao diálogo, vivíssimo, de resto, emprestando verosimilhança ao texto –  o conto mostra, dizia eu, como Cadete, para vingar uma injustiça sofrida, pôs ao léu (157) as tripas do Léu.
Cadete é um nome que ressurgirá em Gandarilhos de Napoleão. Assim como a temática da errância, que neste conto está consubstanciada em Léu, ourives ambulante por terras alentejanas:
Andarilhou por barrancos, chapadas, cumeadas, chaparrais, moitas, searas, atasqueiros e montes a espreitar oportunidades. Esquadrinhava as vendas e as casas de lavoura; tentava os cabreiros, os porcariços e os ovelheiros em tempos de venda do polvilhal; insinuava-se às criaditas; sondava a algibeira ao almocreve, ao boieiro e ao ganhão (154-155).
3 - Arneiro do Mar. Romance ao entardecer
O primeiro romance de Silvério Manata, Arneiro do Mar. Romance ao entardecer, tem igualmente capa e ilustrações de Zé Penicheiro. Esta parceria artística revela uma grande afinidade entre o artista plástico e o escritor, pois a capa do segundo romance também será confiada ao mesmo pintor. De resto, no capítulo “Prisioneira do Casulo que Tecera”, há uma leitura da estética do autor da capa e das ilustrações do romance, que é no fundo, também a de Silvério Manata, por via indirecta definida. No caderno de notas de Maria José, a propósito de uma viagem feita à volta de um painel de Mestre Zé Penicheiro, no átrio da Câmara, a professora consegue captar a Gândara, em toda a sua dimensão nestes termos:
O fundo do trabalho é um livro aberto: na página esquerda, o mar; na direita, a terra. Sem adornos supérfluos, porque a verdadeira mestria está na capacidade de ser simplificador da forma, estiliza o real e, lançando mão de alguns elementos simbólicos que caracterizam estes dois elementos da natureza, faz surgir dessa aparente simplicidade, por força da cor e do seu traço inconfundível, a região em toda a sua pujança. A força das gentes cujos horizontes alternam entre o barco e a carroça; a sardinha e o porco na ceva; a areia solta e a areia amansada pela enxada onde se impõe o verde do pinheiro bravo que há-de dar vida à embarcação e à carroça, ao palheiro…» (60).
Se este é o credo estético de Zé Penicheiro, ele é também o de Silvério Manata. De resto, a dedicatória do romance disso dá fé igualmente, pois ela assim reza:
A Mestre Zé Penicheiro, criador de telas e de afectos.
Uma outra passagem do romance oferece outra profissão de fé estética, que se pode aplicar em diferentes gradações a todas as obras de Silvério Manata, dos contos anteriores ao último romance. Por isso, me atardo no seu comentário.
A propósito do pensamento literário de Mário que projecta escrever um livro, o narrador escreve:
Sabia de alguns autores que lavram o papel em desventuras de terceira pessoa, demandando, nesse extrínseco desabafo escrito que mascara tormentos pessoais, ajuda para vencê-los. Vomitar aflições, mesmo encapuçadas em narrativas heterodiegéticas, ajuda a esconjurá-las. Sabia também que só relações de vivências tumultuosas ou fracassadas tinham história. Elas eram a matéria –prima para o enredo das páginas de um livro. Disso tinha a sua parte e o relato dos sobressaltos da sua vida seria uma óptima terapia para reconciliar-se com ela, a vida. Ia pôr mãos à obra (99).
Como se pode ver a literatura é definida como vómito de aflições, como desabafo para mascarar tormentos pessoais e desventuras, para ajudar a vencê-los , como terapia de reconciliação com a vida. A literatura é, no fundo, como autobiográfica, mesmo quando se apresenta com a máscara da terceira pessoa.
Isto penso eu igualmente e por isso me comprazo aqui a sublinhá-lo pelas palavras de Silvério Manata.
Numa passagem anterior, Mário, com sua natureza tímida e hesitante, indeciso sobre que atitude e linguagem a adoptar em relação à ex-mulher e ao filho de ambos a si mesmo faz esta reflexão: Ó pobre rapaz, cresce que o tempo dos rodriguinhos e dos violinos já lá vai (39).
Maria José, no seu caderno de apontamentos, também transcreve um diálogo em termos reais, nada eufemísticos, que a leva a auto-analisar-se e confessar:
A língua solta-se em vocabulário viril. Prefiro-o acutilante, carregado de expressividade a um léxico chocho, enrodilhador. Não vai a lado nenhum. Não sendo gratuito, o palavrão converte-se em palavra com alma e não choca a minha sensibilidade, dita feminina (64).
Aqui, Maria José, alter ego do autor, defende os supostos excessos de linguagem a que recorre e, à cautela, justifica-os.
Um excerto do quinto capítulo deste romance foi publicado na Antologia de Ficcionistas Gandareses, precedido por um cabeçalho que contextualiza o excerto e resume muito sinteticamente a narrativa. Citemo-lo pois esse resumo é feito pelo próprio romancista:
Em finais dos anos sessenta, Maria José, professora primária oriunda de Coimbra, chega a Arneiro do Mar, minúscula e pacata aldeia do litoral gandarês, e aí encontra Mário, a outra personagem central desta história. Através deles, dois espaços sociais e físicos diferentes vão ser confrontados. Do diálogo entre o meio urbano e o meio rural se constrói o enredo de Arneiro do Mar, romance ao entardecer (146).
No excerto em questão, o narrador e um caderno de notas da protagonista relatam as primeiras impressões do mundo provinciano que a nova professora de Arneiro do Mar vai encontrar.
Com efeito, logo depois de chegar à aldeia, Maria José ainda em tempo de ilusões pedagógicas, planificava o trabalho escolar e rabiscava os apontamentos no café, naquele mundo labrego, observada por uma  mesada de garanhões, já toldados pela força da cerveja preta (30). Acostumada a estudar nos cafés de Coimbra, prolongou esse hábito, que não sendo proibido, não era bem visto em Arneiro do Mar, provocando críticas sobre essas suas Modernices! (31)
Aquele mundo rural, comenta o narrador, avesso a reformas, só começaria a mandar paulatinamente às urtigas legados ancestrais daí a algum tempo, com a revolução que disparava cravos do cano das espingardas. Por enquanto, as heranças mouras eram visíveis até nos atavios das mulheres mais velhas: trajavam ainda um lenço e um chapéu circular, que tapavam o rosto quase por completo e as arabizavam. Eram vestígios seculares daquela gente do Norte de África que, mais que espalhar a morte em pelejas sangrentas como pretendem alguns, semeou uma cultura que se impôs pela sua vitalidade (31).
Continuando a observação de costumes, o narrador volta a comentar que era um mundo macho, vedado às mulheres, aquele que Maria José ia captando, dando voz à protagonista que apontava no seu caderno:
«Elas não têm assento na coisa pública: uma Assembleia de Freguesia; um grupo filantrópico; uma jantarada. Aqui em terra de sedimentação patriarcal, segue-se à risca o fundamentalismo de um catecismo emanado de dois poderes, o político e o religioso, que, em uníssono, clama a submissão das mulheres aos maridos e aos pais... à casa. Sai-se apenas para mourejar na terra. É gente que hibernou em atávicos sonos dos quais parece não querer acordar» (32).
No entanto, volta o narrador a comentar:
Mas este reino de varões era aparente. Maria José não sabia, por hora, que aquelas, mulheres encafuadas em casa, se metamorfoseavam. Paradoxalmente eram elas que, portas adentro, governavam com rédea curta o espaço familiar: criavam a ranchada de filhos; atavam em nó cego, que só elas sabiam desatar, os cordões da bolsa magra e eles, os seus homens, rabo enfiado nas pernas, vinham comer-lhes à mão, a esmolar uns tostões para as estroinices (32).
Uma das temáticas predominantes deste romance é a oposição ou complementaridade entre o campo e a cidade, mesmo se no final do livro o narrador parece afastar esta ideia.
Com efeito, no penúltimo parágrafo do romance, o narrador, que projecta escrever um livro sobre as suas vivências declara:
Não vai reinventar a Cidade e as Serras. Não pondera viver nenhuma versão actualizada da obra de Eça. Não se imagina o bom-serás endinheirado e romântico disponível para causas sociais (277).
Mas isto apenas significa que não quer ser um novo Jacinto na sua Tormes, que é como sabemos, a sua aldeia de Carapelhos, sendo a sua Paris, Coimbra.
Silvério Manata, ele mesmo, no cabeçalho que fez para o excerto deste romance publicado na Antologia de Ficcionistas Gandareses, resumindo o enredo do seu romance, contradiz a precedente citação, pois nele afirma, como já citei,  que do diálogo entre o meio urbano e o meio rural se constrói o enredo de Arneiro do Mar, romance ao entardecer (146).
A mesma leitura fez o editor Fernando Mão de Ferro, em texto assinado na badana da capa do livro – processo que não é dos mais comuns - , escrevendo que Silvério Manata revela neste seu livro uma imensa capacidade criativa, confrontando aspectos de vida citadina com as vivências da aldeia rural.
Manuel Cidalino Madaleno, igualmente numa badana, a da contracapa, assinalando o aparecimento, nos últimos anos, de uma tão surpreendente quão proficiente plêiade. Sobre o autor de Arneiro do Mar, romance ao entardecer, Cidalino Madaleno escreve:
Com a sobriedade que lhe é peculiar – e que contrasta com a exuberância da sua escrita – Silvério Manata tem já edificado o seu assento, de pleno direito, neste genuíno escol, nesta informal «Academia das Letras Gandaresas» que dá universalidade ao território definitivamente arrebatado ao recesso literário pelo pioneiro engenho de Carlos de Oliveira.
A aldeia onde se desenrola o romance é descrita no caderno de apontamentos de Maria José como uma metáfora de Portugal (220). Registando a profunda religiosidade dos habitantes de Arneiro do Mar e o seu fomento durante a ditadura salazarista, Maria José regista no seu caderno:(…) acudiu-lhe a conhecida trilogia em Efe – Fátima, Fado e Futebol – obra maior do Estado Novo que, estrategicamente, entorpecia o país. Arneiro do Mar, metáfora de Portugal, não era excepção quedando-se sobretudo pelo primeiro termo da trindade – Fátima – de quem era seguidor fervoroso (220).
A propósito dos contos, já assinalei alguma temática recorrente, como a dos andarilhos, a da paternidade problemática – dos progenitores que não deixam rasto ou não a assumem, ou, no campo estilístico, as situações picarescas ou a onomástica simbólica. Não insisto, por razões óbvias, e também porque voltarei ao assunto a propósito do novo romance.
No entanto, sem entrar em justificações que o tempo e a situação  não permitem, não deixarei de assinalar que a onomástica deste romance está carregada de simbologia, mesmo se não inteiramente assumida pelo autor. Do nome andrógino da protagonista feminina, Maria José ao Albuquerque que lhe faz a corte e que tem nome de conquistador, do despótico avô Água Fria à filha Constância, de Alcides a Pedro Chancudo, várias personagens do romance têm no seu crisma forte carga simbólica.
Em Arneiro do Mar Romance ao Entardecer, além da problemática da célula familiar desavinda, das relações triangulares, da estrutura familiar deslocada, aberta, provocada pelo divórcio e suas nefastas consequências, mas também suas vantagens, o romance aborda inúmeros temas, como o do ensino – de rumo ziguezagueante (101) -, o da linguagem, o das diferenças sociais, o da exclusão, o da miséria, o do controle político da sociedade com a ajuda de caciques e do clero, o da transformação geracional através de três gerações da família Água Fria, o da evolução do papel da mulher na sociedade, levando, por vezes, a uma quase inversão dos papéis que a sociedade tradicionalmente atribuiu aos dois sexos, como resultado da emancipação da mulher, o da militância política e sindical, o da emigração, o da igreja e das crendices religiosas, o da saudade em seus diversos registos, etc.
Há na narrativa uma enxurrada  de assuntos adjacentes e concomitantes trazida à baila por diferentes narradores com diferentes vozes e estatutos diversos.
 
4 – Gandarilhos de Napoleão
Como vimos, nos livros anteriores, há temas e personagens embrionários que se desenvolvem nas obras seguintes.
Assim o tema central deste romance já aparecia muito discretamente no romance anterior Arneiro do Mar Romance ao Entardecer.
A propósito de uns tesouros que o avô Água Fria encontrara na lagoa junto ao mar, testemunhos das Invasões Francesas do tempo do avô do vovô. De quando as forças Napoleónicas, dali da Serra do Buçaco, rondaram aqueles areais da Gândara, a propósito desses achados, reminiscências de estórias da História, o narrador evoca uma temática que vai ser o cerne do romance que nos reúne hoje aqui: Gandarilhos de Napoleão.
No capítulo “Devia ser um Trinca-Espinhas” de Arneiro do Mar Romance ao Entardecer, podemos, com efeito ler:
Certo, certo por aquelas bandas, o abastardamento de alguns nomes franceses a provar que o soldado raso preferiu desertar do derrotado exército de Napoleão e encontrar guarida no regaço de uma robusta gandaresa, a voltar, coberto de ignomínia, para a terra gaulesa (53).
Que melhor síntese do romance poderia eu fazer do que esta feita pelo próprio romancista, ainda antes de escrever o romance?
O tema do andarilhar atravessa todo o romance, num campo lexical vasto, que vai da designação dos soldados napoleónicos como caminhantes (42 e 44), andadeiros adestrados (45 e 135), caminheiros (47), máquinas de andarilhar (64), andarilhos da companhia (74), andarilhos de Napoleão (143), e a própria palavra andarilhar (45 e 153).
Uma outra árvore semântica é dos pobres-diabos, anti-heróis, obrigados a lazarar na sua travessia da Península Ibérica até se fixarem na região onde nos encontramos hoje para os conhecer melhor.
Barreira, começa por dizer ironicamente aos três foragidos franceses, que lhe pedem ajuda para solicitar acolhimento às gentes do vale do Mondego, que sendo ele também um desertor, lazarar-lhes à porta (123) seria o mesmo que pedir-lhes que por caridade cristã lhes limpassem o sebo. Quando chegam a Cadima, Barreira admite que dirigindo-se para o mar talvez consigam que os seus habitantes tenham piedade dos quatro lázaros (145). É Barreira ainda que compara  a sua sorte à do Lázaro da parábola de Lucas (191), pois da felicidade não colheu senão migalhas, migalhas da felicidade experimentada pela figura bíblica. Até os pobres habitantes de Arneiro do Mar onde se vão acoitar são referidos como lazarentos penitentes (187), tão míseros como a capela que os alberga.
Assim, podemos ver que há da parte do autor uma preocupação de lançar alicerces na narrativa, de dominar a estrutura do romance e o seu fluir para poder mais tarde desenvolver os comentários que justificam o título e a temática do romance. Com efeito, logo depois da comparação evangélica, no espírito de Barreira imediatamente aparece o outro Lázaro, parido num moinho de Tormes (191). Esse Lázaro, que, pelas suas fortunas e desventuras, ficou conhecido por Lazarilho. Barreira encontrara escondido num velho baú do Colégio, um exemplar do século XVI em castelhano (191).
Barreira leu o célebre romance onde encontrou herói do avesso que, nem de água nem de sal, é parente do bravo fidalgo que costuma atafulhar páginas e páginas com enredos de cavalaria. Barreira acha que dada a sua visão do mundo, mais cândida, não cabe por inteiro nessas páginas, mas não pode deixar de rever-se nesse anti-herói que tanto pena para ir escapando às agruras que teimam em não o largar (191).
No dia de Natal, depois de tirarem a barriga da miséria, Barreira interroga os seus amigos sobre a existência ou não, naqueles tempos de heróis arrebatados que renunciem à vidinha para correr atrás de um sonho, de um ideal (195). A resposta é negativa, acabando um deles por afirmar que nada neles poderá inspirar um autor, acrescentando que não mora neles a essência do romance de cavalaria, do herói que dá a vida por uma causa (195).
Barreira pergunta se alguém já ouviu falar em Lazarilho de Tormes e Frade responde que em Salamanca, quando bivacavam junto ao Tormes, tinha ouvido as altas patentes comentar o livro, provocando a curiosidade de Coquim e de Cadete que quiseram saber dos enredos.
Segue-se este diálogo, que encerra o capítulo com o mesmo título que o livro, e que o explica e justifica:
- Pelo que me dizem, a nossa vida escarrapacha-se nesse livro. Desde Auxerre, vimos lazeirando, por um longo caminho de dois anos, até aqui, até esta região gandaresa, como já tenho ouvido chamarem-lhe.
- Míseros de nós, não passamos de uns borra-botas do todo poderoso exército napoleónico!
- Filhos bastardos de uma campanha que nos atirou para estas areias.
- Andarilhos de Napoleão em busca de um reino gandarês!
- Lazarilhos da Gândara!
- Gandarilhos de Napoleão!(195-196)
Acabado o diálogo, comenta o narrador, pondo termo ao capítulo:
Por entre risadas, que lhes lustram ainda mais a barbela untada, aplaudem a caldeação lexical que melhor têmpera dará ao trocadilho do seu peregrinar. Vejam só, onde veio parar a tagarelice carregada! E, de língua já entaramelada, brindou-se à amizade, à utopia e à vida (196).
A capa deste novo romance também tem na portada um desenho de Zé Penicheiro, de expressivos traços brancos sobre fundo preto.
Como já acontecera com o romance anterior, também este traz numa das badanas um texto do editor Fernando Mão de Ferro. Num primeiro parágrafo, pode ler-se que o autor de Gandarilhos de Napoleão envolve os leitores não apenas no sacrifício brutal dos portugueses durante as invasões francesas, mas também, na reflexão sobre parte das tropas francesas, em que muitos jovens eram retirados da pacatez das suas famílias e aldeias e forçados a integrar o exército Napoleónico que invadiu a Península Ibérica.
No segundo e mais curto segmento do texto, o editor afirma que o escritor gandarês criou personagens psicologicamente muito ricas que se impõem ao leitor e dialogam repetidamente com ele sobre valores éticos do bem e do mal, da paz e da guerra.
No ultimo parágrafo, apontando o subgénero em que o romance se situa, Fernando Mão de Ferro assinala igualmente a sua universalidade construída com alicerces sólidos na realidade regional:
Com este romance histórico, Silvério Manata, embora abarcando uma tragédia universal – o conflito e o desentendimento dos homens e das nações – aproveitou a realidade histórica, que fez da Gândara o cenário efectivo de uma parte dos acontecimentos, para se manter fiel à matriz cultural, da qual tem sabido extrair os ingredientes da sua saborosa escrita e divulgar, ao longo da sua original carreira literária, a identidade singular de um povo que teima em manter traços indeléveis do seu rico património imaterial.
Registe-se que o editor, além de enaltecer as qualidades poéticas do romance, já assinala igualmente a existência de uma carreira literária, desta feita qualificada de original.
 
ONOMÁSTICA DAS PERSONAGENS E SUA SIMBOLOGIA
 
Não vou insistir na carga simbólica das criações manatianas, pois já o fui fazendo a propósito das outras obras, como viram. O que disse delas aplica-se, em parte, neste segundo romance.
Vejamos um exemplo. O ficcionado narrador republicano do manuscrito de 1910, que a si próprio se qualifica como um trolha das palavras (119), antecipando Saramago – mas Silvério Manata, o autor de 2010 já o conhece e quer homenageá-lo – , numa atitude de identificação fraterna, simbolicamente, reunindo num só nome todos os nomes, escreve:
O meu nome é Manuel Frade de Jesus Coquim Barreira Cadete . Sou todos os nomes porque em  todos estes heróis me revejo; nos quatro avós que deixei às portas de Coimbra enquanto, em aprumada homenagem, me estico Buçaco acima em almejos de roçar-lhes a têmpera. É na esperança de que não se perca a semente da memória que me aventuro pelas lavras da palavra; da voz manuscrita que louve este bravos ignorados por um protocolo pitosga, que um dia apearam canhangulos para charruar o mar mailas areias e a Ria que o afagam (188).
Do mesmo modo que os livros anteriores englobavam personagens com onomástica simbólica, este novo romance não foge ao uso.
Coquin, é uma alcunha que impuseram a David (20 e 80), deturpação de vieira, que bem se aplica a este andarilho, e que tem como significado também o de velhaco e desenrascado (21) ou desembaraçado (27).
Cadet era o benjamim de uma caterva de filhos de abastada lazeira, , sobrevivia à custa dos incertos trabalhos sazonais, não escapando, este pau para toda a obra, ao arganel de fome que frequentemente o cingia (27).
Jacques, o furtivo frade cirtescience, tem o mesmo crisma que o frère Jacques da célebre canção.
Cada um destes tês vai encontrar a sua Maria, todas com onomástica de forte conotação religiosa.
 Coquin conquista Maria da Graça, a filha de António Francisco Cação, disputada pelo galaroz (218) Fortunato, pícara personagem camiliana, uma espécie de Zé do Telhado gandarês, num episódio cheio de picardias, que leva o narrador a comentar: A quadrilha de Fortunato, ao entregar a alma ao criador, pusera o Seixo nos cornos da lua, mormente os quatro novos aldeões. O feito, digno de folha de cordel sanfonada por ceguinho habilitado, dava brado (227).
Cadete une-se a Maria da Conceição. Frade, que era frade mas não era capado (17) seduz Maria do Rosário e vai ser pai.
Barreira, seduz a moleira Maria dos Anjos.
 
LINGUAGEM e ESTILO
Linguagem chã, sem falsos pudores: Mas o valentão era filho de quatro nalgas como os demais e nem as anafadas partes impediram que um medinho de rachar se insinuasse pelo cu adentro,  subisse pela espinha e lhe esfriasse os ímpetos aguerridos (70).
Na praia de Mira o alvoroçado oceano numa madrugada acordou de cu virado para a lua (157).
A expressão é fervilhante, cheia de imagens, de ironia, que tão bem traduz a visão desencantada da vida das picarescas personagens. As situações picarescas são numerosas, de diversa índole, de linguagem, como acabei de dizer, mas também de cenários, de situações, de personagens, de ironia, e de tom burlesco, etc. Numerá-las levar-nos-ia a ficar aqui até ao fim das Festas de S. Tomé…
O estilo é disfemístico (232), mas variado, por vezes popular, coloquial, outras mais clássico, até ao exagero, como acontece com o diálogo empolado do frade francês com gosto arcaico, parodiando o amor cortês, mas em português vernáculo (241-242). No primeiro registo temos, por exemplo:
-  Como a areia abafava as passadas, que eram cada vez mais penosas no breu de não ver-se a ponta de um corno (153).
-  (…) parecia ter parido a galega (167).
 Outras vezes recorrendo a diálogos de uma grande expressividade e economia verbal, com vivacidade e naturalidade (86-87).
Por vezes terra a terra, por vezes poético:
-  Noite. A lua. Tímida, aconchega a manta negra dos penhascos aos homens que resfolgam (103).
-  Por força de tanto assoprar no fole cheios de sonhos, quando ajeitaram a mochila à cabeça na esperança do sono renitente, já eram mestres a moldar o futuro (106).
Ou desencantado, aparentemente paradoxal, antitético, quase oximorístico, realista:
-  Cadet começa a habituar-se ao cheiro da morte: é preciso viver (103).
-  (…) sai-lhes ao caminho um amaldiçoado sol radioso (107).
Para lhe dar vida não faltam as onomatopeias (92).
Estilo bastante plástico, goiesco, como acontece na descrição dos empalamentos (68-29 e 93).
Há um ou outro termo extemporâneo, anacrónico, um ou outro entusiasmo excessivo do autor, que não vale a pena elencar aqui, pois deles já dei parte ao Silvério, mas que de qualquer forma não desfeiam sobremaneira a narrativa.
 
TEMPO
A acção desenrola-se sobretudo durante as invasões napoleónicas, mas cobre muito episodicamente um período posterior, um século depois, quando é redigido o manuscrito que serve de base à narrativa e um outro século mais quando é encontrado o manuscrito que vai desencadear o romance.
 
ESPAÇO
A distribuição espacial do romance é vastíssima , indo da França, da região de Auxerre até à Gândara, em particular a Seixo, passando pela Espanha e Portugal no itinerário do exército francês e depois na debandada dos quatro gandarilhos.
Almeida, Viseu, Coimbra, Cantanhede e terras próximas, Mira e suas redondezas fazem parte do cenário do romance. Nesta vasta tela de fundo Seixo, e os lugares à volta ocupam um lugar privilegiado pois é aí que se vão fixar os andarilhos de Napoleão, feitos gandarilhos pelo feliz trocadilho criado por Silvério Manata.
É que, descrevendo os desastres de guerra, mostrando o avesso da utopia, Silvério Manata denuncia a hipocrisia tal qual o autor desconhecido do Lazarilho de Tormes já o fizera antes, apontando o caminho que à literatura se impunha em tempos difíceis em que prosperavam todo o tipo de trapaceiros.