quarta-feira, abril 09, 2014




A ORIGEM DO MUNDO

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

 

http://www.polbr.med.br/ano13/psi0313_arquivos/image001.jpg

 

“A origem do mundo”, de Courbet (*)

 

Sérgio Telles

 

O quadro “A Origem do mundo” tem uma história curiosa à qual se acrescentou um novo capítulo semana passada. A tela foi pintada em 1866 por Courbet, a pedido de Khalil Bey, diplomata turco-egípcio e colecionador de quadros eróticos, que a possuiu até o momento em que, arruinado pelo jogo, teve sua coleção leiloada. Em 1889, o quadro foi encontrado num antiquário pelo escritor francês Edmond de Goncourt e, posteriormente, comprado por um nobre húngaro que o levou para Budapeste, onde escapou da pilhagem realizada pelas tropas russas no final da Segunda Guerra. Trazido de volta a Paris, foi comprado por Jacques Lacan, que o mantinha em sua casa de campo em Guitrancourt, na qual o exibia ritualisticamente a seus convidados. Após a morte de Lacan, a família cedeu o quadro ao Museu d’Orsay dentro das negociações com o estado francês em torno de impostos referentes à transmissão de herança. 

“A origem do mundo” mostra os genitais femininos da maneira mais crua possível. Vê-se um torso da mulher, os seios, o ventre, as pernas afastadas, a frondosa cobertura pubiana e a vagina entreaberta. A novidade recente é que teria sido encontrada a parte superior do quadro, que exibe os ombros e a face da modelo, confirmando hipóteses anteriores que afirmavam ser ela a irlandesa Joanna Hiffernan, que posava também para o grande pintor Whistler, de quem fora companheira e que estaria envolvida afetivamente com Courbet na ocasião em que o quadro estava sendo pintado.

Supondo a veracidade da descoberta, que ainda está em discussão entre os especialistas, podemos conjecturar quem teria seccionado a pintura e por que motivo. O quadro era tido como pornográfico e até muito recentemente mantinha essa conotação. Não é então difícil imaginar que o próprio pintor tenha resolvido mutilar sua obra com o intuito de proteger sua modelo. Ainda em 2009, livros cujas capas o reproduziam foram confiscados pela polícia em Portugal e páginas do Facebook que o exibiam foram retiradas do ar em 2011.  Não deixa de ser surpreendente que, em função do noticiário, sua imagem tenha aparecido abertamente em todos os jornais.

 

 

A trajetória do quadro, vindo dos porões da pornografia para a consagração definitiva nos salões do Museu d’Orsay mostra como a apreciação de uma obra está inevitavelmente atrelada aos valores vigentes no tempo e no lugar de seu surgimento.

Contrariando a representação idealizada do nu feminino, Courbet o apresenta de forma realista. Consta que o grande crítico de arte e ensaísta vitoriano John Ruskin, reverenciado por Proust, jamais superou o choque ocorrido no leito nupcial, ao se deparar com as características hirsutas de sua mulher, tão distantes da lisa e glabra estatuária clássica que lhe era familiar, acontecimento de consequências desastrosas para seu casamento, jamais consumado fisicamente. Mais recentemente, no final dos anos 60, o editor da “Penthouse”, Bob Guccione, causou furor ao mostrar esse detalhe da anatomia feminina, até então pudicamente evitado até mesmo por sua rival, a revista “Playboy” de Hugh Hefner.

Atualmente a forma de dispor o velo pubiano parece estar num outro estágio, evidenciando que, a cada época, o erotismo desenvolve novas estratégias de sedução e formas de acicatar o desejo. Se Courbet, fiel aos costumes de seu tempo, mostra o genital feminino envolto em sua pilosidade natural, constata-se como a moda atual é diferente, na medida em que a depilação é a regra para as mulheres e até mesmo para os homens. Nos dias de hoje, Ruskin não teria tido problemas em sua lua de mel.

As transformações na maneira como a sociedade acolheu “A origem do mundo” mostra como a arte, enfrentando a censura e os preconceitos da época, luta para representar e expor o que é considerado inaceitável, proibido, não representável. Desta forma ela está permanentemente ampliando os limites e as fronteiras daquilo que é permitido pela moral e os costumes.

Trata-se de um serviço inestimável que a arte presta ao conhecimento. Na medida em que simboliza, representa e põe em circulação conteúdos até então excluídos, torna possível o pensar e o refletir sobre eles. Com isso, os aspectos mistificadores, idealizadores, ideológicos – ou seja, a dimensão fantasiosa que acompanha estes conteúdos quando forçados a medrar no escuro – são expostos  à luz, o que lhes retira a conotação assustadora, devolve-lhes a real dimensão e a possibilidade de um tratamento objetivo adequado.

No fundo, estamos falando da liberdade de expressão. O estado tem o dever de proteger os cidadãos e neste sentido, deve exercer a censura (aqui entendida lato censo, como o poder de reprimir e punir) para limitar os impulsos agressivos e sexuais que nos são próprios e que precisam ser coibidos para garantir a vida em sociedade. Mas o exercício da censura é complicado, pois o estado tem seus próprios interesses, que nem sempre coincidem com os da sociedade que deveria representar. Por isso  esta deve estar sempre atenta ao poder do estado, especialmente no que diz respeito às tentativas de reprimir a livre manifestação de opinião.

Pornografia ou arte, o quadro de Courbet mostra como a representação explícita dos genitais mantém inalterado um efeito perturbador sobre nós, como algo arcaico vindo de tempos imemoriais que nos atinge profundamente, sem que possamos evitá-lo.  Ela evoca, sim, a “origem do mundo”, o mistério da vida, o enigma da diferença sexual cujo impacto determinante ocorrido na infância continuará para sempre repercutindo em nossas existências.

A propósito da diferença sexual, em 1989, a artista francesa Orlan, conhecida por suas incursões na body art e outras vertentes da vanguarda, criou sua versão do quadro de Courbet, na qual mostra um torso masculino com o falo em ereção, intitulando-o, significativamente, como “A origem da guerra”. Como tudo que Orlan faz, o quadro e o título convidam à polêmica.  Mais uma vez traz à tona a questão do que deve ser exposto e do que deve ser ocultado. Ao atribuir às mulheres o poder criativo e delegar aos homens a carga da destrutividade, para tanto invertendo o significado convencional do falo enquanto símbolo de  fertilidade, Orlan toma uma posição política de denúncia contra a violência machista ainda vigente mesmo nas sociedades mais evoluídas.

 

(*) Versão ampliada de artigo publicado no Caderno 2 do jornal  “O Estado de São Paulo” em 16/02/2013


 

Você já pleonasmou hoje?


 
 
 
Todos os portugueses (ou quase todos) sofrem de pleonasmite, uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.
O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo
de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.
Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”,“descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora”.
Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.
Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos“pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em “metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?
Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais”para lhe dar este “aviso prévio” de que esta“doença má” atinge “todos sem excepção”.
O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em“cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um“acabamento final” naquele projecto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade, diga lá que às vezes não tem vontade de“gritar alto”:“Cala a boca!”?
O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que“estreia pela primeira vez” em Portugal.
E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus.
Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em directo no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “governante” dirá que gere bem o“erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um“consenso geral” para sairmos juntos desta crise.
E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma“multidão de pessoas”?
Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa “dores desconfortáveis” nem “hemorragias de sangue”. E por isso podemos “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”. Porque um Angolano a pleonasmar, está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu “habitat natural”.
Mas como lhe disse no início, o descontrolo da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E “já agora” siga o meu conselho: não“adie para depois” e comece ainda hoje a “encarar de frente” a pleonasmite!
Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só “maluco da cabeça”.
(recebido por e-mail)
 

sábado, março 22, 2014

Decrescimento: uma proposta polémica?

A">http://vimeo.com/46350265">A crise da civilização ocidental e a resposta do Decrescimento. Com Serge Latouche (legendado)
from CIDAChttp://vimeo.com/cidac">CIDAC> on Vimeo.https://vimeo.com">Vimeo.>

segunda-feira, março 17, 2014

Fenómenos meteorológicos extremos afetam Portugal há séculos


Fenómenos meteorológicos extremos afetam Portugal há séculos
O Inverno que está prestes a terminar trouxe este ano tempestades, cheias, ventos e chuva fortes. A estação vestiu-se a rigor, mas uma equipa de investigadores assegura que o fenómeno não é de agora.
 
A equipa do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa andou para trás no tempo e descobriu que no século XVII teve início um longo período de tempo frio.
Começou em 1675 e terminou em 1715. Portugal foi atingido por uma vaga de frio e Lisboa, nessa época, assistiu a vários nevões. Maria João Alcoforado, uma das autoras do estudo, revela que foram quatro décadas de Invernos muito rigorosos.
A equipa da Universidade de Lisboa está a estudar o clima em Portugal desde 1675 até aos nossos dias. Entre períodos de vários registos a outros de total nulidade, os investigadores concluíram que as tempestades não são fenómeno só do presente.
1739 foi um dos anos de má memória. Em dezembro, três dias bastaram para inundar o país. Em contraste, o ano de 1694 foi seco. Tão seco que procissões saíram à rua a pedir chuva.
O trabalho, que começou há dois anos no Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, vai continuar durante mais um ano.
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3755556

A ferramenta principal de escravizar as nações e Governos é a dívida.

Karen Hudes, demitida do Banco Mundial por ter revelado informações sobre a corrupção na instituição, explicou com detalhes os mecanismos bancários para dominar o nosso planeta. Artigo da Russia Today, publicado no Diário Liberdade.

Karen Hudes, graduada pela escola de Direito de Yale, trabalhou no departamento jurídico do Banco Mundial durante 20 anos. Na qualidade de 'assessora jurídica superior', teve suficiente informação para obter uma visão global de como a elite domina o mundo. Desse modo, o que conta não é uma 'teoria da conspiração' a mais.
De acordo com a especialista, citada pelo portal Exposing The Realities, a elite usa um núcleo hermético de instituições financeiras e de gigantes corporações para dominar o planeta.
Citando um explosivo estudo suíço de 2011, publicado na revista 'Plos One' a respeito da "rede global de controlo corporativo", Hudes enfatizou que um pequeno grupo de entidades, na sua maioria instituições financeiras e bancos centrais, exerce uma enorme influência sobre a economia internacional nos bastidores. "O que realmente está a acontecer é que os recursos do mundo estão a ser dominados por esse grupo", explicou a especialista com 20 anos de trabalho no Banco Mundial, e acrescentou que os "capturadores corruptos do poder" também conseguiram dominar os meios de comunicação. "Isso é-lhes permitido", assegurou.
O estudo suíço que mencionou Hudes foi realizado por uma equipa do Instituto Federal Suíço de Tecnologia de Zurique. Os pesquisadores estudaram as relações entre 37 milhões de empresas e investidores de todo o mundo e descobriram que existe uma "super-entidade" de 147 megacorporações muito unidas e que controlam 40% de toda a economia mundial.
Contudo, as elites globais não controlam apenas essas megacorporações. Segundo Hudes, também dominam as organizações não eleitas e que não prestam contas, mas, sim, controlam as finanças de quase todas as nações do planeta. São o Banco Mundial, o FMI e os bancos centrais, como a Reserva Federal Norte Americana, que controla toda a emissão de dinheiro e a sua circulação internacional.
O banco central dos bancos centrais
A cúpula desse sistema é o Banco de Pagamentos Internacionais: o banco central dos bancos centrais.
"Um organização internacional imensamente poderosa da qual a maioria nem sequer ouviu falar controla secretamente a emissão de dinheiro do mundo inteiro. É o chamado Banco de Pagamentos Internacionais [Bank for International Settlements]. Trata-se do banco central dos bancos centrais, localizado na Basileia, Suíça, mas que possui sucursais em Hong Kong e na Cidade do México. É essencialmente um banco central do mundo não eleito, que tem completa imunidade em matéria de impostos e leis internacionais (...). Hoje, 58 bancos centrais a nível mundial pertencem ao Banco de Pagamentos Internacionais, e tem, em muito, mais poder na economia dos Estados Unidos (ou na economia de qualquer outro país) que qualquer político. A cada dois meses, os banqueiros centrais reúnem-se na Basileia para outra 'Cimeira de Economia Mundial'. Durante essas reuniões, são tomadas decisões que atingem todos os homens, mulheres e crianças do planeta, e nenhum de nós tem voz naquilo que se decide. O Banco de Pagamentos Internacionais é uma organização que foi fundada pela elite mundial, que opera em benefício da mesma, e cujo fim é ser uma das pedras angulares do vindouro sistema financeiro global unificado".
Segundo Hudes, a ferramenta principal de escravizar as nações e Governos inteiros é a dívida.
"Querem que sejamos todos escravos da dívida, querem ver todos os nossos Governos escravos da dívida, e querem que todos os nossos políticos sejam adictos das gigantes contribuições financeiras que eles canalizam nas suas campanhas. Como a elite também é dona de todos os principais meios de informação, esses meios nunca revelarão o segredo de que há algo fundamentalmente errado na maneira como funciona o nosso sistema", afirmou.

 
Tradução do Cepat.

domingo, março 16, 2014

O consumidor é agora a escumalha

O Fim da Sociedade de Consumo

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Dei-me conta outro dia que a sociedade de consumo acabou. Não sei quando foi.¹ Mas acabou com toda a certeza. E não foi a esquerda que deu cabo dela mas o neoliberalismo. Sim. É verdade.
Dentro da doutrina neoliberal não há pior do que um consumidor. Só os idiotas, os inúteis e os parasitas consomem. É o que significa o discurso do “vivemos acima dos nossos meios”. E aqueles artigos que se surpreendem quando os portugueses gastam o seu dinheiro numa Bimby ou vão muito a concertos. Comem fora, mesmo com sacrifícios.
O país reestruturado pela austeridade neoliberal não consome; produz coisas  para exportar, o que significa consumidas longe, noutro lugar, mais estúpido e esbanjador do que nós – é essa a receita que a Alemanha não se cansa de apregoar. À deslocalização do trabalho juntou-se a deslocalização do consumo. É por isso que, num país pobre, se fazem tantas merdas gurmê e de luxo. Obviamente, não são feitas para serem consumidas aqui.
Baixam-se os salários não apenas para baixar custos mas para diminuir o consumo. E os primeiros impostos que o neoliberal pensa em aumentar, os últimos que se recusa a cortar, são os que incidem sobre o consumo, como o IVA.² Em certos estados americanos ultraliberais, cortaram-se todos os impostos menos estes – não funcionou, mas isso é outra história.
Todo o esquema de pensamento neoliberal se insurge contra o consumo. E, como todos os países querem ser austeritários e neoliberais, depreende-se que, numa utopia neoliberal, o consumo seria erradicado do planeta.
Se o capitalismo clássico assentava na livre troca de mercadorias, o que implica oferta e procura, um ecossistema de produtores e consumidores, o neoliberalismo assenta na empresa. Tudo, desde o Estado até ao simples trabalhador, se torna numa empresa. Só se admite a troca se for feita  entre empresas, com o fim de produzir qualquer coisa. É como o jogo das cadeiras, onde perde o último que fica de pé: o consumidor. Assim, num planeta neoliberal a procura é inteiramente assegurada por empresas que vendem a empresas que vendem a empresas – também não funciona. E também é outra história.
E o empreendedorismo mais ridículo (veja-se Miguel Gonçalves) é melhor que o consumo mais sensato – o simples consumo de bens de primeira necessidade, se não for feito dentro de um enquadramento empresarial, é considerado imoral. Aliás, é o que define a pobreza má por oposição à virtuosa. O bom pobre é aquele que, não tendo dinheiro e consumindo o menos possível, se entrega como objecto, como matéria-prima, à boa vontade empreendedora da caridade privada. O mau pobre gasta o dinheiro que recebe do Estado em bifes, Bimbys e concertos. O Rendimento Social de Inserção e o Subsídio de Desemprego são maus porque não têm como pré-condição serem investidos em empreendedorismo mas podem simplesmente ser gastos (e isso não pode ser). É preferível, dentro da moralidade neoliberal, que um pobre se endivide para formar uma empresa do que gaste o dinheiro que descontou para simplesmente comer ou ver um filme quando deixou de ter um emprego ou se reformou.
Naturalmente, há pontos de vista diferentes: dentro do Keynesianismo, o consumo, a procura, é tão importante como a oferta. Se toda a gente e todos os países produzem mas não compram nada, acabam por não conseguir vender nada, e toda a gente fica mais pobre.
Mas a pior consequência do fim da sociedade de consumo é política. Já se sabe que a austeridade neoliberal reduz a participação democrática do cidadão comum a uma formalidade que, de quatro em quatro anos, pode mudar tudo menos a austeridade neoliberal. Mas não é disso que falo. Falo daquele velho argumento do consumo enquanto  democracia. Vocês sabem: o consumidor, ao decidir comprar o melhor produto, pode influenciar empresas, beneficiando os melhores produtos, apoiando as melhores soluções. As más empresas estão condenadas a morrer, abandonadas pelo consumidor. Privatizando serviços públicos está-se a torná-los mais democráticos, etc. Agora, se ainda acreditam nisto, telefonem para o número de atendimento do vosso fornecedor de internet e tentem cancelar o vosso serviço. Usem a palavra “urgência”.  Boa sorte. Sintam o vosso poder enquanto consumidores. O que quero dizer é que, se não há consumo, também não há democracia enquanto consumo. Ou seja, o neoliberalismo não eliminou apenas a democracia clássica mas aquilo que passava por democracia dentro do capitalismo clássico.
Enquanto o liberalismo clássico se organizava em torno da troca, o neoliberalismo organiza-se em torno da concorrência. Tudo concorre com todo. O consumidor puro, não empresarial, não tem hipótese porque não é competitivo. No liberalismo clássico, ainda havia o laissez faire; agora é a avaliação permanente, a competição eterna, em que cada acto do trabalhador só é legitimado se também for uma avaliação parametrizada. Numa universidade já não se preenche um sumário para informar os alunos do conteúdo de uma aula mas porque conta para as avaliações de desempenho. Se o consumidor não tem quase poder nenhum, a avaliação torna-se técnica, administrativa e burocrática ao extremo.
Percebendo que a sociedade de consumo morreu, percebem-se outras coisas, aparentemente sem relação. O fim da crítica por exemplo. A crítica clássica funcionava como um guia de consumo. Os críticos originais eram consumidores idealizados. Mas, o consumidor é agora a escumalha da terra, quando muito uma unidade de medida para medir os visitantes, e o crítico perdeu quase todo o seu poder.
E percebe-se que uma das possibilidades de fazer frente a este sistema, que é como quem diz “ofendê-lo”, é consumindo. Mesmo com pouco dinheiro, com um cêntimo que seja, gastando-o de um modo desprendido, ostensivo, agressivo – a comer, a viver, mas também a ir a um concerto ou a um filme. No que se entender. Poupando-o. Gastando-o. O que interessar a cada um. Se possível sem culpa. Sem ter de inventar uma desculpa empreendedora para isso. E, de preferência, chateando um neoliberal no processo. Estimulando a procura interna, se interessar um argumento económico. Mas é melhor ir a um concerto (garanto) se isso chatear o José Manuel Fernandes. Chateá-lo de um modo inteiramente não competitivo, claro.
Objectivo para 2014: recuperar modos de agressividade, de luta e de crítica, que não sejam concorrenciais ou produtivos. Crítica não-construtiva. E a melhor forma de o fazer é recuperando a crítica como guia de consumo. Um consumo que, se for feito para chatear, será político – o que não é novidade nenhuma: se para o neoliberalismo o consumo é algo a erradicar, para a esquerda ainda é algo político, ainda se acredita que se pode tomar posição boicotando o Pingo Doce, por exemplo.
1. Foucault já se tinha apercebido disso em 1979.
2. Um dos planos iniciais de Passos Coelho para resolver a crise, ainda antes de ser eleito, era aumentar o IVA.
http://ressabiator.wordpress.com/2013/12/30/o-fim-da-sociedade-de-consumo/
 

quinta-feira, março 13, 2014

Assunto: FW: Como poderia o Relvas estar fora da comissão nacional do PSD?

Assunto: FW: Como poderia o Relvas estar fora da comissão nacional do PSD?

Apenas um discreto artigo do Público mais nada..

Em Domingo, 23 de Fevereiro de 2014 11:48, Vitor Manuel Pessanha
Como poderia o Relvas não estar no conselho nacional.Vejam só:
“1. A Tecnoforma, uma empresa de que Pedro Passos Coelho foi consultor e administrador, ficou com a parte de leão, na região Centro, de um programa de formação profissional — financiado por fundos europeus (programa Foral) — destinado a funcionários das autarquias, o qual era tutelado pelo Dr. Relvas, então secretário de Estado da Administração Local do Governo Barroso/Portas.
Os números são, de facto, esmagadores: só em 2003, 82% do valor das candidaturas aprovadas a empresas privadas na região Centro, no quadro do deste programa de formação profissional, coube à Tecnoforma. E entre 2002 e 2004, 63% do número de projectos aprovados a privados pelos responsáveis desse programa pertenciam à mesma empresa.
A história regista, entre outras, uma ideia de génio da Tecnoforma: a concepção de um programa de formação no valor de 1,2 milhões de euros para funcionários de aeródromos que estavam fechados, que eram pistas perdidas ou que tinham um ou mesmo nenhum funcionário.
Miguel Relvas era então o responsável político pelo programa, na qualidade de secretário de Estado da Administração Local de Durão Barroso, Paulo Pereira Coelho era o seu gestor na região Centro, Pedro Passos Coelho era consultor da Tecnoforma, João Luís Gonçalves era sócio e administrador da empresa, António Silva era seu director comercial e vereador da Câmara de Mangualde. Em comum todos tinham o facto de terem sido destacados dirigentes da JSD e, parte deles, deputados do PSD.
2. Entretanto, o mesmo Pedro Passos Coelho criou oCentro Português para a Cooperação, uma organização não-governamental (ONG) concebida para obter financiamentos destinados a projectos de cooperação que interessassem à Tecnoforma. Entre os seus membros figuravam Marques Mendes, Ângelo Correia, Vasco Rato, Júlio Castro Caldas e outras destacadas figuras do PSD.
3. Hoje, soube-se algo mais sobre o desgraçado programa Foral, então tutelado pelo Dr. Relvas. Quando apenas uma circular teria sido suficiente para que autarquias locais ávidas de dinheiro pudessem ficar informadas dos objectivos do programa, descobre-se que houve uma campanha de comunicação, no valor de quase 450 mil euros, adjudicada em 2002 a uma empresa de publicidade detida exclusivamente por Agostinho Branquinho (a NTM), antigo deputado do PSD e actual secretário de Estado da Segurança Social. José Pedro Aguiar-Branco, agora ministro da Defesa, tornou-se presidente da assembleia geral pouco depois da adjudicação.
A história vem descrita no Público (e reproduzida aqui). Entre outras peripécias do concurso, sabe-se agora que:
• Entre as cinco concorrentes excluídas por insuficiência financeira se encontrava a subsidiária de um gigante internacional que ocupava o terceiro lugar na lista das 30 maiores empresas de publicidade do mercado português, a McCann Erickson Portugal (52 milhões de euros facturados em 2001) e a Caixa Alta então em 16º lugar no mesmo ranking da Associação Portuguesa de Agências de Publicidade e Comunicação (13,6 milhões nesse ano), com volume de vendas muito superior ao da NTM (3,7 milhões), que nem constava do mencionado ranking;

• Após a selecção prévia das propostas, restaram três concorrentes, sendo que a NTM foi a que apresentou o preço mais alto e era a que, na avaliação do júri, tinha a mais baixa capacidade técnica.
Segundo o Público apurou, este processo foi conduzido pelo então chefe de gabinete, Paulo Nunes Coelho, e por uma adjunta, Susana Viseu, do Dr. Relvas. Enquanto Paulo Nunes Coelho continua a cirandar pelos gabinetes governamentais, Susana Viseu foi nomeada administradora da Fomentinvest, precisamente a holding onde o terrível Ângelo tinha acolhido Pedro Passos Coelho.
Já tivemos dois PSD: o do cavaquismo que desaguou na foz do BPN; e o do pós-cavaquismo que apodrece placidamente
num imenso delta. Afinal, o que é o PSD?”


Recebido por e-mail.

quinta-feira, março 06, 2014

Para ler e ouvir





O GUARDADOR
DE REBANHOS  


Sou um guardador de rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.


Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto.

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.


 


DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra
se pode ver no Universo....

Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...


Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,

Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.


Pensar em Deus é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que o não conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou...


Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!...


  


Se
depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,


Não há nada mais simples

Tem só duas datas — a da minha nascença
e a da minha morte.


Entre uma e outra cousa todos os dias
são meus.




Sou fácil de definir.

Vi como um danado.

Amei as cousas sem sentimentalidade
nenhuma.


Nunca tive um desejo que não pudesse
realizar, porque nunca ceguei.


Mesmo ouvir nunca foi para mim senão
um acompanhamento de ver.


Compreendi que as cousas são reais e
todas diferentes umas das outras;


Compreendi isto com os olhos, nunca
com o pensamento.


Compreender isto com o pensamento
seria achá-las todas iguais.




Um dia deu-me o sono como a qualquer
criança.


Fechei os olhos e dormi.

Além disso, fui o único poeta da
Natureza
.







As bolas de sabão que esta criança

Se entretém a largar de uma palhinha

São translucidamente uma filosofia toda.

Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,

Amigas dos olhos como as cousas,

São aquilo que são

Com uma precisão redondinha e aérea,

E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,

Pretende que elas são mais do que parecem ser.


 


Algumas mal se vêem no ar lúcido.

São como a brisa que passa e mal toca nas flores

E que só sabemos que passa

Porque qualquer cousa se aligeira em nós

E aceita tudo mais nitidamente.


 


 


O Tejo é mais belo que o rio que
corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.


O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.


Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

terça-feira, março 04, 2014

domingo, março 02, 2014

Deputados acusados de corrupção, cobardes, não aparecem.


Carnaval de 2014.

Carnaval de 2014.
Em Portugal é carnaval todos os dias!

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Olhando para o umbigo

Enquanto a população deste maravilhoso cantinho é assaltada e vai regredir para níveis de exploração do século xix, há grupos que escolheram passar o seu tempo a discutir
Nas páginas dos jornais e nos sites das várias formações de esquerda, nomeadamente o Bloco e o Livre, encontram-se atarefados numa animada polémica. O resto da população está mergulhada na destruição do país pela política de direita, mas a nossa extrema-esquerda está concentrada numa disputa fundamental e a praticar o popular desporto de ver quem tem a pilinha maior.
Vamos aterrar no planeta Terra. Vivemos em plena revolução de direita: no fim deste processo todo o trabalho deixará de ter direitos. Toda a gente vai ser precária e mal paga. As reformas serão mais tarde e simbólicas. O Serviço Nacional de Saúde será muito pior e apenas para os indigentes. O ensino superior será um luxo para ricos. Todas as empresas públicas serão entregues, a preço de saldos, a monopólios privados, muitos deles estrangeiros. O pequeno e incipiente Estado social português, em relação aos seus congéneres europeus, não existirá. Os trabalhadores trabalharão ainda mais horas que o resto dos europeus e receberão ainda menos que eles. Daqui a um par de anos os salários reais terão sido reduzidos mais de 30%. Os pobres serão mais pobres e os ricos ainda mais ricos. Portugal reforçará a sua liderança dos países mais desiguais da Europa e do mundo. No termo deste período, os trabalhadores e os reformados terão pago milhares de milhões de euros do buraco financeiros dos grandes bancos. Ficarão por pagar, pelos seus filhos e netos, os negócios, de mais de 60 mil milhões de euros, feitos com esses mesmos grupos financeiros, como as parcerias público-privadas e os swaps. Água e energia estarão totalmente nas mãos dos privados. Aos pobres poderá ser cortado o acesso à água para beber. Terão uma vida mais curta e difícil: os mais novos terão de emigrar, os mais velhos não vão conseguir sobreviver com as suas reformas e não terão acesso a nenhum emprego. A maioria da população fará ganchos para empresas lucrativas que pagarão muito abaixo do salário mínimo. Os sindicatos perderão grande parte da sua força. Ser sindicalizado é o primeiro passo para ser despedido. E como não há trabalhadores com emprego estável, e são residuais aqueles que têm estabilidade no sector público, os sindicatos vão desaparecendo. A nossa dívida, superior a 130% do PIB, é impagável. Vamos ser esmifrados durante mais de 50 anos para a pagar e no fim ainda não estará liquidada. Teremos gerações sacrificadas. Os actuais governantes e os próximos, que se propõem cumprir as políticas neoliberais da troika, terão empregos garantidos nos grandes grupos económicos e financeiros, como tiveram os anteriores ministros da Economia, das Finanças e das Obras Públicas.
Este é o cenário que está à vista. À esquerda, contra a política da troika, exige-se que resista, mas sobretudo que a derrote.
Parafraseando um político britânico, "quando o país esperava que a extrema-esquerda crescesse, ela engordou".
Precisamos de acções que dêem poder às pessoas e que recusem guerras sectárias e unam na acção todos aqueles que se opõem à política de austeridade sobre a população e de enriquecimento dos muito ricos. É preciso criar alternativas a este desastre. Visivelmente elas passam por uma democracia em que o poder está nos cidadãos e não nos poderosos, mas também por uma prática partidária que consiga ver para além dos umbigos dos dirigentes da extrema-esquerda.

Por Nuno Ramos de Almeida
publicado em 18 Fev 2014 

terça-feira, fevereiro 18, 2014

Miró para colorir



COISAS QUE AS TV(S) NÃO CONTAM

A Colecção Miró, um lote de 85 obras, composto por óleos, guaches e desenhos, foi adquirido pelo Banco Português de Negócios (BPN), gerido por José Oliveira Costa, a um coleccionador japonês em 2006.
Em 2007 a leiloeira Christie's avaliou a colecção em 81,2 milhões de euros e, algum tempo depois, a mesma leiloeira avaliou-a em 150 milhões.
Estas avaliações foram... feitas quando a colecção pertencia ao BPN, enquanto banco privado.
Em Novembro de 2008, o BPN foi "nacionalizado" -apenas o lixo tóxico- e, depois de todas as aventuras e desventuras que decorreram da sua nacionalização, a Parvalorem -veículo estatal criado para gerir os activos tóxicos do BPN- através da sua administração, tornou a venda da Colecção Miró, uma das suas principais prioridades tendo, no final de 2013, "fechado" o negócio com a Christie's.
A Parvalorem não cumpriu os prazos legais estabelecidos na Lei de Bases do Património Cultural para pedir a devida autorização para a saída das peças para o estrangeiro e, embora com o parecer negativo da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), a 21 de Janeiro de 2014, as obras já estavam expostas na leiloeira Christie’s, em Londres.
Agora vem a notícia mais interessante

:

Enquanto a Colecção Miró foi propriedade privada, foi avaliada pela Christie's por valores que ultrapassaram os 150 milhões de euros; agora que a mesma colecção é propriedade do Estado Português, a mesma leiloeira avaliou-a em apenas 36 milhões.
Para a palhaçada ser mais engraçada posso acrescentar que as condições da Christie's são estas: a licitação da venda da obra é de 36 milhões, sendo esta a importância a entregar ao Estado Português; tudo o que ultrapassar esse valor será propriedade da leiloeira.
Perceberam a jogada?
Uma providência cautelar "barrou" a concretização do negócio que, além de ilegal é um crime de lesa-pátria; entretanto, a Christie's já fez saber que continua interessada no negócio. Claro... tenho a certeza que sim...
Alguém tem dúvidas sobre a "transparência" destas negociatas?
Alguém, ainda, duvida de que esta gente, está UNICAMENTE ao serviço do capital explorador nem que tenhamos que ficar sem pele?

(via email)

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

O médico de boa-fé

O MÉDICO DE BOA-FÉ
Como o outro que curava de um espinho certo cavaleiro, e tinha-lhe metido em cabeça que era postema. Ausentou-se um dia e deixou um seu filho instruído, que continuasse com os emplastos do espinho, a que chamavam postema. Mas o filho na primeira cura, para se mostrar mais dextro, arrancou o espinho: cessaram as dores, e sarau o doente em menos de vinte e quatro horas. Veio o pai: pediu-lhe o filho alvissaras, que sarara o doente só com tirar o espinho. Respondeu-lhe o pai:
 - Pois daí comerás, pura besta. Não vias tu, selvagem, que enquanto se queixava das dores continuavam as visitas e se acrescentavam as pagas? Secaste o leite à cabra que ordenhávamos.
(Alexandre de Gusmão, Arte de Furtar)

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Cuidados e caldos de galinha




Algo a nível mundial que estará prestes a acontecer?
Ou são só coincidências?
O artigo do link ( http://www.infowars.com/jp-morgan-executive-becomes-5th-banker-to-die-in-last-2-weeks/ ) parece indicar que algo, nada de bom, estará para acontecer a nível mundial, que a todos nos irá afectar.
Cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a alguém que os tenha tomado.

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Obrigado por partilhar


“Nueve cuestiones que deberías plantearte ante una noticia para que no te manipulen” es un resumen de una parte del libro de Pascual Serrano, Desinformación, cómo los medios ocultan el mundo. Es a él a quien hay que agradecerle los consejos y pautas a seguir ante el incumplimiento de la obligación del Estado de garantizarnos una información plural y veraz (en este sentido consultad artículo 20 de la Constitución). Se trata de analizar los mecanismos desinformativos que puedan estar presentes en las noticias de los medios de comunicación convencionales (y yo añadiría también a los medios alternativos de contrainformación…), con el objetivo de evitar ser manipulados por los mismos. Ahí van las cuestiones (tomad buena nota…y si se os ocurre alguna más, no os cortéis y compartidlas…) :
- Conocer quién es la propiedad de un medio de comunicación (empresa privada, estatal, ONG…) es básico para intuir por dónde va a ir la línea editorial. Si se trata de una entidad privada, lo más habitual es que opere en otros sectores económicos. Pero cuidado…no sólo hay que saber la composición del accionariado del medio en cuestión…tb interesa echar un ojo a las empresas e instituciones que compran publicidad en el mismo. Si comprobamos que los principales anunciantes de un periódico son Telefónica y BBVA (por ejemplo), con fuertes intereses económicos en América Latina, tendremos que mirar con cuidado (desconfiando incluso) la información que aparezca sobre dicha región.
- Si la información es promovida por alguna parte interesada (ejemplo : encuestas, informes universitarios, estudios de expertos…difundidos por algún gobierno por razones de política internacional) o es generada por el propio medio.
- Si la noticia tiene la importancia que le dan (para ello compararemos con acontecimientos similares en otros países o con otros sucesos recientes del mismo lugar). Un ejemplo ilustrativo lo da Pascual Serrano al recordar cómo en octubre de 2008 abrían un noticiario de TV con la fuga de un secuestrado en poder de la guerrilla colombiana, mientras que el día anterior no se había informado de la muerte de varios manifestantes a manos del ejército.
- Identificar fuentes y analistas…el uso de fuentes indefinidas es ya demasiado habitual (la típica expresión “según diversos expertos”, p.e, que camufla sutilmente opiniones editoriales). También nos fijaremos en si nos intentan hacer pasar una postura como si fuese mayoritaria entre la ciudadanía de un país.
- Si la información se presenta como hecho constatado o como versión de una parte. Si informan que el ejército estadounidense ha matado a 40 talibanes, habría que confirmar por otras fuentes (de haberlas) si eran efectivamente guerrilleros islámicos y no civiles.
- Si se han recogido todas las diferentes posiciones respecto a la noticia o si todas las reacciones coinciden en la valoración de la misma (lo cual olería muy mal…en este caso buscaríamos en internet otras interpretaciones de diferentes actores…).
- Si estamos ante un mensaje audiovisual habría que ver posibles dramatizaciones (representaciones teatrales con imágenes, sonido, o ambos) de algo que supuestamente ha sucedido (ejemplo típico es el de la dramatización de una violación de una mujer en un ascensor, en casos judiciales donde la culpabilidad del acusado está pendiente de demostrarse…).
- Comprobar si las emociones ante las imágenes o sonidos son racionales (ejemplo : una entrevista a la madre de un militar muerto en Irak podría provocar una falta de empatía con el pueblo iraquí, cuya población civil ha sufrido muchísimas más bajas que los soldados estadounidenses).
- Intentar preguntarnos si conocemos todos los elementos que rodean la noticia y qué no nos han contado (ejemplo : en una huelga de transporte donde únicamente nos cuelan imágenes de usuari@s indignados, deberíamos conocer tb las reivindicaciones de l@s huelguistas).

sábado, fevereiro 08, 2014

Conto actual


O LOBO E O CORDEIRO

Conta-se que o lobo bebia uma vez em um ribeiro, da parte de cima, e o cordeiro bebia em aquele mesmo ribeiro, da parte do fundo. Disse o lobo ao cordeiro:

- Porque me luchas a água e danas este ribeiro?

E o cordeiro respondeu e disse humildosamente:

- Eu não te faço injúria, nem lucho o rio, porque a água corre contra mim, e água é muito clara; e pero se a quisesse abolver, não poderia.

Outra vez o lobo brada forte e diz:

- Não te avonda que tu me fazes injúria e dano, e ainda me ameaças?

E o cordeiro outra vez humildosamente responde:

- Não te ameaço, mais eu me escuso com boa razão.

E o lobo respondeu outra vez:

- Ainda me ameaças? Já semelhante injúria me fizeste tu e o teu padre, já são mais de seis meses.

O cordeiro disse:

- Ó ladrão, eu não hei tanto tempo!

E o lobo iroso disse:

- Ó mau rapaz, ainda ousas de falar?

E foi-se a ele e matou-o e comeu-o

 

(Fabulário Português)

Chove no Escoural, chove no mundo inteiro


O vento esteve horas e horas a puxar a chuva e ela volta a cair lentamente, teimosamente húmida e fria, de céu forrado até aos quatro cantos, desabando ritmada do lado dela, empoçando água no alto do Cabeço. Uma friagem roe os ossos e torna a lenta chuva em muita água, tanta que não há grão de areia seco até ao quinto inferno. Chove há muito no monte do Cabeço e em redor dele. Chove no mundo todo quando o céu e a terra se fundem em água.