«Sabes o que me lembra este céu? Mais ou menos: a guerra dos astros. Tal e qual. A guerra dos mundos. Um sol maléfico, que tenta destruir a maquete, e sete planetas menores que tentam defendê-la.» [Finisterra, Carlos de Oliveira]
domingo, julho 27, 2014
terça-feira, julho 08, 2014
Tanta é a fartura que já não apetece comer.
Tanta é a fartura que já não apetece comer.
Depois do enxameamento das associações e colectividades de
ranchos e grupos folclóricos, temos o último fenómeno de materialização de fadistas,
a torto e a direito.
Terminada a época das noites de fados, eis que os festivais
de folclore aparecem em força, passada que foi a época das marchas dos santos populares.
Até do desfile de Carnaval mais famoso do mundo, que é o do Rio, já me
informaram que teve influência das marchas de Lisboa. Imaginem as coisas que eu
ouço! Isto para não falar dos fins-de-semana gastronómicos, vinhos e petiscos,
onde um qualquer vereador municipal da cultura, além de munido do discurso
chapa cinco, deve também estar municiado, geneticamente, de um bom gancho de
fígado e sucos estomacais de reserva.
Cultura a quanto obrigas neste tempo de espelhos, onde o
buraco do BES não tem reflexo possível, logo não existe.
OS FACILITADORES (ler os outros)
OS FACILITADORES

OS FACILITADORES

http://www.leituras.eu/out.php?u=http%3A%2F%2Fcadernosdalibania.blogspot.pt%2F2014%2F01%2Fos-facilitadores.htmlO título, só por si, já era assustador: "Goldman Sachs aposta em Portugal". E a entrevista em que António Esteves, apresentado como ex-desportista de elite e actual partner do banco, revelava ao Expresso da semana passada os planos que eles têm para Portugal era de deixar em estado de alerta quem quer que conheça a história desse grande predador global que é a Goldman Sachs. Quase se pode dizer que o que é bom para a Goldman Sachs é fatalmente mau para os países onde eles fazem negócios, para os seus consumidores e contribuintes. Pois que, como diz António Esteves, "a Goldman é um banco muito direccionado para a performance". Isto é, não está especialmente interessado em financiar a economia dos países onde se instala, mas em realizar o máximo de lucros no mínimo de tempo. Que o digam os gregos ou os americanos, que o diga a Comissão Europeia que acaba de a multar por manipulação das taxas Euribor, em cartel com outros tubarões da banca internacional, que o diga a história desta crise mundial, onde a Goldman Sachs desempenhou um papel à altura dos seus pergaminhos. Agora que 250.OOO portugueses pagaram com o desemprego e outros tantos com a emigração as políticas devastadoras impostas pelo resgate a que fomos obrigados em consequência da crise exportada a partir dos EUA para o mundo inteiro e causada pela ganância criminosa de bancos como a Goldman Sachs; agora que o resgate estilhaçou a legislação laboral, tornando qualquer novo emprego um trabalho precário e fazendo recuar dez anos o nível das remunerações salariais; agora que o Governo português, fiel executante do que chamam o "processo de ajustamento da economia portuguesa", vende tudo o que é empresa estatal lucrativa, sem qualquer salvaguarda do interesse público; agora que as grandes empresas privadas, outrora chamadas "campeões nacionais", ou se expatriaram ou foram descapitalizadas por taxas de juro bancárias insustentáveis, praticadas pelas Goldman Sachs deste capitalismo de rapina; agora que, enfim, Portugal se tornou barato, vulnerável e indefeso, António Esteves, como grande quadro bancário que é, repara que aqui "há oportunidades muito interessantes para os investidores que estão à procura de activos que lhes dêem mais retorno vis-à-vis com o resto da Europa". Foi isso que eles já fizeram, tornando-se o maior accionista privado dos CTT, na recente privatização levada a cabo pelo Governo. E isso é apenas o princípio, pois, como ele diz, "olhamos com muitos bons olhos para Portugal".Não contribui muito para me sossegar a notícia da contratação de José Luís Arnaut pela Goldman Sachs — naquilo que suponho ser a primeira consequência prática da nova política do banco para Portugal, definida por António Esteves como assentando no "investimento em pessoas e talento". Desconhecendo eu qualquer talento ou experiência bancária de Arnaut, resta o seu talento — esse, sim, por todos reconhecido — no capítulo "pessoas". Tal como Miguel Relvas, outro notável talento em "pessoas", o novo "conselheiro" da Goldman Sachs, José Luís Arnaut, tem a capacidade de chegar às pessoas que interessam, utilizando um inestimável património, trabalhado com mestria anos a fio, e que no ramo se chama "lista de contactos" — dos que atendem o telefone. Trata-se de uma próspera actividade em qualquer lugar do mundo, mas sobretudo em países como Portugal, onde tudo pode ser vendido, concessionado, facilitado, negociado, e onde a intimidade com o poder é a chave dos grandes negócios. Estes profissionais são bem designados pela deliciosa expressão que um amigo de Relvas encontrou para caracterizar a sua actual actividade: "um facilitador de negócios". O "facilitador de negócios", às vezes também designado por outras expressões mais cruas ou menos elegantes, é alguém que tem a capacidade de fazer poupar tempo e desembrulhar dossiês complicados, encontrando sempre um vendedor para um comprador, um decisor para um interessado. José Luís Arnaut é, neste aspecto, um ás de trunfo para a Goldman Sachs: basta dizer que não houve privatização feita por este Governo em que ele não tenha estado presente, representado ou os "investidores" face ao Estado ou o Estado face aos "investidores" — o que diz muito sobre a sua capacidade de acrobacia negocial e ausência de estados de alma nocivos e deslocados. Não pensem que é fácil ou que qualquer um pode chegar a um tão elevado estatuto na distinta profissão de facilitador de negócios. Não é essencial ter estado na política, mas é indispensável dormir com a política, sem olhar a camas. Embora a filiação num grande escritório de advocacia de tráfico de influências seja importante como porta de entrada, há outras formas de lá chegar que não requerem sequer qualquer habilitação académica ou título profissional, como Relvas bem ilustra: uma agenda de contactos irrepreensível vale mais do que qualquer PhD ou o nome no papel timbrado de uma sociedade de advogados. É ainda necessário que essa agenda não se limite a conter o nome de políticos de um governo, pois que os governos vão mudando, enquanto que o essencial dos contactos deve permanecer na agenda: "jotinhas" do "arco da governação", líderes emergentes da oposição, alguns autarcas de concelhos atractivos, académicos e técnicos tantas vezes necessários para dar credibilidade às pretensões, professores de direito para venderem pareceres, jornalistas para colocarem notícias ou opiniões a troco de um pagamento adequado. E é necessário também evitar que se aposte tudo apenas num nome em cada momento, para não acontecer o que aconteceu a Relvas, quando o seu grande contacto brasileiro, José Dirceu, acabou em desgraça atrás das grades. É um trabalho de filigrana, que exige inteligência, tacto, cautela e capacidade de observação, muitos pequenos-almoços, muito salão, muita gravata Hermès. No fim de tudo isto, garantidos "os talentos e as pessoas" certas, a Goldman Sachs pode dizer, pela boca do seu partner António Esteves: "Portugal é um risco de que gostamos". Compreende-se o gosto, não se percebe é o risco.
Quando questionado sobre a sua omnipresença em todos os processos de privatizações, José Luís Arnaut defende-se atacando o miserabilismo dos críticos e louvando-se de ter ajudado a trazer para Portugal milhares de milhões de "investimento externo". É um ponto de vista de quem acha que toda venda de bens públicos ao exterior é um investimento e bem-vindo. Mas, na mesma edição do Expresso da semana passada, um painel de economistas, professores e gestores defende exactamente o contrário, criticando o que se privatizou e a forma como foi feito, chamando a atenção para a perda de poder de decisão alienado ao estrangeiro, para a perda de dividendos para o Estado e para a perda de lugares qualificados para portugueses nas empresas vendidas. Não é inocentemente que os programas da troika para Portugal, Grécia e Irlanda insistiam tanto nas privatizações, E não foi por capricho que mesmo o governo de direita de Rajoy tudo fez para evitar a receita da troika em Espanha.
Quando acontecer o 1640 de Paulo Portas, marcado para 17 de Maio, só por inconsciência ou por conveniência se poderá dizer que recuperámos parte da nossa soberania. Apesar das privatizações (justificadas para a diminuir), a dívida pública terá aumentado, mas, por via delas, Portugal terá alienado quase tudo o que, no sector económico, público ou privado, caracteriza um país soberano. A produção de electricidade foi vendida a uma empresa estatal chinesa, a distribuição dada em monopólio a chineses e árabes, parte substancial da banca e dos combustíveis vendidos a angolanos, os cimentos e as telecomunicações aos brasileiros, os aeroportos aos franceses, a única companhia aérea prestes a ser vendida a quem mais der, os correios aos americanos da Goldman Sachs ou clientes seus, um terço do mercado de seguros também aos chineses e o próprio fornecimento de água, o mais essencial de qualquer bem público, pronto a ser concessionado a quem os "facilitadores de negócios" determinarem. Se isto vai ser um país soberano, eu prefiro que voltem os Filipes. EXPRESSO 18/JAN/2014
segunda-feira, junho 16, 2014
quarta-feira, junho 04, 2014
Uma excelente notícia!
A crise no PS – uma excelente notícia!
Por António-Pedro Vasconcelos
A crise do país, como a da Europa, é a crise de lideranças, a submissão de 27 Estados aos ditames da senhora Merkel.
Esta anémica vitória do Partido Socialista era um fracasso anunciado, assim como era de prever as reacções de alguns militantes e notáveis do partido ao “avanço”de António Costa: os titubeantes, apanhados de surpresa e que preferem esperar para ver, os que se precipitaram e agora têm de se esconder para ter tempo de mudar de fato, os ex-críticos, mas que, “pelo seguro”, decidiram apoiar o secretário-geral a troco de uma sinecura no Parlamento Europeu.
Desde a grande manifestação popular de 15 de Setembro de 2012, sobretudo desde a demissão de Gaspar, a cambalhota de Portas e a tentativa patética de Cavaco para mostrar que estava vivo, qualquer líder do PS teria levado o país para eleições antecipadas e ganho com maioria absoluta. Desde então até agora, o descontentamento aumentou, pelos atentados diários aos direitos dos cidadãos, pelas mentiras do Governo, pela vil abdicação da nossa soberania, pelo caminho aberto para o abismo. Seguro assistiu a tudo, paralisado e impotente, fazendo os serviços mínimos: umas proclamações semanais no Parlamento, umas declarações avulsas garantindo vagamente que o país não aguentava mais austeridade. Quando era preciso aparecer, escondeu-se. No caso dos Estaleiros, na privatização dos CTT, em todos os casos em que a soberania do país e os direitos das pessoas estavam em causa, deixou esse papel ao PCP, ao BE, à CGTP e a cidadãos que, em desespero, multiplicavam as petições nas redes sociais.
Pretender que foi uma vitória eleitoral, quando cativou apenas 10% do descontentamento dos portugueses (menos do que o número de desempregados!), exigir eleições antecipadas, quando, pelas mesmas razões, devia ser o primeiro a exigi-las no seu partido, pretender que este resultado é a projecção antecipada do que serão as legislativas, sem explicar com quem se iria associar no governo para resolver o imbróglio de não ter conseguido uma maioria, é um prenúncio do desastre que seria se, a exemplo de Hollande, este jovem inexperiente e incapaz de decidir alguma vez chegasse a S. Bento. A defesa disfarçada que a coligação fez da “sua vitória” na noite das eleições devia bastar para nos elucidar.
O país vive a maior crise da sua História, depois da que antecedeu a proclamação do Mestre de Aviz, de Alcácer Quibir, de meio século de ditadura, porque aceitou por descuido que lhe roubassem a soberania, e que uma geração de políticos de aviário e um presidente mumificado lhe viessem dizer que não havia alternativa, que a culpa foi dos outros e que tínhamos de nos resignar à miséria e à escravidão. A crise do país, como a da Europa, é a crise de lideranças, a submissão de 27 Estados aos ditames da senhora Merkel, o que provoca um crescente nacionalismo isolacionista e antidemocrático na sua versão mais assustadora.
António Costa é alguém que já provou ser capaz de gerar consensos sem abdicar dos princípios. No estado em que está o país e a UE, é um acto de coragem e de patriotismo ter desafiado a liderança do PS. Mas a sua vitória pode também abrir caminho a que, no PSD e no CDS, possa emergir um idêntico apelo de fundo dos militantes que guardam um resto de dignidade e um assomo de patriotismo, para que mudem as lideranças e as orientações dos seus partidos.
Somos um pequeno país no concerto das nações europeias, que, em 1992, se deixaram enredar na teia de uma globalização sem freio e sem regras, na miragem de uma Europa federal alargada, em nome de uma paz duradoura e da mirífica coesão solidária dos Estados. Passos Coelho e a sua ministra das Finanças, com a cumplicidade de Portas, de Cavaco e de 108 deputados, quiseram fazer-nos crer que a destruição do Estado social e a venda do património eram a factura inevitável que a Europa nos cobrava por ter financiado a nossa integração, e o castigo da nossa apregoada nonchalance. Mas somos também o mais velho país da Europa, que deu provas de saber conviver com outros povos e outras culturas sem abdicar de prezar a sua independência.
Não é fácil governar um país, nesta Europa que se desfaz aos bocados, aprisionada pela lógica predadora do capitalismo global e pela gestão burocrática dos seus alegados interesses. Mas há que tentar. O gesto de António Costa é uma promessa arriscada: para ele e para nós. Porque a esperança gasta-se a cada nova decepção. Mas há que confiar que é possível mudar de política e, sobretudo, de atitude. Há que estabelecer os limites do tolerável, que encontrar alternativas à austeridade, que tomar medidas que devolvam a esperança no Estado, a confiança na Justiça e na solidariedade entre gerações. Sobretudo, há que falar verdade e repor a credibilidade na política e a confiança nos nossos representantes. Como disse Giraudoux: “A Pátria está em perigo, mas, se calhar, esse perigo é o que nos resta da Pátria.”
Foi penoso ver Ana Gomes, na SIC, defender a continuidade do “líder”, contra as evidências que João Galamba lhe pôs à frente, ela que tem boas razões de queixa de Seguro, que abandonou o heróico presidente da Câmara de Viana à sua sorte, enquanto sozinha processava o ministro pelo obscuro processo que conduziu à entrega dos Estaleiros à Martifer. Foi doloroso ouvir João Soares dizer o que disse do seu camarada António Costa, sem se precaver contra inevitáveis interpretações freudianas das suas declarações. Os outros, Francisco Assis, Alberto Costa, Álvaro Beleza e alguns anónimos limitaram-se a confirmar o seu triste voto de fidelidade ao “líder” em exercício e a agarrar-se aos estatutos, como a uma bóia de sobrevivência.
Quanto às tristes peripécias estamos conversados. Seguro é um “líder” a prazo, um patético sobrevivente, um homem que passou a viver, desde segunda-feira, barricado no Rato, assombrado pela sua própria sombra. Vamos à substância.Desde a grande manifestação popular de 15 de Setembro de 2012, sobretudo desde a demissão de Gaspar, a cambalhota de Portas e a tentativa patética de Cavaco para mostrar que estava vivo, qualquer líder do PS teria levado o país para eleições antecipadas e ganho com maioria absoluta. Desde então até agora, o descontentamento aumentou, pelos atentados diários aos direitos dos cidadãos, pelas mentiras do Governo, pela vil abdicação da nossa soberania, pelo caminho aberto para o abismo. Seguro assistiu a tudo, paralisado e impotente, fazendo os serviços mínimos: umas proclamações semanais no Parlamento, umas declarações avulsas garantindo vagamente que o país não aguentava mais austeridade. Quando era preciso aparecer, escondeu-se. No caso dos Estaleiros, na privatização dos CTT, em todos os casos em que a soberania do país e os direitos das pessoas estavam em causa, deixou esse papel ao PCP, ao BE, à CGTP e a cidadãos que, em desespero, multiplicavam as petições nas redes sociais.
Pretender que foi uma vitória eleitoral, quando cativou apenas 10% do descontentamento dos portugueses (menos do que o número de desempregados!), exigir eleições antecipadas, quando, pelas mesmas razões, devia ser o primeiro a exigi-las no seu partido, pretender que este resultado é a projecção antecipada do que serão as legislativas, sem explicar com quem se iria associar no governo para resolver o imbróglio de não ter conseguido uma maioria, é um prenúncio do desastre que seria se, a exemplo de Hollande, este jovem inexperiente e incapaz de decidir alguma vez chegasse a S. Bento. A defesa disfarçada que a coligação fez da “sua vitória” na noite das eleições devia bastar para nos elucidar.
O país vive a maior crise da sua História, depois da que antecedeu a proclamação do Mestre de Aviz, de Alcácer Quibir, de meio século de ditadura, porque aceitou por descuido que lhe roubassem a soberania, e que uma geração de políticos de aviário e um presidente mumificado lhe viessem dizer que não havia alternativa, que a culpa foi dos outros e que tínhamos de nos resignar à miséria e à escravidão. A crise do país, como a da Europa, é a crise de lideranças, a submissão de 27 Estados aos ditames da senhora Merkel, o que provoca um crescente nacionalismo isolacionista e antidemocrático na sua versão mais assustadora.
António Costa é alguém que já provou ser capaz de gerar consensos sem abdicar dos princípios. No estado em que está o país e a UE, é um acto de coragem e de patriotismo ter desafiado a liderança do PS. Mas a sua vitória pode também abrir caminho a que, no PSD e no CDS, possa emergir um idêntico apelo de fundo dos militantes que guardam um resto de dignidade e um assomo de patriotismo, para que mudem as lideranças e as orientações dos seus partidos.
Somos um pequeno país no concerto das nações europeias, que, em 1992, se deixaram enredar na teia de uma globalização sem freio e sem regras, na miragem de uma Europa federal alargada, em nome de uma paz duradoura e da mirífica coesão solidária dos Estados. Passos Coelho e a sua ministra das Finanças, com a cumplicidade de Portas, de Cavaco e de 108 deputados, quiseram fazer-nos crer que a destruição do Estado social e a venda do património eram a factura inevitável que a Europa nos cobrava por ter financiado a nossa integração, e o castigo da nossa apregoada nonchalance. Mas somos também o mais velho país da Europa, que deu provas de saber conviver com outros povos e outras culturas sem abdicar de prezar a sua independência.
Não é fácil governar um país, nesta Europa que se desfaz aos bocados, aprisionada pela lógica predadora do capitalismo global e pela gestão burocrática dos seus alegados interesses. Mas há que tentar. O gesto de António Costa é uma promessa arriscada: para ele e para nós. Porque a esperança gasta-se a cada nova decepção. Mas há que confiar que é possível mudar de política e, sobretudo, de atitude. Há que estabelecer os limites do tolerável, que encontrar alternativas à austeridade, que tomar medidas que devolvam a esperança no Estado, a confiança na Justiça e na solidariedade entre gerações. Sobretudo, há que falar verdade e repor a credibilidade na política e a confiança nos nossos representantes. Como disse Giraudoux: “A Pátria está em perigo, mas, se calhar, esse perigo é o que nos resta da Pátria.”
segunda-feira, maio 26, 2014
Lavandaria
Hoje cheguei ao local do trabalho como se não percorrido o habitual
trajecto casa-trabalho. Não me lembro de ter percorrido tal caminho. O piloto
automático funcionou.
Arrefeceu um pouco esta primavera. O céu de tom cinzento plúmbeo
diz que vai chover. A sirene da fábrica arrebita os braços e as mente para os
ruídos e sons do trabalho que começam a afinar e a executar a ritmada sinfonia do
laboro.
Recordo ter vindo a ouvir a música de J. S. Bach, ritmos
usados antes dos actuais marcados pela máquina e lembro que revisitei o armário
das memórias, servi-me do olvidar do trajecto como limpeza de memórias de passados
e pessoas inseguras que me trazem as tais, de muitos que tenho ouvido, energias
negativas. Lentamente as empurro borda fora e, à mediada que o seu espaço por
elas ocupado no armário diminui, melhor me sinto.
Não sendo dos meus interesses, não poderão fazer companhia
de estrada. Além de me roubar essa tal energia, colam-me uma sensação de ressentimentos
de ordens várias e estranhas, ou mesmo uns resquícios de culpa. Lentamente tudo
para fora do armário das memórias e não me levem nas memórias. Eu sigo o meu
caminho.
Vai começar a chover, não tarda nada.
quinta-feira, maio 15, 2014
Os novos e os velhos maoístas
Os novos e os velhos maoístas
Eu ainda sou do tempo em que havia em Portugal um partido irmão do Partido Comunista da China, era o nosso PCP-ml o partido que os chineses reconheciam como o partido da vanguarda da classe operária portuguesa. Era uma das várias organizações ML que deram ao país uma boa parte dos seus actuais políticos. Curiosamente, o seu líder era um tal Eduíno Vilar que durante anos deixou de ser visto, para ressuscitar num congresso do PSD ocorrido no Coliseu dos Recreios em Lisboa, onde deu nas vistas por causa de um qualquer incidente. Não sei se faz parte da imensa comitiva medieval que serviu de corte aos nossos monarcas da Quinta da Conchas, mas era da mais elementar justiça ter sido convidado.
E quando o Eduíno Vilar era o tuga que representava o puro comunismo maoísta o metalúrgico Jerónimo de Sousa era o modelo de comunista na versão soviética, nesse tempo ao mesmo tempo que a URRS trocava tiros na fronteira com a República Popular da China e o Vietname pró-soviético expulsava os khmers vermelhos pró-chineses do Cambodja por cá o Eduíno seguia a linguagem do MRPP de Durão Barroso e chamava social-fascista ao Jerónimo e este respondia designando os ML por pequena burguesia radical. Era o tempo em que a camarada Zita Seabra, o modelo de mulher comunista, peluda e a cheirar a cavalo, liderava um MJT, uma espécie de milícia do PCP, numa batalha épica com o MRPP que destruiu a biblioteca do ISE.
Por vezes o destino é mesmo irónico e a orgulhosa direita portuguesa vai hoje a Pequim passar a mão no pêlo dos perigosos comunistas nascidos na revolução cultural chinesa e moldados na repressão mortífera dos manifestantes da Praça da Paz Celestial. Mas isso aconteceu muito antes das primavera árabes ou das manifestações de Kiev e agora os comunistas chineses são bem-vindos, eles e o seu dinheiros conseguindo à custa de dumping social e de um dos sistemas mais repressivos do planeta.
A admiração da direita pelos chineses é tanta que até o Eduardo Catroga decidiu prolongar a sua dedicação ao país, depois de ter trabalhado a título gratuito na produção do memorando com a troika decidiu perder dinheiro ao prescindir das suas pensões para ganhar muito menos na EDP. Por este andar ainda terá lugar reservado no próximo congresso do PC chinês, como representante da zona económica da Praça Marquês de Pomba, onde se situa a sede maior empresa chinesa da Europa.
Um dia destes ainda vamos ver Eduíno Vilar, Jerónimo de Sousa, Durão Barroso concluírem que aquilo que os une aos chineses é muito mais do que os que os divide em Portugal e superarem as suas divergências políticas. Enfim, não é nada que já não aconteça em muitas autarquias, para não referir o silêncio do PCP em torno do negócio da EDP ou de qualquer interesse chinês no capitalismo português. O amor aos chineses, o ódio ao PS, o desprezo pelo Dalai Lama, os projectos comuns nas autarquias, os jeitos parlamentares no derrube de governos não maoístas são mais razões mais do que suficientes para que um dia destes as correntes portuguesas se fundam num mesmo projecto político.
Da forma mais inesperada Portugal é governado por maoístas e o sucesso do maoísmo por estas bandas é tão grande que até conseguimos colocar um maoísta à frente da Comissão Europeia. Temos a direita com mais maoistas, temos os maoístas melhor colocados na política internacional à escala mundial, temos o maior partido comunista pró-chinês da Europa e talvez mesmo do mundo ocidental. Só falta mesmo sugerir a união de todos os pró-chineses no mesmo partido e a geminação de Portugal com a República Popular da China.
http://jumento.blogspot.pt/2014/05/os-novos-e-os-velhos-maoistas.html?fb_action_ids=637081843042195&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=%5B725769147462565%5D&action_type_map=%5B%22og.likes%22%5D&action_ref_map=%5B%5D
terça-feira, maio 13, 2014
Uma questão cultural
A mensagem ideológica que mais tem passado nas reportagens
televisivas destes últimos dias de Maio tem sido a valorização e resignação da
pobreza.
Eu partilho da ideologia cultural na abertura das pessoas e
dos povos contra a pobreza individual e colectiva.
segunda-feira, maio 12, 2014
Ajudas a Portugal e Grécia foram resgates aos bancos alemães
Por Isabel Arriaga e Cunha (Bruxelas)
É incorrecta a narrativa que os alemães contaram a si próprios de que a crise do euro teve a ver com o Sul a querer levar o dinheiro deles, diz ex-conselheiro de Durão Barroso.
Philippe Legrain, foi conselheiro económico independente de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, entre Fevereiro de 2011 e Fevereiro deste ano, o que lhe permitiu acompanhar por dentro o essencial da gestão da crise do euro. A sua opinião, muito crítica, do que foi feito pelos líderes do euro, está expressa no livro que acabou de publicar “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”.
A tese do seu livro é que a gestão da crise da dívida, ou crise do euro, foi totalmente inepta, errada e irresponsável, e que todas as consequências económicas e sociais poderiam ter sido evitadas. Porque é que as coisas se passaram assim? O que é que aconteceu?
Uma grande parte da explicação é que o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro. Foi por isso que, quando a crise financeira rebentou, foram todos a correr salvar os bancos, com consequências muito severas para as finanças públicas e sem resolver os problemas do sector bancário. O problema tornou-se europeu quando surgiram os problemas da dívida pública da Grécia. O que teria sido sensato fazer na altura – e que era dito em privado por muita gente no FMI e que este acabou por dizer publicamente no ano passado – era uma reestruturação da dívida grega. Como o Tratado da União Europeia (UE) tem uma regra de “no bailout” [proibição de assunção da dívida dos países do euro pelos parceiros] – que é a base sobre a qual o euro foi criado e que deveria ter sido respeitada – o problema da Grécia deveria ter sido resolvido pelo FMI, que teria colocado o país em incumprimento, (default), reestruturado a dívida e emprestado dinheiro para poder entrar nos carris. É o que se faz com qualquer país em qualquer sítio. Mas não foi o que foi feito, em parte em resultado de arrogância – e um discurso do tipo ‘somos a Europa, somos diferentes, não queremos o FMI a interferir nos nossos assuntos’ – mas sobretudo por causa do poder político dos bancos franceses e alemães. É preciso lembrar que na altura havia três franceses na liderança do Banco Central Europeu (BCE) – Jean-Claude Trichet – do FMI – Dominique Strauss-Kahn – e de França – Nicolas Sarkozy. Estes três franceses quiseram limitar as perdas dos bancos franceses. E Angela Merkel, que estava inicialmente muito relutante em quebrar a regra do “no bailout”, acabou por se deixar convencer por causa do lobby dos bancos alemães e da persuasão dos três franceses. Foi isto que provocou a crise do euro.
Como assim?Uma grande parte da explicação é que o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro. Foi por isso que, quando a crise financeira rebentou, foram todos a correr salvar os bancos, com consequências muito severas para as finanças públicas e sem resolver os problemas do sector bancário. O problema tornou-se europeu quando surgiram os problemas da dívida pública da Grécia. O que teria sido sensato fazer na altura – e que era dito em privado por muita gente no FMI e que este acabou por dizer publicamente no ano passado – era uma reestruturação da dívida grega. Como o Tratado da União Europeia (UE) tem uma regra de “no bailout” [proibição de assunção da dívida dos países do euro pelos parceiros] – que é a base sobre a qual o euro foi criado e que deveria ter sido respeitada – o problema da Grécia deveria ter sido resolvido pelo FMI, que teria colocado o país em incumprimento, (default), reestruturado a dívida e emprestado dinheiro para poder entrar nos carris. É o que se faz com qualquer país em qualquer sítio. Mas não foi o que foi feito, em parte em resultado de arrogância – e um discurso do tipo ‘somos a Europa, somos diferentes, não queremos o FMI a interferir nos nossos assuntos’ – mas sobretudo por causa do poder político dos bancos franceses e alemães. É preciso lembrar que na altura havia três franceses na liderança do Banco Central Europeu (BCE) – Jean-Claude Trichet – do FMI – Dominique Strauss-Kahn – e de França – Nicolas Sarkozy. Estes três franceses quiseram limitar as perdas dos bancos franceses. E Angela Merkel, que estava inicialmente muito relutante em quebrar a regra do “no bailout”, acabou por se deixar convencer por causa do lobby dos bancos alemães e da persuasão dos três franceses. Foi isto que provocou a crise do euro.
Porque a decisão de emprestar dinheiro a uma Grécia insolvente transformou de repente os maus empréstimos privados dos bancos em obrigações entre Governos. Ou seja, o que começou por ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar os bancos, acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa entre países credores e países devedores. E em que as instituições europeias funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores. Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.
Quando diz que os Governos e instituições estavam dominados pelos bancos quer dizer o quê?
Quero dizer que os Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos como campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com ligações financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta entre bancos e políticos. No meu livro defendo que quando uma pessoa tem a tutela de uma instituição, não pode ser autorizada a trabalhar para ela depois.
Também diz no seu livro que quando foi conselheiro de Durão Barroso, o avisou claramente logo no início sobre o que deveria ser feito, ou seja, limpar os balanços dos bancos e reestruturar a dívida grega. O que é que aconteceu? Ele não percebeu o que estava em causa, ou percebeu mas não quis enfrentar a Alemanha e a França?
Sublinho que isto não tem nada de pessoal. O presidente Barroso teve a abertura de espírito suficiente para perceber que os altos funcionários da Comissão estavam a propôr receitas erradas. Não conseguiram prever a crise e revelaram-se incapazes de a resolver. Ele viu-me na televisão, leu o meu livro anterior (*) e pediu-me para trabalhar para ele como conselheiro para lhe dar uma perspectiva alternativa. O que foi corajoso, e a mim deu-me uma oportunidade de tentar fazer a diferença. Infelizmente, apesar de termos tido muitas e boas conversas em privado, os meus conselhos não foram seguidos.
Porquê? Será que a Comissão não percebeu? A Comissão tem a reputação de não ter nem o conhecimento nem a experiência para lidar com uma crise destas. Foi esse o problema?
Foram várias coisas. Claramente a Comissão e os seus altos funcionários não tinham a menor experiência para lidar com uma crise. Era uma anedota! O FMI é sempre encarado como a instituição mais detestada [da troika], mas quando foi juntamente com a Comissão à Irlanda, as pessoas do FMI foram mais apreciadas porque sabiam do que estavam a falar, enquanto as da Comissão não tinham a menor ideia. Por isso, uma das razões foi inexperiência completa e, pior, inexperiência agravada com arrogância. Em vez de dizerem “não sei como é que isto funciona, vou perguntar ao FMI ou ver o que aconteceu com as anteriores crises na Ásia ou na América Latina”, os funcionários europeus agiram como se pensassem “mesmo que não saiba nada, vou na mesma fingir que sei melhor”. Ou seja, foram incapazes e arrogantes. A segunda razão é institucional: não havia mecanismos para lidar com a crise e, por isso, a gestão processou-se necessariamente sobretudo através dos Governos. E o maior credor, a Alemanha, assumiu um ponto de vista particular. Claro que isto não absolve a Comissão, porque antes de mais, muitos responsáveis da Comissão, como Olli Rehn [responsável pelos assuntos económicos e financeiros], partilham a visão alemã. Depois, porque o papel da Comissão é representar o interesse europeu, e o interesse europeu deveria ter sido tentar gerar um consenso de tipo diferente, ou pelo menos suscitar algum tipo de debate. Ou seja, a Comissão poderia ter desempenhado um papel muito mais construtivo enquanto alternativa à linha única alemã. E, por fim, é que, embora seja politicamente fraca, a Comissão tem um grande poder institucional. Todas as burocracias gostam de ganhar poder. E neste caso, a Comissão recebeu poderes centralizados reforçados não apenas para esta crise, mas potencialmente para sempre, que lhe dão a possibilidade de obrigar os países a fazer coisas que não conseguiram impor antes. É por isso que parte da resposta é também uma tomada de poder.
http://www.publico.pt/economia/noticia/ajudas-a-portugal-e-grecia-foram-resgates-aos-bancos-alemaes-1635405
domingo, maio 04, 2014
A limpeza da saída. Este país não é para velhos. Este país não é para novos. É para quem não tem sentido crítico, para quem tem estômago de avestruz e memória de peixe. Este país dificilmente será para mim. Reservo-me novamente o direito de me sentir indignada e desejo que um dia a história me dê algum suporte. Mas creio que este país não seja para quem deseje. Mas vai ser de quem luta.
Com Marta Ribeiro
Com Marta Ribeiro
terça-feira, abril 22, 2014
40 anos depois
Pacheco Pereira "Quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril"
Eduardo Martins
40 anos depois da revolução, nenhuma decisão é tomada pelo governo e o parlamento contra os interesses dos banqueiros
Pacheco Pereira organizou a exposição da Assembleia da República que assinala os 40 anos da Revolução. A ideia presente no trabalho é a da construção da democracia num processo de conflito que ainda não acabou. Falemos então disso.
Em entrevista ao i, o secretário de Estado Pedro Lomba afirmou que a acção do governo está a recuperar "o espírito do 25 de Abril inicial". Concorda?
O senhor secretário de Estado Pedro Lomba não faz a mínima ideia do que foi o 25 de Abril . Essa tentativa à posteriori de encontrar na acção do actual governo alguma coisa que tenha a ver com as condicionantes e as circunstâncias do 25 de Abril é do domínio da ficção política.
Mas não pode haver um ponto de vista de uma direita liberal que considere que a "libertação" da economia de um suposto domínio do Estado é algo que podia estar contido no 25 de Abril e que teria sido abastardado pelo processo revolucionário?
Mas eu não vejo é qualquer libertação da economia em relação ao Estado, bem pelo contrário, vejo um Estado que exerce uma pressão fiscal sobre os cidadãos como nunca se viu. Um Estado que utiliza o fisco no limite das liberdades e no limite dos direitos: inverte o ónus da prova e que trata das pessoas de uma maneira inaceitável. Há uma cultura de prepotência perante o cidadão comum. Mais, há até a entrada num domínio perigoso: Se hoje houvesse uma polícia política ela nem precisaria de nova legislação, bastava consultar o fluxo de facturas do fisco, para saber o que eu faço o dia inteiro: o que eu como, o que eu consumo. Cruzando com os dados do multibanco, tudo estaria disponível. Como nós não temos uma cultura contra estes abusos do Estado, que muitas vezes existem apenas para esconder a sua incompetência e negligência, naquilo que devia ser a verdadeira função do fisco: a máquina do Estado parece ineficaz em relação aos poderosos que devem milhões de euros, permitindo a prescrição dessas cobranças, mas isso não retira, os poderosos, das mesas de convívio dos políticos, enquanto que qualquer desgraçado que deva 200 ou 300 euros ao fisco, fica com a vida completamente destruída.
Mas essa cultura vai para além da administração fiscal?
O fisco é apenas um exemplo, a maneira como muitos dos processos económicos são dirigistas, nalguns aspectos ainda mais que no maior dos pesadelos do socialistas, a dissolução de direitos sociais e de aquilo que são garantias da própria sociedade, são factores que reforçam o Estado.
Mas de qualquer forma não assistimos a um processo de privatização do sector empresarial do Estado?
As privatizações seriam legítimas num Estado democrático se fossem efectivamente transparentes. O que acontece é que o processo de privatizações não é de todo transparente, apesar da comunicação social ter repetido, sem verificar, as auto-afirmações de transparência dos membros do governo. Repare que foi preciso esperar muito tempo, para saber, na privatização mais importante, a da EDP, que não só incluía obrigações do Estado que não era conhecidas à época da privatização, como há todo um conjunto de práticas de inside trading durante esse processo. Por exemplo, a REN, activo que qualquer Estado enumera na sua reserva estratégica, foi privatizada com o ridículo da lei destinada a proteger todas as áreas estratégicas só ter aparecido depois de se terem verificado todas essas privatizações importantes.
Mas isso é uma crítica às privatizações
A crítica não é sobre privatizar, mas o que o Estado privatiza e como o faz. E, sobretudo, o facto de privatizar dentro de um círculo de poder nefasto para a nossa democracia. O círculo de poder daquelas pessoas que saltitam entre os escritórios de advogados, as consultoras financeiras, a vida política, os bancos e grandes grupos nacionais. Neste processo aparecem, ao mesmo tempo, como responsáveis pela venda e responsáveis pela compra. E em alguns casos as comissões de acompanhamento que foram criadas só reúnem depois do processo estar decidido, e em muitos casos enunciam a circunstância, que pelos vistos parece natural, que muitas empresas foram vendidas sem sequer haver uma avaliação sobre o seu valor.
Este tipo de comportamentos não justifica os resultados de uma sondagem do i sobre as elites, em que os pronunciados consideram que os políticos da ditadura eram mais honestos e preparados que os governantes actuais?
Essa sondagem tem dois aspectos: uma denúncia da corrupção actual e da percepção que as pessoas têm da corrupção e, por outro lado, revela uma ignorância sobre o passado, que resulta em grande parte da protecção que a censura deu aos políticos do antigo regime: quem conhece os documentos da censura sabe que o mundo da corrupção económica, da violência, da pedofilia, de uma perturbação quase endémica da sociedade portuguesa existia antes do 25 de Abril, era escondido. As pessoas tendem a mitificar esse passado, como sendo um tempo sem crime, nem violência e corrupção, quando de facto não era assim.
Os grandes grupos económicos que prosperaram no antigo regime e foram protegidos pelas leis do condicionamento industrial dominam grande parte da nossa economia actual. Isso não faz que do ponto de vista das elites e do poder estejamos numa situação muito semelhante?
Não, não penso. Na análise que se faz antes do 25 de Abril e depois, eu nunca me centro naquilo que se apelida de regime económico, se quiser acerca de como funciona a economia capitalista. Centro-me, em primeiro lugar, na questão das liberdades e do escrutínio. A democracia exige o primado da lei. As pessoas muitas vezes pensam que a democracia é apenas o voto, não: são as eleições e o primado da lei. Os problemas que eu levanto em relação às privatizações é a constituição dessa elite blindada, que se desloca de ministro para administrador, de uma grande empresa ou de um escritório de advogados, que presta serviços aos governo na mesma área que fez a privatização. Isso é que é grave, porque tem que haver uma clara separação entre quem decide sobre o bem público e quem é beneficiado do ponto de vista económico com a sua venda. O que não existe em Portugal, e isso é muito preocupante para a democracia. É preciso uma clara separação entre quem decide e o poder económico.
Mas isso não era o que acontecia anteriormente?
Não é bem assim. Eu não gosto de comparar situações pouco comparáveis: o próprio condicionamento industrial tinha muitos críticos no antigo regime e ele foi feito para proteger duas ou três indústrias pesadas que se consideravam necessárias para a independência e soberania portuguesa.
O facto do condicionamento industrial ter gerado em Portugal uma situação de concentração económica bastante superior ao nível de desenvolvimento do país, enormíssimos grupos económicos muito poderosos, e o facto desses grandes grupos continuarem poderosos hoje, não condiciona a democracia?
Com excepção da banca, os maiores grupos económicos portugueses de hoje não vêm do condicionamento industrial: estão no sector da distribuição, estão ligados a actividades industriais mais recentes e alargaram-se para os sectores de serviços. Não há uma continuidade entre o mundo económico do salazarismo e o actual. Não significa que não haja problemas económicos gravíssimos de subordinação e da captura, mesmo em alguns casos, do poder político pelo poder económico: nenhuma decisão é tomada no governo e na Assembleia da República que afecte os interesses da banca. Há uma espécie de barreira invisível e mesmo coisas que são de algum bom senso, como por exemplo a maneira como a banca avalia as casas dos empréstimos de habitação, e depois face à ruptura de pagamentos, considera que a sua avaliação não tem nenhum papel em relação ao valor que atribuiu à casa. Estes factos devem ser corrigidos. A banca deve ser responsabilizada pela avaliação especulativa do valor das habitações. Este tipo de coisas é que mostram que, do ponto de vista legislativo, há uma barreira invisível que protege a banca.
Aquilo que lhe estava a colocar é que há duas interpretações extremas sobre o 25 de Abril e o processo revolucionário. Há pessoas mais à esquerda que afirma que havia um poder económico que foi construído no fascismo, que para haver democracia esse poder deve ser derrubado, e que de alguma forma esse poder é dominante novamente nos dias de hoje. Há uma segunda narrativa, mais à direita, daqueles que afirmam que a democracia se fez contra o PREC [Processo Revolucionário em Curso], que garante que havia um poder militar revolucionário, que esse poder realizou as nacionalizações e que para haver democracia isso tem que ser invertido e o Estado retirado da economia. Estes discursos têm sentido?
Eu não penso que as coisas sejam tão a preto e branco. Quando analiso os objectivos do 25 de Abril, sempre considerei que o desenvolvimento dos 3 D [Democratizar, Descolonizar e Desenvolver], do programa do MFA, era algo forçado. Não se pode impor a um regime político que vive do jogo democrático normal uma determinada ideia sobre o que é o desenvolvimento. Já pelo contrário acho que a melhoria das condições de vida é um objectivo fundamental de qualquer regime político e democrático. Eu também acho que foi fundamental terminar as chamadas conquistas da revolução: a reforma agrária, o controlo operário e as nacionalizações, que são resultado de uma situação revolucionária. Que tinham alguns aspectos punitivos, a exemplo que sucedeu em França no pós-Segunda Guerra Mundial: as empresas que tinham colaborado com os alemães foram nacionalizadas dentro desta ideia punitiva. Se for analisar até programas antigos do PCP e do MUNAF e MUD há a ideia dessas nacionalizações punitivas. Mas a verdade é que o período de 1974 e 75 podia ter ido para diferentes caminhos. E um deles era a criação de uma sociedade socialista, sem propriedade privada, com um poder político, que do meu ponto de vista, tinha que ser autoritário para manter essa estrutura de sociedade. Uma das grandes vitórias da sociedade portuguesa foi ter dissolvido esse tipo de antinomias entre 74 e 76. O acto principal não é o 25 de Novembro, como diz o CDS, é um conjunto de decisões: a substituição do Conselho da Revolução pelo Tribunal Constitucional, o fim da tutela dos civis pelos militares, as sucessivas revisões constitucionais, inclusive aquela que permitiu privatizar e criar uma economia de mercado, que é um elemento fundamental da democracia. Agora, isso não me leva a não ver que sobre a economia de mercado há hoje uma perigosa deriva no sentido de transformar aquilo que devia ser um jogo limpo da competição, entre empresas, numa tutela política e financeira em relação às principais decisões económicas. Entretanto os primeiros fautores da crise, que foram a banca e o poder económico e financeiro, são uns dos principais beneficiados, em termos de poder político, dessa mesma crise. É um processo que aconteceu em vários países. Criou-se uma espécie de barreira invisível de aço que faz que nenhuma decisão possa ser tomada contra os interesses do capital financeiro.
Defende que para haver democracia tem que haver economia de mercado, mas não é preciso haver uma maior igualdade entre os cidadãos? Somos dos países mais desiguais da Europa, mas nestes anos de crise isso ainda se reforçou mais.
A desigualdade social é um problema da nossa democracia. Mas na programação não-escrita da democracia não pode estar a igualdade por via administrativa, mas tem de estar o caminho para minorar essas desigualdades. Não se pode dizer que não há democracia quando não há igualdade, mas só pode haver democracia se houver um caminho para a minorar.
Mas esse plano não tem de ser um projecto político?
Tem que ser tudo. A história mostra que muitas vezes as coisas não são bem assim. Há coacções e limites que podem controlar isso.
Quais coacções e limites, basta ver a distribuição de comentadores televisivos, para perceber que este equilíbrio é precário. Parece que ser ex-líder do PSD dá acesso contratual a vir a ser comentador na TV.
Isso não é um problema apenas dos líderes do PSD, é uma característica desta situações, em que toda a gente, dentro deste círculo, tem a vida garantida. Se saírem do círculo passam para as trevas exteriores, mas dentro do círculo estão seguros. Isso tira qualquer risco da actividade política: podem ir para o Parlamento Europeu, para um conselho de administração...
Isso parece a ideia que circulava no tempo da República que a política era uma grande gamela.
É preciso ter cuidado com as generalizações. Mas é verdade que Portugal tem uma elevada percentagem das elites políticas que transitam entre o Estado e as empresas, o Estado e os grandes escritórios de advogados, o Estado e o poder financeiro, e o Estado e a burocracia europeia...
Mas qual seria a alternativa? Eles vão-lhe dizer que medidas que impedissem essa circulação, fariam que apenas aceitassem ser políticos os menos capazes...
Não acho que a política deva ser uma actividade profissionalizada, acho perigosa uma legislação que impeça que no parlamento as pessoas deixem de ter uma profissão, por uma razão muito simples. Essas pessoas deixam de ter capacidade de dizer "não". E a gente vê o efeito que esse tipo de situações tem nas juventudes partidárias: as pessoas que não têm profissão ficam dependentes dos aparelhos partidários para sobreviverem, e perdem a capacidade de dizer que não. Eu sou a favor da constituição de uma comissão de ética, independente das maiorias partidárias, e com poderes reais. Esse tipo de prática existe em vários países e é muito mais eficaz do que o somatório de legislação avulsa sobre incompatibilidades. É isso que os partidos não querem. Não querem uma comissão de ética que lhes escape ao controle.
Há gente que veicula a ideia que a democracia foi construída contra o PREC, concorda?
Não. Na exposição que eu organizo na Assembleia não parto do princípio que haja uma interpretação unívoca do PREC. No período revolucionário realizaram-se quatro eleições: constituintes, legislativas, autárquicas e presidenciais. Só isso já nos levava a olhar de uma outra maneira para os acontecimentos. O PREC é o resultado de um tumulto que era inevitável ao fim de 48 anos de ditadura. A ideia que, depois do dia inicial e limpo, as coisas pudessem ser higiénicas é irrealista. Era inevitável que as coisas fossem complicadas e tumultuárias. Eu não direi que a democracia nasceu do PREC, mas direi que a democracia nasceu no PREC. Não entendo que seja possível, e nesta exposição eu faço o esforço para evitar projectar o politicamente correcto actual sobre o passado. Aquilo que se pretende mostrar na exposição foi que as instituições democráticas e a própria vitória da democracia, mesmo em relação aos protagonistas que eventualmente se batiam por outras soluções, foi construída durante esse tempo: o processo democrático normalizou-se mais tarde que 74 e 76, mas começou a ser construído no PREC. E começou no PREC, porque é evidente, quer se queira quer não, que houve uma certa alegria da liberdade e é inevitável que isso conduzisse a excessos. E não adianta penar sobre isso, de modo geral quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril. O PREC teve excessos e houve mortos e gente que mandou matar, mas a verdade é que foi naqueles anos turbulentos que nasceu a democracia portuguesa. Chamo a atenção para os processos eleitorais, que decorreram em liberdade, nunca houve nenhuma queixa. Quando as pessoas votaram no PS ou quando anos mais tarde votaram na AD [Aliança Democrática coligação do PSD, CDS, PPM e Renovadores, dirigida por Sá Carneiro] permitindo a primeira mudança significativa do poder no pós 25 de Abril, fizeram-na em liberdade. E essa liberdade nasceu da revolução do 25 de Abril. Em história as revoluções não são higiénicas.
No romance de Lídia Jorge, "Os Memoráveis", sobre o 25 de Abril, fala-se em 5000 protagonistas da revolução. Na sua exposição há um painel com 200. Essa ideia de protagonistas principais não é um regresso a uma história das elites e esquece que numa revolução há uma população inteira nas ruas?
O resumo da história aos protagonistas, resulta muitas vezes numa história mítica: não se pode compreender o que sucedeu sem as pessoas e o povo. Vejamos, então aquelas pessoas que vieram para a rua, mais de 100 mil, quando Humberto Delgado foi ao Porto não tiveram um papel? Certamente que sim! O salazarismo nunca mais foi o mesmo depois desse momento.
Mas de alguma forma não é isso que você faz ao resumir a um painel com 200 pessoas?
A história é feita também com pessoas concretas. O 25 de Abril não foi apenas um golpe militar. Mas existiu esse golpe militar que tem por base reivindicações corporativas e duas franjas de politização contraditórias: uma que existia em certas áreas da Marinha e em homens como Melo Antunes, uma politização que vem beber em muitas coisas, nomeadamente ao Congresso Republicano de Aveiro, e há depois uma outra politizações ligada aos sectores spinolistas que pretendiam a manutenção federalista do império colonial, mas que têm, num certo sentido, ligações à chamada Ala Liberal do regime [onde pontificava Sá Carneiro e Pinto Balsemão]. São dois núcleos politizados. Quando ao golpe militar se sucede uma revolta popular, milhares de pessoas vieram à rua, às vezes com risco. Houve cargas policiais e mortos em frente à sede da Pide. Esses milhares nas ruas imediatamente começaram a condicionar o processo. Eu não acho que essas pessoas saíram porque o PCP ou a CDE as tivessem mandado sair. É um fenómeno, em grande parte, espontâneo, mas esse povo nas ruas começou a condicionar o processo. Não é possível fazer um painel de São Vicente, eu seleccionei 200 nomes para a exposição e no dia em que acabamos o painel reparei que me faltavam o Francisco Martins Rodrigues e o Vítor Cunha Rego, duas pessoas fundamentais. O painel que está na exposição não é o dos autores da democracia, mas as pessoas que tiveram intervenção neste processo tumultuário que se seguiu a uma calma artificial da ditadura.
Portugal é mesmo um país de brandos costumes devido à ditadura?
Quem diz isso não sabe história.
Nós tivemos as guerras liberais em que nos esfolávamos e matávamos alegremente, mas parece que nos tempos de hoje podem ferver-nos em cortes e impostos que nós apenas suspiramos...
É preciso ser-se muito prudente. De um momento para o outro as coisas podem mudar. Há factores como a censura e a cultura anti-conflito, que vigorou durante 48 anos. E uma das coisas mais perigosas nos tempos de hoje são certas ideias do poder que são eficazes: jovens contra velhos, ser velho é ter culpa e estar a roubar os mais novos; os trabalhadores públicos são privilegiados e os privados são as vítimas.
O Estado social é uma conquista das populações mas, por outro lado, ele aparece como uma garantia de um determinado consenso social. Com a destruição deste, podemos dar como adquirida a estabilidade do sistema?
De todo, não. A ideia de que não há direitos adquiridos e que a confiança não é um elemento fundamental na relação com os cidadãos - repare que só há confiança na relação com os credores - leva ao fim da coesão social. Verifica-se o deslaçamento da sociedade. É um discurso de divisão. Não conheço nenhum governo, na história portuguesa, que utilize por razões utilitárias o discurso da divisão social. E isto pode acabar mal
segunda-feira, abril 14, 2014
Quatro falácias da “Segunda Grande Depressão”
13
de Março de 2014 por As Minhas Leituras
O
período desde 2008 tem produzido um conjunto abundante de falácias económicas
recicladas, a maioria saiu das bocas dos líderes políticos. Aqui estão as
minhas quatro favoritas.
A dona de casa da Suábia. “Deveria
ter-se perguntado simplesmente à dona de casa da Suábia”, disse a chanceler
alemã, Angela Merkel, depois do colapso de Lehman Brothers em 2008. “Deveria
ter-nos dito que não podemos viver gastando mais do que se ganha”.
Esta lógica que parece sensata sustenta
actualmente a austeridade. O problema é que ignora o efeito da poupança da dona
de casa sobre a procura total. Se todas as famílias cortarem os seus gastos, o
consumo total diminuiria e, assim, também diminuiria a procura de mão-de-obra.
Se o marido da dona de casa perder o emprego, a família ficaria numa situação
pior do que estava antes.
O caso geral desta falácia é a “falácia
da composição”: o que faz sentido para cada família ou empresa individualmente
não dá necessariamente resultado para o bem de todos. O caso particular que
John Maynard Keynes identificou foi o “paradoxo da poupança”: se todos tentarem
poupar mais em períodos difíceis, a procura agregada desceria, baixando a
poupança total devido à diminuição do consumo e do crescimento económico.
Se o governo tentar cortar o seu défice,
as famílias e empresas terão que apertar os cintos e o resultado será uma
redução dos gastos totais. Como consequência, contudo, e por muito que o
governo corte os seus gastos, o seu défice vai diminuir pouco. Se todos os
países perseguirem a austeridade simultaneamente, uma menor procura por bens de
cada país provocará um menor consumo nacional e estrangeiro, levando a situação
a piorar.
O governo não pode gastar dinheiro que
não tem. Esta falácia – muitas vezes repetida pelo primeiro-ministro britânico,
David Cameron – apresenta os governos como se eles enfrentassem os mesmos
constrangimentos orçamentais que as famílias ou empresas. Mas, os governos não
são como as famílias ou empresas. Podem sempre obter o dinheiro de que
necessitam emitindo obrigações.
Mas, não terá um governo cada vez mais
endividado que pagar taxas de juros mais elevadas e, assim, os custos do
serviço de dívida chegarão a consumir todas as suas receitas? A resposta é não:
o banco central pode imprimir dinheiro extra suficiente para baixar o custo da
dívida do governo. É o que a chamada “flexibilização quantitativa”
(“quantitative easing”) faz. Com taxas de juro próximas de zero, a maior parte dos
governos ocidentais não podem deixar de se endividar.
Este argumento não é aplicável a um
governo sem o seu próprio banco central, caso em que enfrenta exactamente o
mesmo constrangimento orçamental da já citada dona de casa da Suábia. É por
isto que alguns estados membros da Zona Euro tiveram tantos problemas até que o
Banco Central Europeu (BCE) os resgatou.
A dívida nacional representa tributação
diferida. De acordo com esta falácia, muitas vezes repetida, os governos podem
obter dinheiro emitindo obrigações mas, tendo em conta que as obrigações são
empréstimos, estes terão – mais cedo ou mais tarde – de ser reembolsadas, o que
só pode ser feito aumentando impostos. E, tendo em conta que os contribuintes
assim o esperam, terão que poupar agora para pagar os seus impostos futuros.
Quanto mais se endivida o Governo para pagar os seus gastos actuais, mais
poupam as pessoas para pagar os impostos futuros, anulando qualquer efeito
estimulante do endividamento extra.
O problema com este argumento é que os
governos raramente são confrontados com a necessidade de “pagar” as suas
dívidas. Podem escolher fazê-lo, mas a maior parte deles
limita-se a refinanciá-las emitindo novas obrigações. Quanto maior for a
maturidade das obrigações, menos frequentemente devem recorrer os governos aos
mercados para obterem novos empréstimos.
Mais importante, quando há recursos não utilizados
(por exemplo, quando o desemprego é muito mais elevado do que o normal), a
despesa que resulta do endividamento do governo coloca esses recursos em uso. O
aumento de receita do governo que isto gera (juntamente com a descida de gastos
com desempregados) compensa o endividamento extra sem ter que aumentar impostos.
A dívida nacional é um fardo para as
gerações futuras. Esta falácia é repetida tão frequentemente que entrou no
inconsciente colectivo. O argumento é de que, se a geração actual gasta mais do
que ganha, a próxima geração será forçada a ganhar mais do que gasta para o
pagar.
Mas, isto ignora o facto de que os
titulares da mesma dívida estarão entre as gerações futuras supostamente
sobrecarregadas. Suponhamos que os meus filhos terão que pagar a dívida em que
nós incorremos. Estarão em pior situação. Mas, nós estaremos melhor. Isso pode
ser negativo para a distribuição de riqueza e rendimento, porque vai enriquecer
o credor em detrimento do devedor, mas não haverá encargo líquido para as
gerações futuras.
O princípio é exactamente o mesmo quando
os titulares de dívida pública são estrangeiros (como no caso da Grécia),
embora a oposição política para o reembolso será muito maior.
A economia está cheia de falácias,
porque não é uma ciência natural como a física ou química. As proposições na
economia rara vezes são completamente verdadeiras ou falsas. O que é verdade em
algumas circunstâncias pode ser falso noutras. Acima de tudo, a verdade de
muitas proposições depende das expectativas das pessoas.
Considere a crença de que, quanto mais o
governo se endivida, mais elevado será o encargo futuro com impostos. Se as
pessoas agem com base nesta crença, poupando cada libra, dólar ou euro extra
que o governo coloque nos seus bolsos, os gastos extra do governo não terão
efeito na actividade económica, independentemente de quantos sejam os recursos
não utilizados. O governo deve, então, aumentar os impostos – e a falácia
torna-se uma profecia auto-realizável.
Então, como devemos distinguir entre
proposições verdadeiras e falsas na economia? Talvez se deva traçar a linha
divisória entre as proposições que apenas são válidas se as pessoas esperam que
o sejam e as que o são independentemente das crenças a respeito. A afirmação,
“se todos nós poupássemos mais em tempos de crise, todos estaríamos melhor”, é
absolutamente falsa. Estaríamos todos piores. Mas, a afirmação, “quanto mais os
governos se endividam, mais têm que pagar pelo seu endividamento”, por vezes, é
verdadeira e, por vezes, é falsa.
Ou, talvez a linha que divide deve
separar as proposições que dependem de suposições razoáveis e as que dependem
de outras ridículas. Se as pessoas pouparem cada libra extra de dinheiro
emprestado que o governo gasta, o consumo não teria um efeito estimulante.
Verdade. Mas, estas pessoas existem apenas nos modelos dos economistas.
quarta-feira, abril 09, 2014
A
ORIGEM DO MUNDO

“A origem do mundo”, de Courbet (*)
Sérgio Telles
O quadro “A Origem do mundo” tem uma história curiosa
à qual se acrescentou um novo capítulo semana passada. A tela foi pintada em
1866 por Courbet, a pedido de Khalil Bey, diplomata turco-egípcio e colecionador
de quadros eróticos, que a possuiu até o momento em que, arruinado pelo jogo,
teve sua coleção leiloada. Em 1889, o quadro foi encontrado num antiquário pelo
escritor francês Edmond de Goncourt e, posteriormente, comprado por um nobre
húngaro que o levou para Budapeste, onde escapou da pilhagem realizada pelas
tropas russas no final da Segunda Guerra. Trazido de volta a Paris, foi
comprado por Jacques Lacan, que o mantinha em sua casa de campo em
Guitrancourt, na qual o exibia ritualisticamente a seus convidados. Após a
morte de Lacan, a família cedeu o quadro ao Museu d’Orsay dentro das
negociações com o estado francês em torno de impostos referentes à transmissão
de herança.
“A origem do mundo” mostra os genitais femininos da
maneira mais crua possível. Vê-se um torso da mulher, os seios, o ventre, as
pernas afastadas, a frondosa cobertura pubiana e a vagina entreaberta. A
novidade recente é que teria sido encontrada a parte superior do quadro, que
exibe os ombros e a face da modelo, confirmando hipóteses anteriores que
afirmavam ser ela a irlandesa Joanna Hiffernan, que posava também para o grande
pintor Whistler, de quem fora companheira e que estaria envolvida afetivamente
com Courbet na ocasião em que o quadro estava sendo pintado.
Supondo a veracidade da descoberta, que ainda está em
discussão entre os especialistas, podemos conjecturar quem teria seccionado a
pintura e por que motivo. O quadro era tido como pornográfico e até muito
recentemente mantinha essa conotação. Não é então difícil imaginar que o
próprio pintor tenha resolvido mutilar sua obra com o intuito de proteger sua
modelo. Ainda em 2009, livros cujas capas o reproduziam foram confiscados pela
polícia em Portugal e páginas do Facebook que o exibiam foram retiradas do ar
em 2011. Não deixa de ser surpreendente
que, em função do noticiário, sua imagem tenha aparecido abertamente em todos
os jornais.
A trajetória do quadro, vindo dos porões da
pornografia para a consagração definitiva nos salões do Museu d’Orsay mostra
como a apreciação de uma obra está inevitavelmente atrelada aos valores
vigentes no tempo e no lugar de seu surgimento.
Contrariando a representação idealizada do nu
feminino, Courbet o apresenta de forma realista. Consta que o grande crítico de
arte e ensaísta vitoriano John Ruskin, reverenciado por Proust, jamais superou
o choque ocorrido no leito nupcial, ao se deparar com as características
hirsutas de sua mulher, tão distantes da lisa e glabra estatuária clássica que
lhe era familiar, acontecimento de consequências desastrosas para seu
casamento, jamais consumado fisicamente. Mais recentemente, no final dos anos
60, o editor da “Penthouse”, Bob Guccione, causou furor ao mostrar esse detalhe
da anatomia feminina, até então pudicamente evitado até mesmo por sua rival, a
revista “Playboy” de Hugh Hefner.
Atualmente a forma de dispor o velo pubiano parece
estar num outro estágio, evidenciando que, a cada época, o erotismo desenvolve
novas estratégias de sedução e formas de acicatar o desejo. Se Courbet, fiel
aos costumes de seu tempo, mostra o genital feminino envolto em sua pilosidade
natural, constata-se como a moda atual é diferente, na medida em que a
depilação é a regra para as mulheres e até mesmo para os homens. Nos dias de
hoje, Ruskin não teria tido problemas em sua lua de mel.
As transformações na maneira como a sociedade acolheu
“A origem do mundo” mostra como a arte, enfrentando a censura e os preconceitos
da época, luta para representar e expor o que é considerado inaceitável,
proibido, não representável. Desta forma ela está permanentemente ampliando os
limites e as fronteiras daquilo que é permitido pela moral e os costumes.
Trata-se de um serviço inestimável que a arte presta
ao conhecimento. Na medida em que simboliza, representa e põe em circulação
conteúdos até então excluídos, torna possível o pensar e o refletir sobre eles.
Com isso, os aspectos mistificadores, idealizadores, ideológicos – ou seja, a
dimensão fantasiosa que acompanha estes conteúdos quando forçados a medrar no
escuro – são expostos à luz, o que lhes
retira a conotação assustadora, devolve-lhes a real dimensão e a possibilidade
de um tratamento objetivo adequado.
No fundo, estamos falando da liberdade de expressão. O
estado tem o dever de proteger os cidadãos e neste sentido, deve exercer a
censura (aqui entendida lato censo, como o poder de reprimir e punir) para
limitar os impulsos agressivos e sexuais que nos são próprios e que precisam
ser coibidos para garantir a vida em sociedade. Mas o exercício da censura é
complicado, pois o estado tem seus próprios interesses, que nem sempre
coincidem com os da sociedade que deveria representar. Por isso esta deve estar sempre atenta ao poder do
estado, especialmente no que diz respeito às tentativas de reprimir a livre
manifestação de opinião.
Pornografia ou arte, o quadro de Courbet mostra como a
representação explícita dos genitais mantém inalterado um efeito perturbador
sobre nós, como algo arcaico vindo de tempos imemoriais que nos atinge
profundamente, sem que possamos evitá-lo.
Ela evoca, sim, a “origem do mundo”, o mistério da vida, o enigma da
diferença sexual cujo impacto determinante ocorrido na infância continuará para
sempre repercutindo em nossas existências.
A propósito da diferença sexual, em 1989, a artista
francesa Orlan, conhecida por suas incursões na body art e outras vertentes da vanguarda, criou sua versão do
quadro de Courbet, na qual mostra um torso masculino com o falo em ereção,
intitulando-o, significativamente, como “A origem da guerra”. Como tudo que
Orlan faz, o quadro e o título convidam à polêmica. Mais uma vez traz à tona a questão do que deve
ser exposto e do que deve ser ocultado. Ao atribuir às mulheres o poder
criativo e delegar aos homens a carga da destrutividade, para tanto invertendo
o significado convencional do falo enquanto símbolo de fertilidade, Orlan toma uma posição política
de denúncia contra a violência machista ainda vigente mesmo nas sociedades mais
evoluídas.
(*) Versão ampliada de artigo publicado no Caderno 2
do jornal “O Estado de São Paulo” em
16/02/2013
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