terça-feira, agosto 05, 2014

Novo Banco da casta do costume

Nuno Ramos de Almeidapublicado em 5 Ago 2014 - 05:00
http://www.ionline.pt/iopiniao/novo-banco-da-casta-costume/pag/-1
Novo Banco da casta do costume
 
Portugal tudo na mesma, continuamos a pagar os buracos e o roubo dos banqueiros. Está a chegar a hora de exigir o fim deste regime de políticos ligados a interesses privados 
O primeiro-ministro frisou que os contribuintes não vão ser prejudicados com os custos dessa medida tomada em relação ao Banco Espírito Santo.
"Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para valorizar os activos do Novo Banco e para diminuir os encargos para os contribuintes portugueses, que serão muito menores do que aqueles que seriam se não tivesse sido feito nada", disse o primeiro-ministro.
Estas declarações parecem-lhes familiares? Estão descansados? Agora façam o favor de substituir BES e Novo Banco por BPN. E fiquem cientes de que são declarações do primeiro-ministro Sócrates em 2009, transcritas em notícia do site da TSF em 11 de Fevereiro desse ano.
Recordemos então a sequência. O BPN tinha um buraco anunciado de 700 milhões de euros, o governo e o então governador do Banco de Portugal garantiram-nos que tudo estava sob controlo. No final, estamos ainda a descobrir o buraco do BPN. Está entre 5 mil e 8 mil milhões de euros pagos pelo contribuinte, e o banco foi vendido a um privado por 40 milhões de euros. Neste momento ninguém está preso, os inúmeros políticos e ministros que estiveram no BPN continuam a ser gente feliz e com dinheiro. Lembrem-se das simpáticas mais-valias das acções do SLN ganhas pelo actual ocupante de Belém. Em compensação, a maioria dos portugueses estão muito mais pobres. A crise portuguesa deu cabo da vida da população e continuou a enriquecer os muito ricos e os políticos que eles empregam.
Dizem-nos que o caso do BES é muito diferente dos casos BPN, BCP, BPP, Banif. O banco é sólido, dizem com voz poderosa. "O banco novo, Novo Banco, não vai custar um cêntimo aos contribuintes." O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, repetiu isso, várias vezes, na sua comunicação ao país na noite de domingo.
Voltem a recordar-se, foi o mesmo governador que garantiu ao longo deste ano a idoneidade bancária de Ricardo Salgado. Foi este mesmo governador que garantiu há menos de um mês que o BES era sólido. Foi o Presidente da República, Cavaco Silva, que disse, e Passos Coelho fez coro a 11 de Julho, que "os depositantes podem confiar no BES".
O que sabemos é que os contribuintes vão emprestar mais de 4400 milhões de euros, do empréstimo da troika que o Estado português garante com os nossos impostos, a um sindicato bancário que vai "sanear" o banco e vendê-lo a um privado. Pode garantir-se que não vamos pagar um centavo? Tanto como se podia garantir que o BPN não nos ia custar um cêntimo Se o BPN tivesse sido vendido por 8 mil milhões, em vez de 40 milhões, claro que os contribuintes não seriam penalizados. Mas pensem: na sexta feira o valor em bolsa do BES era 674 milhões de euros e agora querem convencer-nos que o vendem por mais de 4400 milhões de euros.
Por isso, é preciso apoiar as pessoas que não querem mais ser roubadas e que vão no próximo sábado às 15 horas para a frente do BES. Não há democracia com corrupção. É preciso acabar com este regime de banqueiros que usa quem trabalha e os reformados como porta- -moedas para salvar os amigos. Temos o direito a decidir que economia queremos: se para salvar os empregos se os banqueiros. E façam o favor de devolver o país - sequestrado por um regime de políticos que saltitam alegremente nos grupos financeiros privados - aos portugueses. Democracia significa o governo do povo, com o povo e para o povo, e não esta roubalheira.
Editor-executivo
Escreve à terça-feira
 

segunda-feira, agosto 04, 2014

Eis o cão

 

Eis o cão

por Sérgio Lavos

E assim se consumou a fornicação. Em directo para o país, um governador de um banco (ainda que de Portugal) anunciou ao povo a solução milagrosa. O acontecimento é extraordinário por várias razões.
Primeiro, a mentira: que não é uma nacionalização, que nenhum dinheiro público irá ser gasto no BES. Claro que os 4 500 milhões (para começar) são um empréstimo da troika pelo qual estamos a pagar juros e claro que esse dinheiro, doravante emprestado ao fundo de resolução, nunca irá ser devolvido. E porquê? Quem não tiver memória curta e não papar a converseta dos comentadólogos televisivos lembra-se do exemplo do BPN, com um buraco que começou por ser de 800 milhões e já vai nos 6 000 milhões de euros.
Segundo, a sensação de que a bullshit atingiu níveis nunca antes vistos. Depois de várias semanas em que vários agentes (políticos, o PM, o PR, o governador) nos garantiram que o BES era um banco sólido, anuncia-se a falência e o nascimento de uma nova instituição financeira e todos os comentadores aplaudem, como se não estivesse a acontecer o maior escândalo financeiro da História recente. Tudo passa por normal. A newspeak faz o resto: não há "nacionalização", mas sim "resolução", não há falência de um banco, mas um simples nascimento, como se o antigo BES nunca tivesse existido. A absoluta anormalidade de uma falência monstruosa passada para o público sob uma capa de normalidade inevitável. É tanta a aparência de normalidade que até a excitação dos comentadores de economia nos canais de notícias serve o propósito propagandístico: com sorrisos rasgados elogiam o discernimento da solução encontrada, como se esta pudesse apenas trazer um radioso futuro ao país.
Terceiro, o mais incrível de tudo: parece que deixámos de ter primeiro-ministro e que o líder da gloriosa pátria passou a ser Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal. Passos Coelho, a banhos no Algarve (com metade da população), lava as mãos como Pilatos e não dá a cara pela solução, escondendo-se na casa alugada de Manta Rota como o cão cobarde que é. Quando estão em causa a falência e a capitalização com dinheiros públicos do maior banco privado português, Passos mostra mais uma faceta da sua absoluta mediocridade, e por puro calculismo político não assume a tomada de decisão, como se fosse Carlos Costa o responsável pelo destino a dar aos 4 500 milhões emprestados pela troika. Não há memória de tal demonstração de cobardia política, de tanta cobardia pessoal. A imagem de Passos Coelho em trajes menores passeando pelo areal de Manta Rota enquanto fala para as câmaras sobre a falência do BES com a leviandade de um inimputável ficará como corolário de uma governação marcada por uma trágica sucessão de actos e acontecimentos indignos. E sim, estamos todos de parabéns.

http://365forte.blogs.sapo.pt/eis-o-cao-249553
 

sexta-feira, agosto 01, 2014

Espírito Santo — Uma força que você precisa em sua vida

 
 
Espírito Santo Uma força que você precisa em sua vida

Construtores do caos

Construtores do caos

por VIRIATO SOROMENHO MARQUES29 julho 2014
 
O caso GES-BES tem suscitado uma pergunta simples: como foi possível que gravíssimas práticas fraudulentas tivessem escapado durante anos à vigilância das autoridades de regulação, incluindo à vigilância da troika sobre o setor bancário? A resposta é tão dura quanto simples: nos últimos 30 anos muitos governos (de direita e de esquerda) foram responsáveis pela criação dos alçapões e das opacidades que transformaram o sistema financeiro europeu (e mundial) num campo minado onde aventureiros põem em perigo a segurança de milhões de pessoas. Em 1933, em plena Grande Depressão, o Congresso dos EUA produziu uma lei (Glass-Steagall Act) que restaurou a confiança no sistema financeiro: separou e protegeu os bancos comerciais, face aos bancos de investimento. Por outras palavras: os bancos que recebiam as poupanças dos depositantes e que emprestavam às empresas na economia real não podiam fazer operações especulativas com produtos financeiros. Durante décadas essa higiénica distância permitiu prosperidade económica, a par de visibilidade e eficácia no trabalho dos reguladores. Contudo, o lóbi financista, embalado pelo mantra do neoliberalismo, não descansou enquanto não meteu no bolso os governos e os parlamentos necessários para misturar tudo de novo. Em 1999, o Congresso americano revogou a lei de 1933, regressando à promiscuidade especulativa. Por todo o lado, incluindo a UE, as leis "liberalizaram-se", no sentido de criar obscuridade, onde antes havia transparência. Criaram-se condições para mascarar a exposição da poupança das famílias, no labirinto arriscado das ações, das obrigações e de uma miríade de derivados toxicamente imaginativos. Os políticos que se queixam dos banqueiros deveriam ter vergonha. O caos habita nas leis que eles próprios assinaram. Seria interessante saber como e porquê...
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4051730&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco#.U9fDT5DAcQA.facebook
 

domingo, julho 27, 2014

terça-feira, julho 08, 2014

Tanta é a fartura que já não apetece comer.

Tanta é a fartura que já não apetece comer.
Depois do enxameamento das associações e colectividades de ranchos e grupos folclóricos, temos o último fenómeno de materialização de fadistas, a torto e a direito.
Terminada a época das noites de fados, eis que os festivais de folclore aparecem em força, passada que foi a época das marchas dos santos populares. Até do desfile de Carnaval mais famoso do mundo, que é o do Rio, já me informaram que teve influência das marchas de Lisboa. Imaginem as coisas que eu ouço! Isto para não falar dos fins-de-semana gastronómicos, vinhos e petiscos, onde um qualquer vereador municipal da cultura, além de munido do discurso chapa cinco, deve também estar municiado, geneticamente, de um bom gancho de fígado e sucos estomacais de reserva.
Cultura a quanto obrigas neste tempo de espelhos, onde o buraco do BES não tem reflexo possível, logo não existe.

OS FACILITADORES (ler os outros)

OS FACILITADORES




OS FACILITADORES
O título, só por si, já era assustador: "Goldman Sachs aposta em Portugal". E a entrevista em que António Esteves, apresentado como ex-desportista de elite e actual partner do banco, revelava ao Expresso da semana passada os planos que eles têm para Portugal era de dei­xar em estado de alerta quem quer que conheça a história desse grande preda­dor global que é a Goldman Sachs. Qua­se se pode dizer que o que é bom para a Goldman Sachs é fatalmente mau para os países onde eles fazem negócios, pa­ra os seus consumidores e contribuin­tes. Pois que, como diz António Este­ves, "a Goldman é um banco muito di­reccionado para a performance". Isto é, não está especialmente interessado em financiar a economia dos países on­de se instala, mas em realizar o máxi­mo de lucros no mínimo de tempo. Que o digam os gregos ou os america­nos, que o diga a Comissão Europeia que acaba de a multar por manipula­ção das taxas Euribor, em cartel com outros tubarões da banca internacio­nal, que o diga a história desta crise mundial, onde a Goldman Sachs de­sempenhou um papel à altura dos seus pergaminhos. Agora que 250.OOO portugueses paga­ram com o desemprego e outros tantos com a emigração as políticas devastado­ras impostas pelo resgate a que fomos obrigados em consequência da crise ex­portada a partir dos EUA para o mun­do inteiro e causada pela ganância cri­minosa de bancos como a Goldman Sachs; agora que o resgate estilhaçou a legislação laboral, tornando qualquer novo emprego um trabalho precário e fazendo recuar dez anos o nível das re­munerações salariais; agora que o Go­verno português, fiel executante do que chamam o "processo de ajustamento da economia portuguesa", vende tudo o que é empresa estatal lucrativa, sem qualquer salvaguarda do interesse pú­blico; agora que as grandes empresas privadas, outrora chamadas "campeões nacionais", ou se expatriaram ou foram descapitalizadas por taxas de juro ban­cárias insustentáveis, praticadas pelas Goldman Sachs deste capitalismo de ra­pina; agora que, enfim, Portugal se tor­nou barato, vulnerável e indefeso, Antó­nio Esteves, como grande quadro ban­cário que é, repara que aqui "há oportu­nidades muito interessantes para os in­vestidores que estão à procura de acti­vos que lhes dêem mais retorno vis-à-vis com o resto da Europa". Foi isso que eles já fizeram, tornando-se o maior accionista privado dos CTT, na recente privatização levada a cabo pelo Governo. E isso é apenas o princípio, pois, como ele diz, "olhamos com mui­tos bons olhos para Portugal". Não contribui muito para me sosse­gar a notícia da contratação de José Luís Arnaut pela Goldman Sachs — na­quilo que suponho ser a primeira conse­quência prática da nova política do ban­co para Portugal, definida por António Esteves como assentando no "investi­mento em pessoas e talento". Desco­nhecendo eu qualquer talento ou expe­riência bancária de Arnaut, resta o seu talento — esse, sim, por todos reconhe­cido — no capítulo "pessoas". Tal como Miguel Relvas, outro notável talento em "pessoas", o novo "conselheiro" da Goldman Sachs, José Luís Arnaut, tem a capacidade de chegar às pessoas que interessam, utilizando um inestimável património, trabalhado com mestria anos a fio, e que no ramo se chama "lis­ta de contactos" — dos que atendem o telefone. Trata-se de uma próspera acti­vidade em qualquer lugar do mundo, mas sobretudo em países como Portu­gal, onde tudo pode ser vendido, con­cessionado, facilitado, negociado, e on­de a intimidade com o poder é a chave dos grandes negócios. Estes profissio­nais são bem designados pela deliciosa expressão que um amigo de Relvas en­controu para caracterizar a sua actual actividade: "um facilitador de negó­cios". O "facilitador de negócios", às ve­zes também designado por outras ex­pressões mais cruas ou menos elegan­tes, é alguém que tem a capacidade de fazer poupar tempo e desembrulhar dossiês complicados, encontrando sem­pre um vendedor para um comprador, um decisor para um interessado. José Luís Arnaut é, neste aspecto, um ás de trunfo para a Goldman Sachs: basta di­zer que não houve privatização feita por este Governo em que ele não tenha estado presente, representado ou os "investidores" face ao Estado ou o Esta­do face aos "investidores" — o que diz muito sobre a sua capacidade de acro­bacia negocial e ausência de estados de alma nocivos e deslocados. Não pen­sem que é fácil ou que qualquer um po­de chegar a um tão elevado estatuto na distinta profissão de facilitador de negó­cios. Não é essencial ter estado na políti­ca, mas é indispensável dormir com a política, sem olhar a camas. Embora a filiação num grande escritório de advo­cacia de tráfico de influências seja im­portante como porta de entrada, há ou­tras formas de lá chegar que não requerem sequer qualquer habilitação acadé­mica ou título profissional, como Rel­vas bem ilustra: uma agenda de contac­tos irrepreensível vale mais do que qual­quer PhD ou o nome no papel timbrado de uma sociedade de advogados. É ain­da necessário que essa agenda não se limite a conter o nome de políticos de um governo, pois que os governos vão mudando, enquanto que o essencial dos contactos deve permanecer na agenda: "jotinhas" do "arco da governa­ção", líderes emergentes da oposição, alguns autarcas de concelhos atracti­vos, académicos e técnicos tantas vezes necessários para dar credibilidade às pretensões, professores de direito para venderem pareceres, jornalistas para colocarem notícias ou opiniões a troco de um pagamento adequado. E é neces­sário também evitar que se aposte tudo apenas num nome em cada momento, para não acontecer o que aconteceu a Relvas, quando o seu grande contacto brasileiro, José Dirceu, acabou em des­graça atrás das grades. É um trabalho de filigrana, que exige inteligência, tac­to, cautela e capacidade de observação, muitos pequenos-almoços, muito salão, muita gravata Hermès. No fim de tudo isto, garantidos "os talentos e as pes­soas" certas, a Goldman Sachs pode di­zer, pela boca do seu partner António Esteves: "Portugal é um risco de que gostamos". Compreende-se o gosto, não se percebe é o risco.
Quando questionado sobre a sua omnipresença em todos os processos de privatizações, José Luís Arnaut defende-se atacando o miserabilismo dos crí­ticos e louvando-se de ter ajudado a tra­zer para Portugal milhares de milhões de "investimento externo". É um ponto de vista de quem acha que toda venda de bens públicos ao exterior é um inves­timento e bem-vindo. Mas, na mesma edição do Expresso da semana passa­da, um painel de economistas, professo­res e gestores defende exactamente o contrário, criticando o que se privati­zou e a forma como foi feito, chamando a atenção para a perda de poder de de­cisão alienado ao estrangeiro, para a perda de dividendos para o Estado e pa­ra a perda de lugares qualificados para portugueses nas empresas vendidas. Não é inocentemente que os progra­mas da troika para Portugal, Grécia e Irlanda insistiam tanto nas privatiza­ções, E não foi por capricho que mes­mo o governo de direita de Rajoy tudo fez para evitar a receita da troika em Espanha.
Quando acontecer o 1640 de Paulo Portas, marcado para 17 de Maio, só por inconsciência ou por conveniência se poderá dizer que recuperámos parte da nossa soberania. Apesar das privati­zações (justificadas para a diminuir), a dívida pública terá aumentado, mas, por via delas, Portugal terá alienado quase tudo o que, no sector económico, público ou privado, caracteriza um país soberano. A produção de electricidade foi vendida a uma empresa estatal chi­nesa, a distribuição dada em monopó­lio a chineses e árabes, parte substan­cial da banca e dos combustíveis vendi­dos a angolanos, os cimentos e as tele­comunicações aos brasileiros, os aero­portos aos franceses, a única compa­nhia aérea prestes a ser vendida a quem mais der, os correios aos america­nos da Goldman Sachs ou clientes seus, um terço do mercado de seguros tam­bém aos chineses e o próprio forneci­mento de água, o mais essencial de qualquer bem público, pronto a ser con­cessionado a quem os "facilitadores de negócios" determinarem. Se isto vai ser um país soberano, eu prefiro que voltem os Filipes. EXPRESSO 18/JAN/2014
 http://www.leituras.eu/out.php?u=http%3A%2F%2Fcadernosdalibania.blogspot.pt%2F2014%2F01%2Fos-facilitadores.html
 

segunda-feira, junho 16, 2014

quarta-feira, junho 04, 2014

Uma excelente notícia!

A crise no PS – uma excelente notícia!

A crise do país, como a da Europa, é a crise de lideranças, a submissão de 27 Estados aos ditames da senhora Merkel.
        
Esta anémica vitória do Partido Socialista era um fracasso anunciado, assim como era de prever as reacções de alguns militantes e notáveis do partido ao “avanço”de António Costa: os titubeantes, apanhados de surpresa e que preferem esperar para ver, os que se precipitaram e agora têm de se esconder para ter tempo de mudar de fato, os ex-críticos, mas que, “pelo seguro”, decidiram apoiar o secretário-geral a troco de uma sinecura no Parlamento Europeu.
Foi penoso ver Ana Gomes, na SIC, defender a continuidade do “líder”, contra as evidências que João Galamba lhe pôs à frente, ela que tem boas razões de queixa de Seguro, que abandonou o heróico presidente da Câmara de Viana à sua sorte, enquanto sozinha processava o ministro pelo obscuro processo que conduziu à entrega dos Estaleiros à Martifer. Foi doloroso ouvir João Soares dizer o que disse do seu camarada António Costa, sem se precaver contra inevitáveis interpretações freudianas das suas declarações. Os outros, Francisco Assis, Alberto Costa, Álvaro Beleza e alguns anónimos limitaram-se a confirmar o seu triste voto de fidelidade ao “líder” em exercício e a agarrar-se aos estatutos, como a uma bóia de sobrevivência.
Quanto às tristes peripécias estamos conversados. Seguro é um “líder” a prazo, um patético sobrevivente, um homem que passou a viver, desde segunda-feira, barricado no Rato, assombrado pela sua própria sombra. Vamos à substância.
Desde a grande manifestação popular de 15 de Setembro de 2012, sobretudo desde a demissão de Gaspar, a cambalhota de Portas e a tentativa patética de Cavaco para mostrar que estava vivo, qualquer líder do PS teria levado o país para eleições antecipadas e ganho com maioria absoluta. Desde então até agora, o descontentamento aumentou, pelos atentados diários aos direitos dos cidadãos, pelas mentiras do Governo, pela vil abdicação da nossa soberania, pelo caminho aberto para o abismo. Seguro assistiu a tudo, paralisado e impotente, fazendo os serviços mínimos: umas proclamações semanais no Parlamento, umas declarações avulsas garantindo vagamente que o país não aguentava mais austeridade. Quando era preciso aparecer, escondeu-se. No caso dos Estaleiros, na privatização dos CTT, em todos os casos em que a soberania do país e os direitos das pessoas estavam em causa, deixou esse papel ao PCP, ao BE, à CGTP e a cidadãos que, em desespero, multiplicavam as petições nas redes sociais.
Pretender que foi uma vitória eleitoral, quando cativou apenas 10% do descontentamento dos portugueses (menos do que o número de desempregados!), exigir eleições antecipadas, quando, pelas mesmas razões, devia ser o primeiro a exigi-las no seu partido, pretender que este resultado é a projecção antecipada do que serão as legislativas, sem explicar com quem se iria associar no governo para resolver o imbróglio de não ter conseguido uma maioria, é um prenúncio do desastre que seria se, a exemplo de Hollande, este jovem inexperiente e incapaz de decidir alguma vez chegasse a S. Bento. A defesa disfarçada que a coligação fez da “sua vitória” na noite das eleições devia bastar para nos elucidar.
O país vive a maior crise da sua História, depois da que antecedeu a proclamação do Mestre de Aviz, de Alcácer Quibir, de meio século de ditadura, porque aceitou por descuido que lhe roubassem a soberania, e que uma geração de políticos de aviário e um presidente mumificado lhe viessem dizer que não havia alternativa, que a culpa foi dos outros e que tínhamos de nos resignar à miséria e à escravidão. A crise do país, como a da Europa, é a crise de lideranças, a submissão de 27 Estados aos ditames da senhora Merkel, o que provoca um crescente nacionalismo isolacionista e antidemocrático na sua versão mais assustadora.
António Costa é alguém que já provou ser capaz de gerar consensos sem abdicar dos princípios. No estado em que está o país e a UE, é um acto de coragem e de patriotismo ter desafiado a liderança do PS. Mas a sua vitória pode também abrir caminho a que, no PSD e no CDS, possa emergir um idêntico apelo de fundo dos militantes que guardam um resto de dignidade e um assomo de patriotismo, para que mudem as lideranças e as orientações dos seus partidos.
Somos um pequeno país no concerto das nações europeias, que, em 1992, se deixaram enredar na teia de uma globalização sem freio e sem regras, na miragem de uma Europa federal alargada, em nome de uma paz duradoura e da mirífica coesão solidária dos Estados. Passos Coelho e a sua ministra das Finanças, com a cumplicidade de Portas, de Cavaco e de 108 deputados, quiseram fazer-nos crer que a destruição do Estado social e a venda do património eram a factura inevitável que a Europa nos cobrava por ter financiado a nossa integração, e o castigo da nossa apregoada nonchalance. Mas somos também o mais velho país da Europa, que deu provas de saber conviver com outros povos e outras culturas sem abdicar de prezar a sua independência.
Não é fácil governar um país, nesta Europa que se desfaz aos bocados, aprisionada pela lógica predadora do capitalismo global e pela gestão burocrática dos seus alegados interesses. Mas há que tentar. O gesto de António Costa é uma promessa arriscada: para ele e para nós. Porque a esperança gasta-se a cada nova decepção. Mas há que confiar que é possível mudar de política e, sobretudo, de atitude. Há que estabelecer os limites do tolerável, que encontrar alternativas à austeridade, que tomar medidas que devolvam a esperança no Estado, a confiança na Justiça e na solidariedade entre gerações. Sobretudo, há que falar verdade e repor a credibilidade na política e a confiança nos nossos representantes. Como disse Giraudoux: “A Pátria está em perigo, mas, se calhar, esse perigo é o que nos resta da Pátria.”
 
http://www.publico.pt/politica/noticia/a-crise-no-ps--uma-excelente-noticia-1638083
 

segunda-feira, maio 26, 2014

Lavandaria


Hoje cheguei ao local do trabalho como se não percorrido o habitual trajecto casa-trabalho. Não me lembro de ter percorrido tal caminho. O piloto automático funcionou.
Arrefeceu um pouco esta primavera. O céu de tom cinzento plúmbeo diz que vai chover. A sirene da fábrica arrebita os braços e as mente para os ruídos e sons do trabalho que começam a afinar e a executar a ritmada sinfonia do laboro.
Recordo ter vindo a ouvir a música de J. S. Bach, ritmos usados antes dos actuais marcados pela máquina e lembro que revisitei o armário das memórias, servi-me do olvidar do trajecto como limpeza de memórias de passados e pessoas inseguras que me trazem as tais, de muitos que tenho ouvido, energias negativas. Lentamente as empurro borda fora e, à mediada que o seu espaço por elas ocupado no armário diminui, melhor me sinto.
Não sendo dos meus interesses, não poderão fazer companhia de estrada. Além de me roubar essa tal energia, colam-me uma sensação de ressentimentos de ordens várias e estranhas, ou mesmo uns resquícios de culpa. Lentamente tudo para fora do armário das memórias e não me levem nas memórias. Eu sigo o meu caminho.
Vai começar a chover, não tarda nada.

quinta-feira, maio 15, 2014

Os novos e os velhos maoístas


Os novos e os velhos maoístas
Eu ainda sou do tempo em que havia em Portugal um partido irmão do Partido Comunista da China, era o nosso PCP-ml o partido que os chineses reconheciam como o partido da vanguarda da classe operária portuguesa. Era uma das várias organizações ML que deram ao país uma boa parte dos seus actuais políticos. Curiosamente, o seu líder era um tal Eduíno Vilar que durante anos deixou de ser visto, para ressuscitar num congresso do PSD ocorrido no Coliseu dos Recreios em Lisboa, onde deu nas vistas por causa de um qualquer incidente. Não sei se faz parte da imensa comitiva medieval que serviu de corte aos nossos monarcas da Quinta da Conchas, mas era da mais elementar justiça ter sido convidado.
  
E quando o Eduíno Vilar era o tuga que representava o puro comunismo maoísta o metalúrgico Jerónimo de Sousa era o modelo de comunista na versão soviética, nesse tempo ao mesmo tempo que a URRS trocava tiros na fronteira com a República Popular da China e o Vietname pró-soviético expulsava os khmers vermelhos pró-chineses do Cambodja por cá o Eduíno seguia a linguagem do MRPP de Durão Barroso e chamava social-fascista ao Jerónimo e este respondia designando os ML por pequena burguesia radical. Era o tempo em que a camarada Zita Seabra, o modelo de mulher comunista, peluda e a cheirar a cavalo, liderava um MJT, uma espécie de milícia do PCP, numa batalha épica com o MRPP que destruiu a biblioteca do ISE.
  
Por vezes o destino é mesmo irónico e a orgulhosa direita portuguesa vai hoje a Pequim passar a mão no pêlo dos perigosos comunistas nascidos na revolução cultural chinesa e moldados na repressão mortífera dos manifestantes da Praça da Paz Celestial. Mas isso aconteceu muito antes das primavera árabes ou das manifestações de Kiev e agora os comunistas chineses são bem-vindos, eles e o seu dinheiros conseguindo à custa de dumping social e de um dos sistemas mais repressivos do planeta.
  
A admiração da direita pelos chineses é tanta que até o Eduardo Catroga decidiu prolongar a sua dedicação ao país, depois de ter trabalhado a título gratuito na produção do memorando com a troika decidiu perder dinheiro ao prescindir das suas pensões para ganhar muito menos na EDP. Por este andar ainda terá lugar reservado no próximo congresso do PC chinês, como representante da zona económica da Praça Marquês de Pomba, onde se situa a sede maior empresa chinesa da Europa.
  
Um dia destes ainda vamos ver Eduíno Vilar, Jerónimo de Sousa, Durão Barroso concluírem que aquilo que os une aos chineses é muito mais do que os que os divide em Portugal e superarem as suas divergências políticas. Enfim, não é nada que já não aconteça em muitas autarquias, para não referir o silêncio do PCP em torno do negócio da EDP ou de qualquer interesse chinês no capitalismo português. O amor aos chineses, o ódio ao PS, o desprezo pelo Dalai Lama, os projectos comuns nas autarquias, os jeitos parlamentares no derrube de governos não maoístas são mais razões mais do que suficientes para que um dia destes as correntes portuguesas se fundam num mesmo projecto político.
  
Da forma mais inesperada Portugal é governado por maoístas e o sucesso do maoísmo por estas bandas é tão grande que até conseguimos colocar um maoísta à frente da Comissão Europeia. Temos a direita com mais maoistas, temos os maoístas melhor colocados na política internacional à escala mundial, temos o maior partido comunista pró-chinês da Europa e talvez mesmo do mundo ocidental. Só falta mesmo sugerir a união de todos os pró-chineses no mesmo partido e a geminação de Portugal com a República Popular da China.
 

http://jumento.blogspot.pt/2014/05/os-novos-e-os-velhos-maoistas.html?fb_action_ids=637081843042195&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=%5B725769147462565%5D&action_type_map=%5B%22og.likes%22%5D&action_ref_map=%5B%5D

terça-feira, maio 13, 2014

Uma questão cultural


A mensagem ideológica que mais tem passado nas reportagens televisivas destes últimos dias de Maio tem sido a valorização e resignação da pobreza.
Eu partilho da ideologia cultural na abertura das pessoas e dos povos contra a pobreza individual e colectiva.

segunda-feira, maio 12, 2014

Ajudas a Portugal e Grécia foram resgates aos bancos alemães


É incorrecta a narrativa que os alemães contaram a si próprios de que a crise do euro teve a ver com o Sul a querer levar o dinheiro deles, diz ex-conselheiro de Durão Barroso.

Philippe Legrain, ex-conselheiro do actual presidente da Comissão Europeia DR

Philippe Legrain, foi conselheiro económico independente de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, entre Fevereiro de 2011 e Fevereiro deste ano, o que lhe permitiu acompanhar por dentro o essencial da gestão da crise do euro. A sua opinião, muito crítica, do que foi feito pelos líderes do euro, está expressa no livro que acabou de publicar “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”.
A tese do seu livro é que a gestão da crise da dívida, ou crise do euro, foi totalmente inepta, errada e irresponsável, e que todas as consequências económicas e sociais poderiam ter sido evitadas. Porque é que as coisas se passaram assim? O que é que aconteceu?
Uma grande parte da explicação é que o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro. Foi por isso que, quando a crise financeira rebentou, foram todos a correr salvar os bancos, com consequências muito severas para as finanças públicas e sem resolver os problemas do sector bancário. O problema tornou-se europeu quando surgiram os problemas da dívida pública da Grécia. O que teria sido sensato fazer na altura – e que era dito em privado por muita gente no FMI e que este acabou por dizer publicamente no ano passado – era uma reestruturação da dívida grega. Como o Tratado da União Europeia (UE) tem uma regra de “no bailout” [proibição de assunção da dívida dos países do euro pelos parceiros] – que é a base sobre a qual o euro foi criado e que deveria ter sido respeitada – o problema da Grécia deveria ter sido resolvido pelo FMI, que teria colocado o país em incumprimento, (default), reestruturado a dívida e emprestado dinheiro para poder entrar nos carris. É o que se faz com qualquer país em qualquer sítio. Mas não foi o que foi feito, em parte em resultado de arrogância – e um discurso do tipo ‘somos a Europa, somos diferentes, não queremos o FMI a interferir nos nossos assuntos’ – mas sobretudo por causa do poder político dos bancos franceses e alemães. É preciso lembrar que na altura havia três franceses na liderança do Banco Central Europeu (BCE) – Jean-Claude Trichet – do FMI – Dominique Strauss-Kahn – e de França – Nicolas Sarkozy. Estes três franceses quiseram limitar as perdas dos bancos franceses. E Angela Merkel, que estava inicialmente muito relutante em quebrar a regra do “no bailout”, acabou por se deixar convencer por causa do lobby dos bancos alemães e da persuasão dos três franceses. Foi isto que provocou a crise do euro.
Como assim?
Porque a decisão de emprestar dinheiro a uma Grécia insolvente transformou de repente os maus empréstimos privados dos bancos em obrigações entre Governos. Ou seja, o que começou por ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar os bancos, acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa entre países credores e países devedores. E em que as instituições europeias funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores. Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.
Quando diz que os Governos e instituições estavam dominados pelos bancos quer dizer o quê?
Quero dizer que os Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos como campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com ligações financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta entre bancos e políticos. No meu livro defendo que quando uma pessoa tem a tutela de uma instituição, não pode ser autorizada a trabalhar para ela depois.
Também diz no seu livro que quando foi conselheiro de Durão Barroso, o avisou claramente logo no início sobre o que deveria ser feito, ou seja, limpar os balanços dos bancos e reestruturar a dívida grega. O que é que aconteceu? Ele não percebeu o que estava em causa, ou percebeu mas não quis enfrentar a Alemanha e a França?
Sublinho que isto não tem nada de pessoal. O presidente Barroso teve a abertura de espírito suficiente para perceber que os altos funcionários da Comissão estavam a propôr receitas erradas. Não conseguiram prever a crise e revelaram-se incapazes de a resolver. Ele viu-me na televisão, leu o meu livro anterior (*) e pediu-me para trabalhar para ele como conselheiro para lhe dar uma perspectiva alternativa. O que foi corajoso, e a mim deu-me uma oportunidade de tentar fazer a diferença. Infelizmente, apesar de termos tido muitas e boas conversas em privado, os meus conselhos não foram seguidos.
Porquê? Será que a Comissão não percebeu? A Comissão tem a reputação de não ter nem o conhecimento nem a experiência para lidar com uma crise destas. Foi esse o problema?
Foram várias coisas. Claramente a Comissão e os seus altos funcionários não tinham a menor experiência para lidar com uma crise. Era uma anedota! O FMI é sempre encarado como a instituição mais detestada [da troika], mas quando foi juntamente com a Comissão à Irlanda, as pessoas do FMI foram mais apreciadas porque sabiam do que estavam a falar, enquanto as da Comissão não tinham a menor ideia. Por isso, uma das razões foi inexperiência completa e, pior, inexperiência agravada com arrogância. Em vez de dizerem “não sei como é que isto funciona, vou perguntar ao FMI ou ver o que aconteceu com as anteriores crises na Ásia ou na América Latina”, os funcionários europeus agiram como se pensassem “mesmo que não saiba nada, vou na mesma fingir que sei melhor”. Ou seja, foram incapazes e arrogantes. A segunda razão é institucional: não havia mecanismos para lidar com a crise e, por isso, a gestão processou-se necessariamente sobretudo através dos Governos. E o maior credor, a Alemanha, assumiu um ponto de vista particular. Claro que isto não absolve a Comissão, porque antes de mais, muitos responsáveis da Comissão, como Olli Rehn [responsável pelos assuntos económicos e financeiros], partilham a visão alemã. Depois, porque o papel da Comissão é representar o interesse europeu, e o interesse europeu deveria ter sido tentar gerar um consenso de tipo diferente, ou pelo menos suscitar algum tipo de debate. Ou seja, a Comissão poderia ter desempenhado um papel muito mais construtivo enquanto alternativa à linha única alemã. E, por fim, é que, embora seja politicamente fraca, a Comissão tem um grande poder institucional. Todas as burocracias gostam de ganhar poder. E neste caso, a Comissão recebeu poderes centralizados reforçados não apenas para esta crise, mas potencialmente para sempre, que lhe dão a possibilidade de obrigar os países a fazer coisas que não conseguiram impor antes. É por isso que parte da resposta é também uma tomada de poder.

http://www.publico.pt/economia/noticia/ajudas-a-portugal-e-grecia-foram-resgates-aos-bancos-alemaes-1635405

domingo, maio 04, 2014

A limpeza da saída. Este país não é para velhos. Este país não é para novos. É para quem não tem sentido crítico, para quem tem estômago de avestruz e memória de peixe. Este país dificilmente será para mim. Reservo-me novamente o direito de me sentir indignada e desejo que um dia a história me dê algum suporte. Mas creio que este país não seja para quem deseje. Mas vai ser de quem luta.
Com Marta Ribeiro

terça-feira, abril 22, 2014

40 anos depois

Pacheco Pereira "Quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril"
40 anos depois da revolução, nenhuma decisão é tomada pelo governo e o parlamento contra os interesses dos banqueiros

Pacheco Pereira organizou a exposição da Assembleia da República que assinala os 40 anos da Revolução. A ideia presente no trabalho é a da construção da democracia num processo de conflito que ainda não acabou. Falemos então disso.
Em entrevista ao i, o secretário de Estado Pedro Lomba afirmou que a acção do governo está a recuperar "o espírito do 25 de Abril inicial". Concorda?
O senhor secretário de Estado Pedro Lomba não faz a mínima ideia do que foi o 25 de Abril . Essa tentativa à posteriori de encontrar na acção do actual governo alguma coisa que tenha a ver com as condicionantes e as circunstâncias do 25 de Abril é do domínio da ficção política.
Mas não pode haver um ponto de vista de uma direita liberal que considere que a "libertação" da economia de um suposto domínio do Estado é algo que podia estar contido no 25 de Abril e que teria sido abastardado pelo processo revolucionário?
Mas eu não vejo é qualquer libertação da economia em relação ao Estado, bem pelo contrário, vejo um Estado que exerce uma pressão fiscal sobre os cidadãos como nunca se viu. Um Estado que utiliza o fisco no limite das liberdades e no limite dos direitos: inverte o ónus da prova e que trata das pessoas de uma maneira inaceitável. Há uma cultura de prepotência perante o cidadão comum. Mais, há até a entrada num domínio perigoso: Se hoje houvesse uma polícia política ela nem precisaria de nova legislação, bastava consultar o fluxo de facturas do fisco, para saber o que eu faço o dia inteiro: o que eu como, o que eu consumo. Cruzando com os dados do multibanco, tudo estaria disponível. Como nós não temos uma cultura contra estes abusos do Estado, que muitas vezes existem apenas para esconder a sua incompetência e negligência, naquilo que devia ser a verdadeira função do fisco: a máquina do Estado parece ineficaz em relação aos poderosos que devem milhões de euros, permitindo a prescrição dessas cobranças, mas isso não retira, os poderosos, das mesas de convívio dos políticos, enquanto que qualquer desgraçado que deva 200 ou 300 euros ao fisco, fica com a vida completamente destruída.
Mas essa cultura vai para além da administração fiscal?
O fisco é apenas um exemplo, a maneira como muitos dos processos económicos são dirigistas, nalguns aspectos ainda mais que no maior dos pesadelos do socialistas, a dissolução de direitos sociais e de aquilo que são garantias da própria sociedade, são factores que reforçam o Estado.
Mas de qualquer forma não assistimos a um processo de privatização do sector empresarial do Estado?
As privatizações seriam legítimas num Estado democrático se fossem efectivamente transparentes. O que acontece é que o processo de privatizações não é de todo transparente, apesar da comunicação social ter repetido, sem verificar, as auto-afirmações de transparência dos membros do governo. Repare que foi preciso esperar muito tempo, para saber, na privatização mais importante, a da EDP, que não só incluía obrigações do Estado que não era conhecidas à época da privatização, como há todo um conjunto de práticas de inside trading durante esse processo. Por exemplo, a REN, activo que qualquer Estado enumera na sua reserva estratégica, foi privatizada com o ridículo da lei destinada a proteger todas as áreas estratégicas só ter aparecido depois de se terem verificado todas essas privatizações importantes.
Mas isso é uma crítica às privatizações
A crítica não é sobre privatizar, mas o que o Estado privatiza e como o faz. E, sobretudo, o facto de privatizar dentro de um círculo de poder nefasto para a nossa democracia. O círculo de poder daquelas pessoas que saltitam entre os escritórios de advogados, as consultoras financeiras, a vida política, os bancos e grandes grupos nacionais. Neste processo aparecem, ao mesmo tempo, como responsáveis pela venda e responsáveis pela compra. E em alguns casos as comissões de acompanhamento que foram criadas só reúnem depois do processo estar decidido, e em muitos casos enunciam a circunstância, que pelos vistos parece natural, que muitas empresas foram vendidas sem sequer haver uma avaliação sobre o seu valor.
Este tipo de comportamentos não justifica os resultados de uma sondagem do i sobre as elites, em que os pronunciados consideram que os políticos da ditadura eram mais honestos e preparados que os governantes actuais?
Essa sondagem tem dois aspectos: uma denúncia da corrupção actual e da percepção que as pessoas têm da corrupção e, por outro lado, revela uma ignorância sobre o passado, que resulta em grande parte da protecção que a censura deu aos políticos do antigo regime: quem conhece os documentos da censura sabe que o mundo da corrupção económica, da violência, da pedofilia, de uma perturbação quase endémica da sociedade portuguesa existia antes do 25 de Abril, era escondido. As pessoas tendem a mitificar esse passado, como sendo um tempo sem crime, nem violência e corrupção, quando de facto não era assim.
Os grandes grupos económicos que prosperaram no antigo regime e foram protegidos pelas leis do condicionamento industrial dominam grande parte da nossa economia actual. Isso não faz que do ponto de vista das elites e do poder estejamos numa situação muito semelhante?
Não, não penso. Na análise que se faz antes do 25 de Abril e depois, eu nunca me centro naquilo que se apelida de regime económico, se quiser acerca de como funciona a economia capitalista. Centro-me, em primeiro lugar, na questão das liberdades e do escrutínio. A democracia exige o primado da lei. As pessoas muitas vezes pensam que a democracia é apenas o voto, não: são as eleições e o primado da lei. Os problemas que eu levanto em relação às privatizações é a constituição dessa elite blindada, que se desloca de ministro para administrador, de uma grande empresa ou de um escritório de advogados, que presta serviços aos governo na mesma área que fez a privatização. Isso é que é grave, porque tem que haver uma clara separação entre quem decide sobre o bem público e quem é beneficiado do ponto de vista económico com a sua venda. O que não existe em Portugal, e isso é muito preocupante para a democracia. É preciso uma clara separação entre quem decide e o poder económico.
Mas isso não era o que acontecia anteriormente?
Não é bem assim. Eu não gosto de comparar situações pouco comparáveis: o próprio condicionamento industrial tinha muitos críticos no antigo regime e ele foi feito para proteger duas ou três indústrias pesadas que se consideravam necessárias para a independência e soberania portuguesa.
O facto do condicionamento industrial ter gerado em Portugal uma situação de concentração económica bastante superior ao nível de desenvolvimento do país, enormíssimos grupos económicos muito poderosos, e o facto desses grandes grupos continuarem poderosos hoje, não condiciona a democracia?
Com excepção da banca, os maiores grupos económicos portugueses de hoje não vêm do condicionamento industrial: estão no sector da distribuição, estão ligados a actividades industriais mais recentes e alargaram-se para os sectores de serviços. Não há uma continuidade entre o mundo económico do salazarismo e o actual. Não significa que não haja problemas económicos gravíssimos de subordinação e da captura, mesmo em alguns casos, do poder político pelo poder económico: nenhuma decisão é tomada no governo e na Assembleia da República que afecte os interesses da banca. Há uma espécie de barreira invisível e mesmo coisas que são de algum bom senso, como por exemplo a maneira como a banca avalia as casas dos empréstimos de habitação, e depois face à ruptura de pagamentos, considera que a sua avaliação não tem nenhum papel em relação ao valor que atribuiu à casa. Estes factos devem ser corrigidos. A banca deve ser responsabilizada pela avaliação especulativa do valor das habitações. Este tipo de coisas é que mostram que, do ponto de vista legislativo, há uma barreira invisível que protege a banca.
Aquilo que lhe estava a colocar é que há duas interpretações extremas sobre o 25 de Abril e o processo revolucionário. Há pessoas mais à esquerda que afirma que havia um poder económico que foi construído no fascismo, que para haver democracia esse poder deve ser derrubado, e que de alguma forma esse poder é dominante novamente nos dias de hoje. Há uma segunda narrativa, mais à direita, daqueles que afirmam que a democracia se fez contra o PREC [Processo Revolucionário em Curso], que garante que havia um poder militar revolucionário, que esse poder realizou as nacionalizações e que para haver democracia isso tem que ser invertido e o Estado retirado da economia. Estes discursos têm sentido?
Eu não penso que as coisas sejam tão a preto e branco. Quando analiso os objectivos do 25 de Abril, sempre considerei que o desenvolvimento dos 3 D [Democratizar, Descolonizar e Desenvolver], do programa do MFA, era algo forçado. Não se pode impor a um regime político que vive do jogo democrático normal uma determinada ideia sobre o que é o desenvolvimento. Já pelo contrário acho que a melhoria das condições de vida é um objectivo fundamental de qualquer regime político e democrático. Eu também acho que foi fundamental terminar as chamadas conquistas da revolução: a reforma agrária, o controlo operário e as nacionalizações, que são resultado de uma situação revolucionária. Que tinham alguns aspectos punitivos, a exemplo que sucedeu em França no pós-Segunda Guerra Mundial: as empresas que tinham colaborado com os alemães foram nacionalizadas dentro desta ideia punitiva. Se for analisar até programas antigos do PCP e do MUNAF e MUD há a ideia dessas nacionalizações punitivas. Mas a verdade é que o período de 1974 e 75 podia ter ido para diferentes caminhos. E um deles era a criação de uma sociedade socialista, sem propriedade privada, com um poder político, que do meu ponto de vista, tinha que ser autoritário para manter essa estrutura de sociedade. Uma das grandes vitórias da sociedade portuguesa foi ter dissolvido esse tipo de antinomias entre 74 e 76. O acto principal não é o 25 de Novembro, como diz o CDS, é um conjunto de decisões: a substituição do Conselho da Revolução pelo Tribunal Constitucional, o fim da tutela dos civis pelos militares, as sucessivas revisões constitucionais, inclusive aquela que permitiu privatizar e criar uma economia de mercado, que é um elemento fundamental da democracia. Agora, isso não me leva a não ver que sobre a economia de mercado há hoje uma perigosa deriva no sentido de transformar aquilo que devia ser um jogo limpo da competição, entre empresas, numa tutela política e financeira em relação às principais decisões económicas. Entretanto os primeiros fautores da crise, que foram a banca e o poder económico e financeiro, são uns dos principais beneficiados, em termos de poder político, dessa mesma crise. É um processo que aconteceu em vários países. Criou-se uma espécie de barreira invisível de aço que faz que nenhuma decisão possa ser tomada contra os interesses do capital financeiro.
Defende que para haver democracia tem que haver economia de mercado, mas não é preciso haver uma maior igualdade entre os cidadãos? Somos dos países mais desiguais da Europa, mas nestes anos de crise isso ainda se reforçou mais.
A desigualdade social é um problema da nossa democracia. Mas na programação não-escrita da democracia não pode estar a igualdade por via administrativa, mas tem de estar o caminho para minorar essas desigualdades. Não se pode dizer que não há democracia quando não há igualdade, mas só pode haver democracia se houver um caminho para a minorar.
Mas esse plano não tem de ser um projecto político?
Tem que ser tudo. A história mostra que muitas vezes as coisas não são bem assim. Há coacções e limites que podem controlar isso.
Quais coacções e limites, basta ver a distribuição de comentadores televisivos, para perceber que este equilíbrio é precário. Parece que ser ex-líder do PSD dá acesso contratual a vir a ser comentador na TV.
Isso não é um problema apenas dos líderes do PSD, é uma característica desta situações, em que toda a gente, dentro deste círculo, tem a vida garantida. Se saírem do círculo passam para as trevas exteriores, mas dentro do círculo estão seguros. Isso tira qualquer risco da actividade política: podem ir para o Parlamento Europeu, para um conselho de administração...
Isso parece a ideia que circulava no tempo da República que a política era uma grande gamela.
É preciso ter cuidado com as generalizações. Mas é verdade que Portugal tem uma elevada percentagem das elites políticas que transitam entre o Estado e as empresas, o Estado e os grandes escritórios de advogados, o Estado e o poder financeiro, e o Estado e a burocracia europeia...
Mas qual seria a alternativa? Eles vão-lhe dizer que medidas que impedissem essa circulação, fariam que apenas aceitassem ser políticos os menos capazes...
Não acho que a política deva ser uma actividade profissionalizada, acho perigosa uma legislação que impeça que no parlamento as pessoas deixem de ter uma profissão, por uma razão muito simples. Essas pessoas deixam de ter capacidade de dizer "não". E a gente vê o efeito que esse tipo de situações tem nas juventudes partidárias: as pessoas que não têm profissão ficam dependentes dos aparelhos partidários para sobreviverem, e perdem a capacidade de dizer que não. Eu sou a favor da constituição de uma comissão de ética, independente das maiorias partidárias, e com poderes reais. Esse tipo de prática existe em vários países e é muito mais eficaz do que o somatório de legislação avulsa sobre incompatibilidades. É isso que os partidos não querem. Não querem uma comissão de ética que lhes escape ao controle.
Há gente que veicula a ideia que a democracia foi construída contra o PREC, concorda?
Não. Na exposição que eu organizo na Assembleia não parto do princípio que haja uma interpretação unívoca do PREC. No período revolucionário realizaram-se quatro eleições: constituintes, legislativas, autárquicas e presidenciais. Só isso já nos levava a olhar de uma outra maneira para os acontecimentos. O PREC é o resultado de um tumulto que era inevitável ao fim de 48 anos de ditadura. A ideia que, depois do dia inicial e limpo, as coisas pudessem ser higiénicas é irrealista. Era inevitável que as coisas fossem complicadas e tumultuárias. Eu não direi que a democracia nasceu do PREC, mas direi que a democracia nasceu no PREC. Não entendo que seja possível, e nesta exposição eu faço o esforço para evitar projectar o politicamente correcto actual sobre o passado. Aquilo que se pretende mostrar na exposição foi que as instituições democráticas e a própria vitória da democracia, mesmo em relação aos protagonistas que eventualmente se batiam por outras soluções, foi construída durante esse tempo: o processo democrático normalizou-se mais tarde que 74 e 76, mas começou a ser construído no PREC. E começou no PREC, porque é evidente, quer se queira quer não, que houve uma certa alegria da liberdade e é inevitável que isso conduzisse a excessos. E não adianta penar sobre isso, de modo geral quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril. O PREC teve excessos e houve mortos e gente que mandou matar, mas a verdade é que foi naqueles anos turbulentos que nasceu a democracia portuguesa. Chamo a atenção para os processos eleitorais, que decorreram em liberdade, nunca houve nenhuma queixa. Quando as pessoas votaram no PS ou quando anos mais tarde votaram na AD [Aliança Democrática coligação do PSD, CDS, PPM e Renovadores, dirigida por Sá Carneiro] permitindo a primeira mudança significativa do poder no pós 25 de Abril, fizeram-na em liberdade. E essa liberdade nasceu da revolução do 25 de Abril. Em história as revoluções não são higiénicas.
No romance de Lídia Jorge, "Os Memoráveis", sobre o 25 de Abril, fala-se em 5000 protagonistas da revolução. Na sua exposição há um painel com 200. Essa ideia de protagonistas principais não é um regresso a uma história das elites e esquece que numa revolução há uma população inteira nas ruas?
O resumo da história aos protagonistas, resulta muitas vezes numa história mítica: não se pode compreender o que sucedeu sem as pessoas e o povo. Vejamos, então aquelas pessoas que vieram para a rua, mais de 100 mil, quando Humberto Delgado foi ao Porto não tiveram um papel? Certamente que sim! O salazarismo nunca mais foi o mesmo depois desse momento.
Mas de alguma forma não é isso que você faz ao resumir a um painel com 200 pessoas?
A história é feita também com pessoas concretas. O 25 de Abril não foi apenas um golpe militar. Mas existiu esse golpe militar que tem por base reivindicações corporativas e duas franjas de politização contraditórias: uma que existia em certas áreas da Marinha e em homens como Melo Antunes, uma politização que vem beber em muitas coisas, nomeadamente ao Congresso Republicano de Aveiro, e há depois uma outra politizações ligada aos sectores spinolistas que pretendiam a manutenção federalista do império colonial, mas que têm, num certo sentido, ligações à chamada Ala Liberal do regime [onde pontificava Sá Carneiro e Pinto Balsemão]. São dois núcleos politizados. Quando ao golpe militar se sucede uma revolta popular, milhares de pessoas vieram à rua, às vezes com risco. Houve cargas policiais e mortos em frente à sede da Pide. Esses milhares nas ruas imediatamente começaram a condicionar o processo. Eu não acho que essas pessoas saíram porque o PCP ou a CDE as tivessem mandado sair. É um fenómeno, em grande parte, espontâneo, mas esse povo nas ruas começou a condicionar o processo. Não é possível fazer um painel de São Vicente, eu seleccionei 200 nomes para a exposição e no dia em que acabamos o painel reparei que me faltavam o Francisco Martins Rodrigues e o Vítor Cunha Rego, duas pessoas fundamentais. O painel que está na exposição não é o dos autores da democracia, mas as pessoas que tiveram intervenção neste processo tumultuário que se seguiu a uma calma artificial da ditadura.
Portugal é mesmo um país de brandos costumes devido à ditadura?
Quem diz isso não sabe história.
Nós tivemos as guerras liberais em que nos esfolávamos e matávamos alegremente, mas parece que nos tempos de hoje podem ferver-nos em cortes e impostos que nós apenas suspiramos...
É preciso ser-se muito prudente. De um momento para o outro as coisas podem mudar. Há factores como a censura e a cultura anti-conflito, que vigorou durante 48 anos. E uma das coisas mais perigosas nos tempos de hoje são certas ideias do poder que são eficazes: jovens contra velhos, ser velho é ter culpa e estar a roubar os mais novos; os trabalhadores públicos são privilegiados e os privados são as vítimas.
O Estado social é uma conquista das populações mas, por outro lado, ele aparece como uma garantia de um determinado consenso social. Com a destruição deste, podemos dar como adquirida a estabilidade do sistema?
De todo, não. A ideia de que não há direitos adquiridos e que a confiança não é um elemento fundamental na relação com os cidadãos - repare que só há confiança na relação com os credores - leva ao fim da coesão social. Verifica-se o deslaçamento da sociedade. É um discurso de divisão. Não conheço nenhum governo, na história portuguesa, que utilize por razões utilitárias o discurso da divisão social. E isto pode acabar mal

segunda-feira, abril 14, 2014

Quatro falácias da “Segunda Grande Depressão”



13 de Março de 2014 por As Minhas Leituras 

O período desde 2008 tem produzido um conjunto abundante de falácias económicas recicladas, a maioria saiu das bocas dos líderes políticos. Aqui estão as minhas quatro favoritas.
A dona de casa da Suábia. “Deveria ter-se perguntado simplesmente à dona de casa da Suábia”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, depois do colapso de Lehman Brothers em 2008. “Deveria ter-nos dito que não podemos viver gastando mais do que se ganha”.
Esta lógica que parece sensata sustenta actualmente a austeridade. O problema é que ignora o efeito da poupança da dona de casa sobre a procura total. Se todas as famílias cortarem os seus gastos, o consumo total diminuiria e, assim, também diminuiria a procura de mão-de-obra. Se o marido da dona de casa perder o emprego, a família ficaria numa situação pior do que estava antes.
O caso geral desta falácia é a “falácia da composição”: o que faz sentido para cada família ou empresa individualmente não dá necessariamente resultado para o bem de todos. O caso particular que John Maynard Keynes identificou foi o “paradoxo da poupança”: se todos tentarem poupar mais em períodos difíceis, a procura agregada desceria, baixando a poupança total devido à diminuição do consumo e do crescimento económico.
Se o governo tentar cortar o seu défice, as famílias e empresas terão que apertar os cintos e o resultado será uma redução dos gastos totais. Como consequência, contudo, e por muito que o governo corte os seus gastos, o seu défice vai diminuir pouco. Se todos os países perseguirem a austeridade simultaneamente, uma menor procura por bens de cada país provocará um menor consumo nacional e estrangeiro, levando a situação a piorar.
O governo não pode gastar dinheiro que não tem. Esta falácia – muitas vezes repetida pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron – apresenta os governos como se eles enfrentassem os mesmos constrangimentos orçamentais que as famílias ou empresas. Mas, os governos não são como as famílias ou empresas. Podem sempre obter o dinheiro de que necessitam emitindo obrigações.
Mas, não terá um governo cada vez mais endividado que pagar taxas de juros mais elevadas e, assim, os custos do serviço de dívida chegarão a consumir todas as suas receitas? A resposta é não: o banco central pode imprimir dinheiro extra suficiente para baixar o custo da dívida do governo. É o que a chamada “flexibilização quantitativa” (“quantitative easing”) faz. Com taxas de juro próximas de zero, a maior parte dos governos ocidentais não podem deixar de se endividar.
Este argumento não é aplicável a um governo sem o seu próprio banco central, caso em que enfrenta exactamente o mesmo constrangimento orçamental da já citada dona de casa da Suábia. É por isto que alguns estados membros da Zona Euro tiveram tantos problemas até que o Banco Central Europeu (BCE) os resgatou.
A dívida nacional representa tributação diferida. De acordo com esta falácia, muitas vezes repetida, os governos podem obter dinheiro emitindo obrigações mas, tendo em conta que as obrigações são empréstimos, estes terão – mais cedo ou mais tarde – de ser reembolsadas, o que só pode ser feito aumentando impostos. E, tendo em conta que os contribuintes assim o esperam, terão que poupar agora para pagar os seus impostos futuros. Quanto mais se endivida o Governo para pagar os seus gastos actuais, mais poupam as pessoas para pagar os impostos futuros, anulando qualquer efeito estimulante do endividamento extra.
O problema com este argumento é que os governos raramente são confrontados com a necessidade de “pagar” as suas dívidas. Podem escolher fazê-lo, mas a maior parte deles limita-se a refinanciá-las emitindo novas obrigações. Quanto maior for a maturidade das obrigações, menos frequentemente devem recorrer os governos aos mercados para obterem novos empréstimos.
Mais importante, quando há recursos não utilizados (por exemplo, quando o desemprego é muito mais elevado do que o normal), a despesa que resulta do endividamento do governo coloca esses recursos em uso. O aumento de receita do governo que isto gera (juntamente com a descida de gastos com desempregados) compensa o endividamento extra sem ter que aumentar impostos.
A dívida nacional é um fardo para as gerações futuras. Esta falácia é repetida tão frequentemente que entrou no inconsciente colectivo. O argumento é de que, se a geração actual gasta mais do que ganha, a próxima geração será forçada a ganhar mais do que gasta para o pagar.
Mas, isto ignora o facto de que os titulares da mesma dívida estarão entre as gerações futuras supostamente sobrecarregadas. Suponhamos que os meus filhos terão que pagar a dívida em que nós incorremos. Estarão em pior situação. Mas, nós estaremos melhor. Isso pode ser negativo para a distribuição de riqueza e rendimento, porque vai enriquecer o credor em detrimento do devedor, mas não haverá encargo líquido para as gerações futuras.
O princípio é exactamente o mesmo quando os titulares de dívida pública são estrangeiros (como no caso da Grécia), embora a oposição política para o reembolso será muito maior.
A economia está cheia de falácias, porque não é uma ciência natural como a física ou química. As proposições na economia rara vezes são completamente verdadeiras ou falsas. O que é verdade em algumas circunstâncias pode ser falso noutras. Acima de tudo, a verdade de muitas proposições depende das expectativas das pessoas.
Considere a crença de que, quanto mais o governo se endivida, mais elevado será o encargo futuro com impostos. Se as pessoas agem com base nesta crença, poupando cada libra, dólar ou euro extra que o governo coloque nos seus bolsos, os gastos extra do governo não terão efeito na actividade económica, independentemente de quantos sejam os recursos não utilizados. O governo deve, então, aumentar os impostos – e a falácia torna-se uma profecia auto-realizável.
Então, como devemos distinguir entre proposições verdadeiras e falsas na economia? Talvez se deva traçar a linha divisória entre as proposições que apenas são válidas se as pessoas esperam que o sejam e as que o são independentemente das crenças a respeito. A afirmação, “se todos nós poupássemos mais em tempos de crise, todos estaríamos melhor”, é absolutamente falsa. Estaríamos todos piores. Mas, a afirmação, “quanto mais os governos se endividam, mais têm que pagar pelo seu endividamento”, por vezes, é verdadeira e, por vezes, é falsa.
Ou, talvez a linha que divide deve separar as proposições que dependem de suposições razoáveis e as que dependem de outras ridículas. Se as pessoas pouparem cada libra extra de dinheiro emprestado que o governo gasta, o consumo não teria um efeito estimulante. Verdade. Mas, estas pessoas existem apenas nos modelos dos economistas.