terça-feira, setembro 08, 2020

Para tirar o Quebranto a um criança.




Para tirar o Quebranto a um criança , versão  trazida do Brasil.

A mãe da criança, com a ponta da língua faz uma cruz, na testa da criança, dizendo esta oração:

Eu te benzo do Quebranto do bem-olhado do bem querer, do mau-olhado de mal querer, da inveja, olho gordo, olho grande, em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo.

Fazer esta oração e ritual três vezes, sempre com a criança acordada. Não se faz cruz na testa de crianças a dormir, pois não estão estão sendo veladas.

Se a saliva ficar salgada a criança está mesmo muito quebrantada!...

Com três galhinhos de oliveira, uma tesoura e um copo d`água, fazer a mesma oração passando o galho em cruz na criança, primeiro na testa, depois ao umbigo e por último nos ombros de um lado a outro, invocando a mesma reza acima, e atirando o galho para as costas de quem está benzendo, até o último galho. Quando terminar de passar em cruz o último galho e o atirar para as costas, verificar em que posição caíram. Se todos caíram com a ponta do galho virados contra a pessoa, ramos ao contrário da pessoa, a criança está bem quebrantada. Se um galho a favor e dois contra, está um pouco. Se todos a favor, o mal é outro e não Quebranto!

Para terminar, cortar com a tesoura todos os galhinhos em pedacinhos e colocar todos os galhinhos no copo d'água e esperar do lado de fora da porta. Despejar fora da casa, bem longe da criança, onde não irão passar novamente. Fazer isto antes do pôr do sol .

Com três pequenas pedras carvão da lareira acesas, uma tesoura e um copo d'água, repetir a oração acima com a tesoura segurando firme a pedra de carvão e colocar no copo d'água, Fazer isto até terminar todas as pedras, que são passadas passadas em cruz na frente da criança, mesmo estando no colo de outra pessoa. Terminada a colocação de todas as pedras de carvão no copo, verificar em posição ficaram. se ficaram no fundo tudo indica que está tudo bem. No meio, um pouco quebrantada. Todas na superfície, bastante quebrantada. Não esquecer de repetir a oração por 3 dias, e de despejar os resquícios bem longe antes do sol se pôr, a cada dia.

segunda-feira, setembro 07, 2020

Uma pandemia chamada Estupidez

 


Estou a pensar que a humanidade vive uma pandemia pior que a do Covid 19, sem qualquer vacina possível e, garantidamente, sem tratamento à vista. É a pandemia da Estupidez!
Fujam do estúpido que não há cura. Ele prejudica-vos pela certa.
O livro do Levítico deve levar uma apostilha. Onde está Lepra deve-se juntar Estupidez

terça-feira, setembro 01, 2020

Os trilhos das coisas.


 

Passado este agosto com pouco gosto a esperar pelas coisas, enquanto se faz acontecer.

As coisas que já tinham perdido o encanto da euforia com que se pintavam. Os efeitos da cascata tecnológica em que estamos embrulhados já se sentiam nos modelos seguidos e assumidos como dogmas. Tem faltado coragem aos líderes europeus, ou porque não querem, ou porque a mando, ou então por razões de grupo de interesses camuflados de ideologia. Tudo serviu para chegar a este estado de coisas.

A pandemia antecipou a curva a 90 graus, e o comboio descarrilou. Ainda não sabemos quando ele para de se entrechocar, tal a inércia da composição.

Alguns, os do costume, já saíram do comboio. Os líderes europeus continuam os mesmos e nós estamos no meio dos destroços ainda em movimento.

Olho a realidade que está fora do comboio, enquanto este se vai estampando.

Os galifões da finança já estão noutra. Só esperam que o pessoal desça das carruagens em campo aberto. É que nós temos que continuar a viagem.

 


segunda-feira, agosto 31, 2020

Business as usual


 

Enquanto a pandemia reina, as empresas de capital investem, adquirindo empresas do tipo A, B e C, seja lá o que isto queira dizer, nos setores da distribuição, agora a distribuição industrial.

Mais se vangloriam que o investimento de controlo só pode beneficiar na experiência adquirida e  que que agora oferecem. E continuam afirmando que não são como os outros do ramo, pois estão equipados com novas ferramentas de gestão e com as melhores equipas para criar valor aos investidores e que é esta atitude que os diferencia.

Agora é que a coisa vai! Ironizo, que é o que aqui posso fazer.

Que posso eu fazer para além do esforço em perceber o que me rodeia?

Nada me surpreende. As coisas seguem o seu caminho.

 

quarta-feira, agosto 12, 2020

Áspero

 

Áspero.

Há um gosto áspero neste tempo de espera. Não é amargo nem é doce. É uma aspereza em toda a gama dos sabores.

Provamos a cada momento a espera na sua rudeza, à espera do que está para vir.

Uma certeza: já nos faltou mais para o fracasso.

 


Música de grafonola

 


Música de grafonola.

Para que serve um arsenal nuclear, uns mísseis de médio ou longo alcance no combate à uma pandemia tipo covid19? É uma pergunta sem sentido, não ê?
Eu sei que tínhamos de consumir menos, e do que daí resulta em menos vestuário, menos automóveis, menos viagens de turismo , menos aviação, menos parecer ser, menos ostentação , menos e menos.
De repente as fronteiras, que justificam a existência de armamentos tão sofisticados, essa invenção, nada vedam.
Mas o que vejo, e ainda nem luz ao fundo túnel se vê, é o pensar tudo com dantes, a politiquice do poder,  é vira o disco e toca o mesmo.
As soluções antigas não funcionarão, as atuais são as que se podem fazer, e o futuro não existe pois ainda não chegou.
No entanto a música que se ouve é sempre a mesma, já gasta, e sempre os mesmos tudólogos.
Eu já mudei de a forma de olhar as coisas.
O povo, esse, quer a grafonola a tocar.
O povo junto não se salva,  diz ele, o povo que também diz que é a voz de Deus. Entretanto Deus mudou de programa salvífico há uns 30 anos.

Eu já mudei. Já vos tinha dito, não tinha?
Eu também não quero converter ninguém, nem tenho qualquer salvação a apresentar-vos.
Eu ando a ouvir outras músicas.


quarta-feira, agosto 05, 2020

Porque foges Ramalho?


Porque foges Ramalho? Perguntou o bispo que visitou a prisão, depois de ter perdoado ao João que lhe deu um beijo na mão, e ao José que lhe deu um beijo no pé.

Estamos nós a viver este momento louco de corridas contra o tempo, em que os principais participantes estão perdedores à partida e mesmo assim o estão a negar.

Sinto que grande parte do pessoal que está nos lugares da cadeia de decisão não imagina, ou nem quer imaginar, que a guilhotina desta reviravolta decapitará todos os seus participantes exceto alguns que ousam saber da existência da salvadora escapatória.

quinta-feira, julho 30, 2020

É a mesma coisa, mas de outra maneira!



“É a mesma coisa, mas de outra maneira!”
Esta frase a ouviu ao meu pai, acerca das novas maneiras de namorar nos finais dos idos anos setenta do século passado.
Ouço os discursos com uso e abuso da palavra retoma para cima, retoma para baixo. É um déjà-vu que me impele a desligar de tais oratórias gastas. Retomar é voltar a fazer as mesmas coisas da mesma maneira. Eu prefiro fazer a mesma coisa de outra maneira. É muito mais excitante.
Para quando um Kamasutra político?

terça-feira, julho 28, 2020

Autopoiesis



Ilustração de M. C. Escher
Ando fascinado pelo conceito de autopoiesis, sistema isolado constituído pelos componentes que ele próprio cria.
Isto associado à termodinâmica deverá justificar muita coisa na nossa vida, no que nos rodeia, no ambiente, na sociedade e na nossa economia.

Sempre montados na burra

Sempre montados na burra.

A propósito de uma venda de património a metade do preço da avaliação, comprado com dinheiro emprestado pelo vendedor.


“A miséria é enorme; o comércio parado; as indústrias moribundas; o país agoniza - e os agiotas sem descer da burra.”

quarta-feira, julho 22, 2020

Soneira.



Soneira.
Eu não estou para pregar novos amanhãs que cantam, pois nada espero deles.
As coisas não vão piorar, elas só já estão piores. Tudo piora com o objetivo de melhorar.
Há soluções para tudo e ao gosto de cada um. Basta escolher.
Este calor está a dar cá uma soneira ao pessoal!

quarta-feira, julho 15, 2020

Nó górdio



Nó górdio.
Pensar fora da caixa é fundamental, mas não chega.
Estamos enleados num autêntico nó górdio, que por definição não é possível desatar. Assim, como a lenda conta, teremos que o cortar.
Cada um que corte o seu nó.
O nó górdio coletivo em que estamos todos enleados, também terá que ser cortado. Essa necessidade que já se apresenta ao virar da esquina do tempo.
Doravante não será prometer fazer, mas sim, NÃO FAZER, e dizê-lo.
Que grande nó no pensamento dominante que teremos de cortar!

quinta-feira, julho 09, 2020

Juramento




Esta é a sociedade térmica que aqui nos trouxe, montada no dogma do crescimento pelo crescimento.
Dizia o velho recetador ao ladrãozeco que regularmente lhe vinha propor um negócio de ouro usado.
- Não me digas que é roubado, pois se me o disseres, eu nem dado o quero!

Claro que o negócio foi fechado. O ladrão jurou por tudo o que lhe era mais sagrado que uma parte era herdada, e a restante tinha sido achada no chão do largo da feira.

27 voltas de dança.


Hoje lembrei o ano de 1993, o que pensava eu à época, quais eram as manobras políticas noticiadas na TSF e os atores participantes.
Deixei de ouvir a TSF enquanto conduzo na deslocação para o trabalho, reparo na mudança da paisagem à volta com eucaliptos onde ainda existiam pinheiros, que a estrada tem melhor piso e os automóveis mudaram de design.
As minhas pressas são outras nestas 27 voltas que a Terra deu em torno do Sol, acompanhando-o no seu bailado cósmico .
Manuel Gameiro da Silva

terça-feira, julho 07, 2020

Castelo de cartas




Marcello, presidente da República, afirmou que irá um dia e uma noite por semana para o Algarve, para dar o exemplo aos portugueses . Já deu exemplo fechando-se duas semanas em casa. Já deu exemplo de andar a arrancar uns eucaliptos. Já deu exemplo a mergulhar na praia, etc., etc. Disse que o Algarve precisa de ajuda.
Eu digo aqui, que todos nós precisamos de ajuda.
Eu penso que a maioria das pessoas distingue na sua vida o supérfluo do essencial. A nossa economia, nos últimos 25 anos tem estado montada todos os dias no supérfluo além do essencial, claro , e tudo em nome do crescimento. Nos últimos 10 a 15 anos os rendimentos do trabalho das pessoas não têm aumentado, e o supérfluo adquirido tem sido suportado na dívida contraida pelas pessoas, suas famílias, pelas empresas e peĺo Estado.
Com esta pandemia tudo ruiu como um castelo de cartas.
A dívida tem sido o dinheiro que temos usado, e a redução abrupta dos rendimentos, leva a maioria das pessoas à poupança. Se o Corona vírus desaparecesse amanhã, as coisas não iriam mudar assim tão depressa, pois os rendimentos que diminuiram continuarão baixos para a maioria. Continua-se a almoçar e jantar, mas já não se vai ao restaurante tanto amiúde. As pessoas passarão a andar menos de carro, este durará mais. Consumirão menos combustível, não comprarão tão cedo eletrodomésticos, Tudo durará mais tempo, forçosamente, e os impostos associados ao consumo a recolher pelo Estado diminuirão.
Encontraremos um novo equilíbrio, mas a custo, pois estamos habituados a confundir o essencial com o que desejamos mesmo que seja supérfluo.
Atenção que eu sou um otimista que procura ver as coisas pelo lado bom, que não usa desistir diante das dificuldades, e espera que tudo melhore no futuro.


terça-feira, junho 30, 2020

Apesar de doce não deixou de ser o que era.



Então ele decidiu comer merda.
Misturou-a muito bem com o muito açúcar que lhe juntou, e depois comeu uma colherada.
Era doce, mas não deixava de ser merda.
Se há gente que teima em comer merda, o problema é dela.

Dança



Pintura em óleo sobre tela, Álvaro Cunhal

Dos headphones saem sons abafados para o meio acústico externo ao sistema, sons da sonata para piano.
Agora ouve-se um silêncio, espera,  e recomeça em andamento mais alegre, saltitante, com passagens dançáveis. O prazer da dança dos dedos sobre o teclado.
Só pode ter sido assim que o compositor e o intérprete tenham visto e sentido a dança que se ouve.




Miguel Torga, o poeta (Adolfo Rocha, o médico) escreveu que no fim de cada consulta, ou depois de cada livro, lhe apetecia correr atrás do cliente ou do leitor, e contar-lhes toda a verdade, que a receita era inútil e os versos inúteis também.
O destino é maior que a sua pobre ciência e a poesia mais alta que a sua rasteira inspiração.
Miguel Torga – Diários Vols. V a VII
Coimbra, 12 de novembro de 1953

O fado do Alfredo




O fado do Alfredo


Eram três, quatro horas da tarde
O Alfredo no campo a lavrar
Quando lhe veio a notícia
Que Maria estava para acabar.


Acabou-se meu bem, acabou-se
Acabou-se a nossa alegria.
Tenho pai, tenho mãe, tenho tudo
Só me falta o amor de Maria.


Só me falta o amor de Maria,
Só me falta o amor de José.
Tenho pai, tenho mão, tenho tudo
Só me falta o açúcar pró café.


Só me falta o açúcar pró café
Só me falta a garrafa pró vinho.
Tenho pai, tenho mãe, tenho tudo
Só me falta partir-te o focinho.


Jogo infantil do oh melrinho, oh melroto.



Jogo infantil do oh melrinho, oh melroto.
As crianças sentam-se no chão, em paralelo umas às outras, ombro com ombro, e com as pernas esticadas. Cada criança escolhe para si o nome de um animal distinto dos outros já escolhidos. A uma pequena distância marcar-se um círculo no chão a que é o local da feira. Uma delas, fazendo de mestre de cerimónia, com um pequeno pau, vai cantarolando a lengalenga, e a cada linha toca nos pés sequencialmente. No último enganchai que toca um pé, a criança engancha a respectiva perna. 
Ganha o que enganchar primeiro as duas pernas, que se desloca para o local da feira. O procedimento repete-se até ficar o último, o perdedor.

Lengalenga

Oh melrinho
Oh melroto
Quem tem bota
Tem sapato
Quem morreu foi o meu rato.

O meu rato é freguês
Faz os ninhos pelas paredes
As paredes são de pedra
Acolá é a sua terra.
Riquetai, riquetai
Vinte e quatro enganchai.

Ao sortudo vencedor diz o mestre de cerimónia:
- Ide para a feira!
Terminada sequência de eliminatórias, o mestre de cerimónia pergunta ao vencedor:
- Em que animal quer vir?
Responde o ganhador
- No melhor que me provir - e diz o nome do animal que o perdedor escolheu.
Se  acertar com o nome do animal escolhido pelo perdedor, é carregado às costas por este até ao local inicial,, Se não se lembrar a situação inverte-se, e o perdedor passa a vencedor, que para tal terá que dizer o nome do animal do que estava no local da feira, de modo a que o jogo recomece do início, agora com novo mestre de cerimónia, o último ganhador.


quarta-feira, junho 24, 2020

O Fado. Uma visão de 1873.


O Fado.
Uma visão de 1873.
Na gravura do mestre Raphael Bordallo Pinheiro, podemos ver a guitarra portuguesa ainda de cravelhas de pau.

O Fado é a cantiga que define um povo. Melancólica e apaixonada, como o temperamento que a deu à luz, ela tem na sua toada sonolenta alguma coisa de magoado em que transluz toda uma epopeia roxa de saudade. Da antiga tradição aventureira e sonhadora que nos tem vindo pelos séculos fora até estacar ma miséria inerte d’hoje em dia, é ela o grito mais fundo e mais bem lançado que a alma de uma nacionalidade tem sabido – grito que só se dá a sós com o coração, grito intimo de tortura e descalabro de ambições. À ventura pelos mundos de Cristo, sacola ao ombro e bordão de peregrino a quem nada preocupa, peregrino da ilusão- o português leva sempre nos lábios a doce cantiga do fado, como balsamo para todas as mágoas e incentivo à sua sensibilidade. Raça de poetas e viageiros, não se dá connosco a fria realidade; d’olhos vendados se caminha: se amanhã não houver pão, Deus o dará; ao longe é a bruma e para ela se vai, inconscientemente, não antevendo perigos, desdenhando obstáculos, abandonando conselhos da consciência, d’aí a valentia do português, a sua tenacidade, a sua ingenuidade e o seu bom fundo. Quem mal não pensa mal não cuida. O Fado foi, pois, a cantiga mais consentaneamente inventada para companheira deste simples deixar correr que reside em todos nós. Lutas da alma, saudades de tempos idos e coisas desaparecidas, queixas d’amante desprezado, soluço amargo de uma dor oculta, tudo isso ela traduz com um sentimento pungente e doloroso. A mesma ironia é coada por lágrimas; abranda nas inflexões do lamento e em vez de irritar, sensibiliza; amolece os intuitos; quer ferir e afaga, quer apunhalar e dá vida.


terça-feira, junho 16, 2020

A guitarra portuguesa na caricatura política


Neste cartoon do grande Rafael Bordalo Pinheiro, podemos observar uma guitarra portuguesa com pá de cravelhas, ainda sem o afinador de leque metálico e voluta que tanto a caracterizam na atualidade. O mesmo se passa com a viola que marca o ritmo do fado bailado eleitoral.
A guitarra dá música orçamental, a viola marca o ritmo legislativo do diário do governo, enquanto a política assa castanhas no fogareiro da crise.
Os dançarinos e mais elementos à volta são os politicos da época. Um dos fadistas é o rei D. Carlos, enquanto o Zé Povinho está com a bebedeira do costume.
Publico isto só para mostrar que a nossa guitarra evoluiu bastante.

terça-feira, junho 09, 2020



Soluções para problemas a inventar.
Eu tenho uma solução tão boa, que só me falta buscar o problema para a aplicar.

quinta-feira, junho 04, 2020

Carta para Josefa, minha avó


Carta para Josefa, minha avó
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.
Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)
Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

terça-feira, maio 26, 2020

Somos todos potencialmente descartáveis


Somos todos potencialmente descartáveis
Leio notícias e alguns dos comentários sobre o exemplo da Suécia e as ações que as autoridades sanitárias daquele país tomaram em reação ao covid-19. 
Há espertos para tudo e todos são especialistas de tudo.
Se eu entrar em especulações mais profundas, poderei concluir que nós, afinal, nem existimos.

sexta-feira, maio 22, 2020

O último cidadão soviético.




O último cidadão soviético.
Sergei Krikalev quando regressou numa cápsula da Soyuz na cidade de Arkalyk, Cazaquistão, depois de passar um tempo na Estação Espacial Mir, em 25 de março de 1992.
Foi para o espaço como cosmonauta soviético, e regressou a um país diferente como o último cidadão soviético.
Uma autêntica viagem no tempo.


terça-feira, maio 19, 2020

Castelos virtuais

(Muralha da China)
  
Nas últimas duas a três décadas temos observado os negacionistas do aquecimento global e da poluição global, a trabalhar como se não vivessem no planeta Terra, como se fossem uns eleitos do divino.
Tal como os senhores feudais tinham os castelos para se defenderem doa ataques dos servos, eles têm as suas fortalezas virtuais, mais seguras que os altos muros feitos de pedra. Eles julgam-se fora das restrições comuns aos habitantes do planeta
São eles os donos da opinião publicada. Estão em todos os estados.
Este vírus global deu uma paragem brusca e não planeada. Só que eles dos seus castelos já estão recolocar tudo a seu jeito, tu do no novo sítio, aproveitando o espaço limpo deixado pela pandemia. Esta travagem e viragem em ângulo quase reto é a oportunidade de limpar o todo o seu cadastro, para aparecerem depois com roupas novas, limpas e brilhantes aos olhos dos que vivem com os pés poisados na Terra.
A oportunidade serve para todos, dirão. Mas os senhores do castelo já a pensaram toda, e nós só comentamos como se histórias de imprensa cor-de-rosa se tratassem.
Tenho receios que o pessoal troque alguma pseudo-abundância pela limitação das liberdades individuais, logo nós que estamos viciados em petróleo.

O medo que nos salva não nos pode dominar.



Montado num perdigoto, o corona vírus suspendeu toda a economia vigente, globalizando o planeta.
Neste desconfinamento em curso, cada um em primeiro, e depois em grupo , temos que ir pensando e agindo no sentido de deixar de usar, usufruir, praticar, algumas coisas que se consideravam como normais.
A normalidade de hoje é outra.
O medo que nos salva não nos pode dominar.

sexta-feira, maio 15, 2020

Os suspeitos do costume




Os suspeitos do costume.
Esta pandemia irá passar, mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos problemas.
O problema existe e é grave. No entanto há um caos permanente mantido e ampliando no medo. Os noticiários em contínuo das TVs são a prova disso, como se fossem pagos para isso.
Quem é que irá tomar vantagens no pós-COVID-19?
Eu suspeito dos mesmos do costume, mas eu sou um otimista.


quinta-feira, maio 14, 2020

Os apriscos virtuais.




Os apriscos virtuais.
O dinheiro é uma invenção milenar que hoje nos é apresentada como suja, não pelo seu manuseamento direto e sem regras de higiene, mas pela sua relação com a corrupção, tráfico ilegal, logo lucrativo, crime e guerra. Daí as tão famosas máquinas de lavar dinheiro. Aquele que passa de mão em mão na forma de notas e moedas é de uso de todos, é dinheiro público.
Agora por razões de saúde pública, ouço dizer, que é só para usar o dinheiro de plástico.
Ora, o dinheiro de plástico não é público, mas sim privado.
O cerco aperta-se, e como sabem eu sou um otimista.

terça-feira, maio 12, 2020

Oliveira, a árvore eterna



https://www.facebook.com/thefabulousweirdtrotter
A oliveira mais antiga do mundo. A sua idade é estimada em 1350-1100 AC. Está localizado em Kavousi, Creta, Grécia.

Oliveira, a árvore eterna, aquela que assiste ao início e fim dos impérios e ao nascimento e morte de deuses.


Fado vadio



Fado vadio.
Com a censura imposta ao fado pelo regime de Salazar os fadistas passaram a ter, obrigatoriamente, uma carteira profissional.
Um fado era muito improvisado em termos de letra e desgarrada. Logo saía de tudo, desde a desgraçada com moral da história, à crítica social e política . Dai a necessária censura imposta pelo regime.
Um fado poderia durar muito tempo de canto. Os 3 minutos foi imposto pela limitação técnica da gravação em disco.
Logo um fadista vadio não teria carteira profissional.

quinta-feira, maio 07, 2020

A normalidade que aqui nos trouxe.

A normalidade que aqui nos trouxe.
FRANÇA
Covid-19: Artistas e cientistas lançam apelo
O apelo, publicado no jornal francês Le Monde, foi iniciado pela actriz Juliette Binoche e pelo físico e filósofo francês Aurélien Barrau e seguido por várias outras personalidades do mundo artístico e científico, como a actriz Cate Blanchett, o antropólogo Philippe Descola e o físico Albert Fert.
Huppert, Almodóvar, Deneuve e centenas de personalidades pedem acção a Macron
Huppert, Almodóvar, Deneuve e centenas de personalidades pedem acção a Macron
“Não a um regresso à normalidade” apela à introdução de mudanças profundas nos estilos de vida, consumo e economias, aprendendo com as consequências da pandemia causada pelo novo coronavírus.
“A pandemia de Covid-19 é uma tragédia. Mas esta crise tem a virtude de nos convidar a enfrentar as questões essenciais. O balanço é simples: os “ajustamentos” já não são suficientes, o problema é sistémico”, afirmam os signatários, entre os quais se encontram outros nomes conhecidos como o cantor Benjamin Biolay, o realizador Pedro Almodóvar, e os actores Isabelle Adjani, Javier Bardem, Emmanuelle Béart e Monica Bellucci.
Na carta, os subscritores defendem que a actual “catástrofe ecológica” é uma “meta-crise”, porque “a extinção em massa da vida na Terra já não está em dúvida e todos os indicadores apontam para uma ameaça existencial directa”.
“Ao contrário de uma pandemia, por muito grave que seja, trata-se de um colapso global cujas consequências serão incomportáveis”, alertam, apelando a líderes e cidadãos para que “se libertem da lógica insustentável que ainda prevalece, para que finalmente trabalhem no sentido de repensar profundamente os objectivos, os valores e as economias”.
Neste manifesto, artistas e também muitos cientistas das várias áreas de conhecimento, entre os quais alguns prémios Nobel, chamam a atenção para o “ponto de ruptura” que o mundo está a atingir, fruto da poluição, do aquecimento global, da destruição dos espaços naturais e de um consumismo que levou a humanidade a “negar a própria vida: a das plantas, dos animais e de um grande número de seres humanos”.
“Por estas razões, combinadas com desigualdades sociais cada vez maiores, parece impensável “voltar ao normal"”, defendem, reconhecendo que a “transformação radical exigida a todos os níveis exige ousadia e coragem” e que não se realizará “sem um compromisso maciço e determinado”.

terça-feira, maio 05, 2020

Business as usual



O que aí vem é uma oportunidade, havendo vários cenários possíveis.
Um deles é o do “business as usual”, logo agora, mais que nunca, que o terreno está aberto como uma estrada contínua, larga e desimpedida. Uma prova disto são os apoios dados em pirâmide.
As coisas não vão só piorar. Elas já pioraram.
É mais acertado afirmar que o nosso modo de vida deste passado recente, a que chamamos de hoje, já está no caixote do lixo.
No entanto há outros possíveis cenários bem mais desafiantes.

quinta-feira, abril 30, 2020

Monumentos à estupidez humana precisam-se





Teremos que escolher o que não queremos. 
O tempo de fazer mais e mais foi que nos trouxe até aqui. 
Importante será não fazer, deixar como está, ou pura e simplesmente abandonar à Natureza certas obras em curso ou executadas como monumentos à estupidez humana.
Prosperar não é crescer.

quarta-feira, abril 29, 2020

O perdigoto global

Dizem que é urgente voltar à normalidade!
Qual normalidade?
Aquela que globalizou o perdigoto?
Do uso das palavras ao seu abuso vai a distancia do salto de um perdigoto.

quinta-feira, abril 23, 2020

Os novos e os velhos impérios



A propósito dos novos e dos velhos impérios


Os USA é uma potência militar que de um modo geral não ocupa territórios. Isto não acontece desde a guerra com o México no século 19, baseado no direito divino dado por Deus aos Estados Unidos, expandiu o seu território para sul.
Agora , vai lá ao território estrangeiro, domina militarmente, e passado uns tempos retira as tropas do terreno após acordos, alguns custosos de entender, mas eles dizem que são acordos.
Nenhum Império assim fez até ao momento .
Parece que o paradigma está a mudar neste século 21.
Recordo que o século 21 começou no dia 11 de setembro de 2001.