Da cegueira colectiva
à aprendizagem da insensibilidade
* Mia Couto
Quero, antes de mais saudar
os professores.
Durante anos, fui professor.
E quando digo isto há uma emoção fortíssima que me atravessa. Eu não sei se
há profissão mais nobre do que a de ensinar. E digo ensinar porque existe uma
diferença sensível entre ensinar e dar aulas. O professor no sentido de
mestre é aquele que dá lições.
Os professores que mais me
marcaram na vida foram os que me ensinaram coisas que estavam bem para além
da matéria escolar. Não esqueço nunca um professor da escola primária que um
dia leu, comovido, um texto escrito por ele mesmo. Logo na declaração da sua
intenção nasceu o primeiro espanto: nós, os alunos, é que fazíamos redações,
nós é que as líamos em voz alta para ele nos corrigir. Como é que aquele homem
grande se sujeitava àquela inversão de papéis? Como é que aceitava fazer algo
que só faz quem ainda está a aprender?
Lembro-me como se fosse hoje:
o professor era um homem muito alto e seco e, nesse dia, ele subiu ao estrado
da sala segurando, nos dedos trémulos, um caderno escolar. E era como se ele
se transfigurasse num menino frágil, em flagrante prestação de provas.
Parecia um mastro, solitário e desprotegido. Só a sua alma o podia salvar.
Depois, quando anunciou o
título da redação veio a surpresa do tema que parecia quase infantil: o
professor iria falar das mãos da sua mãe. Éramos crianças e estranhámos que
um adulto (e ainda por cima com o estatuto dele) partilhasse connosco esse
tipo de sentimento. Mas o que a seguir escutei foi bem mais do que um
espanto: ele falava da sua progenitora como eu podia falar da minha própria
mãe. Também eu conhecera essas mesmas mãos marcadas pelo trabalho, enrugadas
pela dureza da vida, sem nunca conhecerem o bálsamo de nenhum cosmético. No
final, o texto acabava sem nenhum artifício, sem nenhuma construção
literária. Simplesmente, terminava assim, e eu cito de cor: “é isto que te
quero dizer, mãe, dizer-te que me orgulho tanto das tuas mãos calejadas,
dizer-te isso agora que não posso senão lembrar o carinho do teu eterno
gesto.”
Havia qualquer coisa de
profundamente verdadeiro, qualquer coisa diversa naquele texto que o
demarcava dos outros textos do manual escolar. É que não surgia ali, em
destacado, uma conclusão moral afixada como uma grande proclamação, uma
espécie de bandeira hasteada. Aquele momento não foi uma aula. Foi uma lição
que sucedeu do mesmo modo como vivemos as coisas mais profundas: aprendemos,
sem saber que estamos aprendendo. Lembro este episódio como uma homenagem a
todos os professores, a esses abnegados trabalhadores que todos os dias
entregam tanto ao futuro deste país.
Comecei por saudar os
professores. Parece que me esqueci dos estudantes. Ou que os coloquei em
segundo plano. Mas não.
Todos somos professores,
mesmo que não o saibamos. Perante os outros, perante os nossos pais, perante
os amigos, perante nós mesmos, com bons ou maus exemplos, com tristes ou
gratificantes lições, todos somos professores. Um dos maiores professores do
nosso tempo é um homem que nunca deu aulas. É um homem que ensinou a sermos
mais humanos. Mais do que isso, é um homem que ensinou a ter esperança num
mundo tão desesperançado. Esse professor de toda a humanidade, de todas as
raças e credos, é um africano. Chama-se Nelson Mandela. A sua vida foi uma interminável
lição. Mandela é hoje uma bandeira mundial não apenas porque foi um político
que dignificou a política, mas porque nos dignificou a todos nós, seres
humanos.
Deixem-me falar de Mandela. Este
homem, que agora está doente e cansado, viveu encarcerado durante vinte e
sete anos. Vinte e sete anos são mais do que o tempo de vida da maior parte
dos presentes nesta sala. Vinte e sete anos de prisão é tempo suficiente para
criar raiva, ódio e insuperáveis ressentimentos. Contudo, este homem
converteu esse potencial negativo em força construtiva e reconciliadora. Um
dos motivos de inspiração de Mandela foi ter encontrado num poema que se
chama “Invictus”. Vou ler esse poema.
Do ventre da noite que tudo
cobre
Negra como o fundo da cova
escura
Agradeço aos deuses de todos
os céus
Por quanto a minha invencível
alma perdura
Ante as garras do cruel acaso
Nem eu tremi, nem o medo me
turvou
Sob o peso da ameaça e da
desumana violência
Eu sangrei mas a minha alma
nunca se curvou
Não importa se a passagem é
estreita
Não importa quantos castigos
devo penar
Eu sou o dono do meu destino
Eu sou o capitão da minha
alma.
Estes versos, meus amigos, foram
uma espécie de suporte moral que deram força a Nelson Mandela. Vezes
infinitas o prisioneiro 46664 da Ilha de Robin regressou a estes versos para
não sucumbir. Como escritor e poeta, dá-me grande alegria saber deste poder
da poesia. Neste caso, há qualquer coisa que deve ser acrescentada.
Na verdade, este poema foi
escrito em 1875. O seu autor não foi um poeta sul-africano, não foi sequer um
poeta africano. Quem escreveu estes versos foi um britânico chamado William
Ernest Henley. Estes versos viajaram para além de séculos e continentes e
iluminaram a esperança de um homem que, em vez de se vitimizar e procurar a
vingança, nos deu uma eterna lição da crença nos outros.
Eu venho falar para a Escola de
Comunicação e Artes. Por isso me demorei nestes episódios. Porque acredito
que a comunicação e a arte são ferramentas de mudança tão importantes como a
política. Mandela fez da política um instrumento de comunicação da verdade.
Ele fez da política uma obra na arte da reconciliação, numa nação dividida
pelo preconceito. Talvez a cultura seja o mais poderoso e duradouro
instrumento de intervenção social. No nosso continente isso é bem claro.
Vejamos um exemplo:
Desde há 50 anos, quando
começaram a acontecer as independências, o nosso continente conheceu mais de
210 presidentes. O desafio que vos faço é o seguinte: digam o nome de 10
(apenas 10) destes dirigentes que se tenham notabilizado como figuras humanas
de referência. Terão dificuldade. Será muito mais fácil enumerarmos artistas
e intelectuais dignos de serem lembrados. E é aqui que a figura de Mandela é
tão importante para nós, africanos. Podemos não nos lembrar de muitos
políticos africanos que nos dignifiquem. Mas o nome de Mandela basta para compensar
toda essa ausência e devolver o orgulho de sermos quem somos.
Caros amigos, vou entrar
agora no tema central desta alocução.
Todos os dias centenas de
chapas de caixa aberta transitam por esta cidade que parece afastar-se do seu
próprio lema “Maputo, cidade bela, próspera, limpa, segura e solidária”. Cada
um destes “chapas” circula superlotado com dezenas de pessoas que se
entrelaçam apinhadas num equilíbrio inseguro e frágil. Aquilo parece um meio
de transporte. Mas não é. É um crime ambulante. É um atentado contra a
dignidade, uma bomba relógio contra a vida humana. Em nenhum lado do mundo
essa forma de transporte é aceitável. Quem se transporta assim são animais.
Não são pessoas. Quem se transporta assim é gado. Para muitos de nós esse
atentado contra o respeito e a dignidade passou a ser vulgar. Achamos que é
um erro. Mas aceitamos que se trata de um mal necessário dada a falta de
alternativas. De tanto convivermos com o intolerável, existe um risco: aos
poucos aquilo que era errado acaba por ser “normal”. O que era uma resignação
temporária passou a ser uma aceitação definitiva. Não tarda que digamos: “nós
somos assim, esta é a maneira moçambicana.” Desse modo nos aceitamos
pequenos, incapazes e pouco dignos de ser respeitados.
O caso dos chapas é apenas um
exemplo, uma ilustração de um processo que eu chamaria de “construção do
inevitável”. E é simples: aos poucos, os passageiros do “chapa” deixam de ser
visíveis. Na nossa sociedade essas pessoas já contavam pouco. É gente pobre,
gente sem rosto, gente que não aparece na TV nem no jornal. Essa gente
surgirá no jornal quando o “chapa” se acidentar. Mas aparecerá sem voz e sem
nome. Um simples número para se contabilizar feridos e mortos. Em
contrapartida, outras coisas ganharam brilho na nossa sociedade. Por exemplo,
adquiriram toda a visibilidade os carros de luxo de uma pequena minoria.
Deixamos de ver os “chapas” mortais, mas estamos atentos aos sinais de
ostentação dessa minoria.
O assunto que quero abordar
convosco hoje é esta operação que banaliza a injustiça e torna invisível a
miséria material e moral. Esta vulgarização faz perpetuar a pobreza e faz
paralisar a história. Saímos todos os dias para a rua para produzir riqueza
mas regressamos mais pobres, mais exaustos, sem brilho, nem esperança. De
tanto sermos banalizados pelos outros, acabamos banalizando a nossa própria
vida.
Estamos perante uma espécie
de formatação mental e moral. A mensagem é a seguinte: querem dizer-nos as
nossas doenças sociais são incuráveis. Resta-nos viver de remendos e
expedientes.
Visitou-me um escritor amigo
da Nigéria. Ele percorreu as cidades de Moçambique e ligou-me de Pemba. A
primeira coisa que ele disse: Estou maravilhado! Vocês têm estações de
gasolina a funcionar! O seu espanto espantou-me a mim. Principalmente porque
esse assombro provinha de um cidadão da Nigéria, o maior produtor de petróleo
de África. Só depois entendi. O que passa na Nigéria – depois de 50 anos de
exportação de petróleo - é que as cidades nigerianas não possuem aquilo que
para nós é comum: estações de gasolina vendendo gasolina. As bombas de
combustível naquele país estão quase todas fechadas e a gasolina é vendida em
garrafas e jerricans nos passeios públicos. Para alguns esse é um processo
natural em África. Mas não é. O que sucedeu foi o seguinte: o governo
subsidiou os preços dos combustíveis mas não foram os mais desfavorecidos que
lucraram mais. Foi uma parte da elite nigeriana que se apoderou dos circuitos
formais e desviou para os mecanismos informais a distribuição e venda do
combustível. Uma vez mais, os ricos tornaram-se ainda mais ricos. Mas não é a
questão politica que eu quero trazer aqui. A questão é que, para o cidadão da
Nigéria, aquele sistema de venda, à maneira do dumba-nengue, se tornou
normal. Ver bombas de gasolina a funcionar numa nação bem mais pobre como é
Moçambique foi, para ele, um motivo de surpresa. Eu vejo muito africanos
proclamarem que os mercados informais são a única maneira que África sabe
fazer comércio. Que apenas nas barracas sabemos comer e beber. É mentira. A
dumba-nenguização da economia é uma estratégia escolhida para fugir dos
impostos, para escapar das obrigações para com o património público. Quando o
meu amigo nigeriano voltou a Maputo ele disse-me o seguinte:
- A minha surpresa não foi
tanto o que eu vi em Moçambique. Foi sim o que já não sabia ver na Nigéria.
O principal aliado dos
tiranos é a cultura da aceitação. Talvez alguns de vocês sabem que sou um dos
autores do Hino Nacional. Quando entregamos o Hino para aprovação na Assembleia
da Republica nós não podíamos imaginar que alguns deputados se sentissem
incomodados com a passagem da letra que diz: Nenhum tirano nos irá
escravizar. É claro que a letra não fala do presente. Mas um hino é feito
para durar. E quem pode garantir que um candidato a tirano não assaltará a
nossa futura história? O melhor modo de prevenir esse risco não é apenas
consolidar a democracia política. É investir numa cultura viva, numa
cidadania de construção do futuro. O que me interessa falar aqui, numa Escola
de Arte e Cultura é a dimensão cultural das nossas pequenas e grandes
misérias.
A invocação da chamada
“africanidade” é uma das armadilhas mais usadas pelos tiranos. No Malawi
atacaram e rasgaram a roupa de mulheres pelo simples facto de andarem de calças.
Mulheres de calças não é uma coisa africana – foi o que invocaram os
agressores. Em nome de África se agrediram e mataram pessoas apenas porque
eram homossexuais. Em nome da pureza africana se continua a impedir que,
apenas por serem do sexo feminino, milhares de crianças não prossigam os seus
estudos. Em nome de África se cometem os maiores crimes contra África. O
nosso continente é feito de passado e tradição, sim. Mas é feito de
modernidade. É feito de mudança. Como todos os outros continentes.
As dinâmicas de mudança
confrontam-se com uma identidade feita de passado e tradição. Tudo isto tem a
ver com o processo da construção do inevitável. Esse processo envolve o
mecanismo da acomodação e o mecanismo da invisibilidade. A acomodação tem
várias facetas. Sabemos que está errado, mas nada fazemos. Porque temos medo.
Porque achamos que não tem a ver connosco. Ou porque fazemos cálculos. É
melhor calar e ser promovido. É melhor recolher uns magros favores em troca
do nosso silêncio e da nossa cumplicidade.
O mecanismo da invisibilidade
foi tratado por José Saramago no livro O ensaio sobre a cegueira. Nós estamos
doentes, não porque os olhos tenham alguma deficiência, mas porque deixamos
de saber olhar. Deixamos de querer ver. E deixamos de nos ver a nós mesmos.
No fundo, este é o desfecho desse processo de alienação. Tornamo-nos cegos.
Quem não vê, aceita que outros lhe digam como é o mundo.
Eu rabisquei uma lista de
fenómenos sociais que se tornaram invisíveis em Moçambique. A lista é bem
extensa. Mencionarei apenas de alguns.
A violência contra os mais
fracos
O primeiro desses fenómenos é
a violência. Dizemos com frequência que somos um povo pacífico. Isso é
verdade. Mas os povos todos, do mundo, são pacíficos por natureza. O que muda
é a sua história. Assim, é verdade que somos um povo pacífico, mas também é
verdade que foi esse povo pacífico que fez uma guerra civil que matou cerca
de um milhão de pessoas. A guerra terminou em 1992, e essa data é talvez a
mais importante da nossa história recente, depois da Independência Nacional.
Terminou o conflito militar, mas não terminaram outras guerras silenciosas,
invisíveis e perversas.
Hoje somos uma sociedade em
guerra consigo mesma. Os alvos dessa guerra são sempre os mais fracos.
Estamos em conflito com as mulheres, com as crianças, com os velhos, estamos
em guerra com os pobres, com aqueles que não têm poder. Somos uma sociedade
obcecada pelo Poder. Quem não tem poder é como quem circula na traseira do
chapa: não existe. Tudo tem uma leitura política, o mais pequeno detalhe é um
recado, uma definição de hierarquias. Quem chega primeiro à reunião, onde se
senta, quem não comparece à cerimónia, com que carro chegou, de quem se faz
acompanhar, tudo isso são sinais de poder. Nas ruas sou chamado de patrão,
sou chamado de “boss”, porque a minha cor da pele é tida como um sinal de
Poder. O vendedor de viaturas insurgiu-se com a escolha de um carro que eu
queria comprar. Deixe que escolho um carro compatível com o seu
estatuto.
Estamos em guerra connosco
mesmos e o primeiro desses alvos é curiosamente uma maioria: as mulheres. Em
Moçambique há mais um milhão de mulheres que homens. Mas ao nível das
percepções, os homens dão pouca importância a essa verdade. Eles são chefes,
os donos, e olham as mulheres como uma pertença privada. As mulheres, por
outro lado, ainda pedem licença para existir. A maioria das mulheres que são
objecto de violência dos maridos acha que isso não é um crime. Acham normal,
acham natural. Ser agredida faz parte do seu destino, da sua imutável
natureza.
E conto-vos três episódios
reais, que retirei da nossa imprensa apenas nas últimas semanas:
Em Cabo Delgado 17
homens violaram uma mulher que se atreveu a atravessar o acampamento onde se
praticavam os rituais de iniciação. Da parte das autoridades locais houve uma
inaceitável passividade. Foi necessária insistência da família e de ONGs para
que houvesse uma insuficiente resposta.
Em Manica dois jovens violam
sexualmente uma mulher no sétimo mês da gravidez.
Em Tete um homem mata a
criança de dois meses e esfaqueia gravemente a mulher porque a meio do dia
ele chegou a casa e a mulher recusou fazer sexo com ele. O jornalista da
televisão que entrevista o confesso culpado sugere uma quase legitimidade do
ato ao perguntar: “o senhor devia estava necessitado não é verdade?”.
Reclamamos a violência da
rua, mas é mais provável uma mulher ser agredida dentro de casa do que fora
de casa. É mais provável uma criança ser agredida e violentada no espaço da
sua família. Esta tendência não sucede apenas em Moçambique, mas no mundo. As
estatísticas são reveladoras e assustadoras: cerca de 70 por cento dos actos
de violência contra a mulher acontecem dentro da casa. Mais de 60 por cento
dos assassinatos de mulheres são cometidos pelos seus companheiros ou
ex-companheiros. Em todo o mundo, uma em cada três mulheres ou já foi ou irá
ser agredida ou violentada. Não é pois Moçambique que é afectado de modo
particular. O que sucede é que para nós essa violência é legitimada por
razões que se dizem culturais. Nós ainda banalizamos muito facilmente. É
ainda prevalecente a ideia de que a mulher é que é culpada, porque ela é quem
provoca a violência. Ainda achamos que este assunto não tem a ver connosco,
que é para ser denunciado pelas ONGs. Isto é, desresponsabilizamo-nos. Mesmo
sendo mulheres, achamos que este assunto tem a ver com os outros. Mesmo sendo
homens, que têm mães, irmãs e filhas, achamos que isto não tem nada a ver
connosco.
OUTRA GUERRA - AS VIUVAS
Sugiro que leiam o livro de Fabrício
Sabat, chamado As viúvas da minha terra, para ficarem com uma ideia do crime
generalizado que é cometido contra mulheres que vivem um momento dramático da
sua vida. E nesse exacto momento de fragilidade, são assaltadas pelos
próprios parentes. Levam-lhes os bens, os filhos, o sossego.
CASO DAS VELHAS
Acusadas de feitiçaria,
roubaram-nas durante a vida, fizeram sumir a sua infância e juventude e, no
final, roubaram a possibilidade de uma velhice tranquila, usufruída com os netos
e as lembranças. Está longínqua a imagem de África como um lugar especial
porque os velhos são respeitados.
GUERRA CONTRA OS GAYS E AS
LÉSBICAS
Moçambique nem é dos países
menos tolerantes. Há países que consideram formal e legalmente um crime o simples
facto de ser ter uma orientação sexual diferente. Mesmo assim, há entre nós,
uma enorme intolerância.
CASO DOS DOENTES MENTAIS
Nós estamos tão ocupados com
outras doenças que esquecemos que não é apenas o HIV SIDA que tem implicações
do ponto de vista do estigma social. As doenças mentais são outro mal não
visível. Não creio que existam estatísticas da prevalência de doenças mentais
em Moçambique. Mas a média em África é de 14 por cento da população.
ALBINOS
Vou contar-vos um episódio
real. Conheci um pedreiro que chamarei apenas por Fabião, que certa vez
executou uma obra para minha casa. Um dia, uma moça albina veio à minha porta
pedir água. O pedreiro desceu do escadote onde trabalhava para me dar
conselhos: “é melhor não dar, ou usar um copo que depois deita fora”. Quando
lhe perguntei porquê, ele respondeu: “aquela tjidajna é alguém que tem muitos
problemas”. E reproduziu os habituais mitos e preconceitos sobre os albinos.
No final confessou: “ainda bem que na minha família nós não temos disso».
Passaram-se anos e a semana
passada o mesmo Fabião ligou para mim a perguntar se era possível entrar sem
convite na exposição “Filhos da Lua”, na Fortaleza de Maputo. Ele ouviu na
rádio que a exposição tinha por tema “os albinos” e estava muito interessado
em levar a sua filha a esse evento. “É que a minha filha nasceu albina.”
Fabião não podia nunca imaginar ser pai de uma tjidjana. Mas foi. E ele
agora, por amor a essa menina, queria enfrentar junto com ela os preconceitos
que ele mesmo guardava dentro de si. Chamei Fabião e ofereci-lhe que levasse
para a sua filha dois discos. Um de Salif Keita, outro do nosso Aly Fake. E
disse “esses são os melhores copos de água. Refrescam a alma”.
Muitas vezes pensamos que
essas diferenças vivem fora de nós. A diferença está dentro de nós. Um em
cada 35 moçambicanos é portador do gene do albinismo. Um em cada 35 pessoas é
portador dessa gente. Nenhum de nós sabe à partida se poderá ser pai ou mãe
de uma criança albina.
GUERRA COM OS MORTOS
Até aqui falei de conflitos
com mulheres, crianças, velhos. Mas todos esses segmentos sociais são
compostos por gente viva. O mais triste é que a nossa sociedade entrou em
guerra com os seus próprios mortos. Este é o sintoma mais grave da nossa
patologia social: passamos a maltratar até os nossos mortos. O que acontece
nos nossos cemitérios é um atentado contra os mais básicos princípios morais.
As famílias enterram os seus entes queridos e são obrigadas a retirar o mais
ínfimo valor que acompanhe o falecido. Sabem que no dia seguinte, o caixão
foi assaltado, o morto foi despido. As próprias jarras de flores são
quebradas antes de serem colocadas para prevenir que sejam roubadas e
vendidas. Não contentes em assaltarem os vivos, há gangs que se
especializaram em roubar os mortos. Nem depois do último suspiro estaremos a
salvo dos ladrões.
Meus amigos
Eu disse que estávamos em
guerra connosco mesmos. Esta guerra doméstica compõe-se de duas violências. A
violência daqueles que agridem. E a violência dos que se calam. Marthin
Luther King disse O que me entristece não é apenas o clamor dos homens maus.
É o silêncio dos homens bons.
A lista das nossas guerras
domésticas estende-se por mais domínios. Os exemplos que escolhi ilustram o facto
de que não somos a sociedade pacificada que pretendíamos ser. Há um percurso
enorme a percorrer e esse caminho é sobretudo uma viagem interior. Essa
viagem só acontecerá se vocês souberem ver, souberem não aceitar. Tudo o que
aqui disse pode ser resumido em dois textos pequenos de autores alemães.
Peço-vos que escutem. O primeiro é uma parábola e diz o seguinte:
“Um dia, vieram e levaram o
meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia
seguinte, vieram e levaram o meu outro vizinho, que era comunista. Como não
sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram o meu
vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia,
vieram e levaram-me mim. Nessa altura, já não havia mais ninguém para reclamar.”
O segundo texto é um apelo na
forma de verso, escrito pelo dramaturgo Bertolt Brecht:
"Nós pedimos-vos com
insistência:
Nunca digam - Isso é natural.
Diante das barbaridades de
cada dia,
Numa época em que corre
sangue
Num tempo em que a arbitrariedade
tem força de lei,
Num momento em que a
humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é
natural
Se aceitamos as coisas como
naturais
este nosso mundo torna-se
imutável
Caros amigos
O nosso tempo também está em guerra
contra os jovens. À nossa frente, e não falo apenas de Moçambique, se
anunciam tempos difíceis. À nossa frente está um futuro magro em que parece
que apenas alguns podem caber. O que nos sugerem é que briguemos uns com
outros para ver quem cabe nessa estreita porta. Mas talvez seja possível
criar um outro futuro mais amplo.
Vão ser assediados. Por
forças políticas que estão mais preocupadas com o Poder do que com a
resolução efectiva dos problemas. Por forças que se lembram dos jovens quando
se trata de colher votos. Por forças que falam aos jovens, não falam com os
jovens.
Vocês são jovens. Ser jovens
é uma condição inerente, que se exerce sem esforço. Mais do que jovens, sejam
diferentes. Tragam para o nosso tempo o inesperado, o que é novo, o que é
historicamente produtivo.
Uma nova classe está povoando
o poder político em Moçambique. São os papagaios. Reproduzem o discurso dos
chefes. A maior parte deles são jovens. Mas são jovens de alma envelhecida.
Os papagaios podem pensar que o seu futuro está assegurado porque olham o
país como se fosse um aviário. Mas o nosso futuro como nação não se constrói
senão com ousadia, com vitalidade e um infinito respeito pelos outros.
Ficamos muitas vezes à
espera, ficamos à espera que o governo faça. Temos medo de tomar iniciativa.
Achamos arriscado. Não agimos porque dizemos que faltam recursos, falta
orçamento, falta autorização do chefe. Mas existem lições que parecendo
pequenas podem tocar alguém para toda a vida.
O professor primário que leu
uma redacção sobre as mãos calejadas de sua mãe não imaginava que estaria
marcando para sempre um aluno seu. O poeta William Henley não poderia
imaginar que versos seus poderiam sustentar, cem anos mais tarde, a vontade
de lutar de um africano que iria mudar o destino de milhões de pessoas.
Fazemos o que fazemos não
porque sejam grandiosas iniciativas mas porque necessitamos mudar as coisas e
melhorar o mundo. Fazemos o que fazemos porque, como diz o poema, nós
queremos ser donos do nosso destino e capitães da nossa alma colectiva.
*Fonte: texto gentilmente
enviado pelo escritor Andes Chivangue em 14 de março de 2012.
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«Sabes o que me lembra este céu? Mais ou menos: a guerra dos astros. Tal e qual. A guerra dos mundos. Um sol maléfico, que tenta destruir a maquete, e sete planetas menores que tentam defendê-la.» [Finisterra, Carlos de Oliveira]
quinta-feira, maio 30, 2013
Da cegueira colectiva à aprendizagem da insensibilidade
terça-feira, maio 28, 2013
segunda-feira, maio 13, 2013
Poema de agradecimento à corja
Poema de agradecimento à corja (Joaquim Pessoa)
Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada. Por não nos darem explicações. Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias um dia menos interessante que o anterior. Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.
Joaquim Pessoa
Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada. Por não nos darem explicações. Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias um dia menos interessante que o anterior. Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.
Joaquim Pessoa
terça-feira, março 19, 2013
sábado, março 16, 2013
domingo, março 03, 2013
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
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Alternativas à troika? As respostas
Henrique Monteiro
10:52 Quarta feira, 27 de fevereiro de 2013
...
Ontem fazia uma pergunta: se mandarmos lixar a troika, o que fazemos em seguida. Não me posso queixar de falta de respostas: ente comentários no sítio do Expresso, na página deste jornal no Facebook e na minha página do Facebook foram quase 300 - ainda que alguns comentadores tenham intervindo mais do que uma vez, como é costume.
A todos agradeço, mas nenhum me convenceu totalmente. Vamos por partes.
Uma boa parte dos comentadores optava por renegociar a dívida em termos mais favoráveis. O argumento é válido, é provavelmente prudente e assisado, mas... não é argumento. Porque, nesse caso, não mandaríamos lixar a troika. Pelo contrário, chama-la-íamos a negociações, oferecendo-lhes, pelo menos, um cafezinho. Esta é uma solução do tipo daquela que é defendida pelo PS e por setores do PSD como Manuela Ferreira Leite. É sensata.
Outra parte considerável dos comentadores optava pela saída do euro. Seria, do meu ponto de vista, um erro trágico que nos condenaria a uma miséria ainda mais miserável, se me é permitida a tautologia. Se saímos com a paridade que entrámos (um euro igual a 200 escudos, mais ou menos), rapidamente o escudo se desvalorizaria substancialmente. Na Islândia, país muitas vezes apontado como exemplo, a desvalorização da coroa foi de 80%. Imaginemos que por cá era semelhante. Isto significa que quem ganhasse mil euros passava imediatamente a ganhar 200 contos. Mas passados momentos, esses 200 contos já não valiam mil, mas apenas cerca de 560 euros. Como a maioria dos bens de consumo são importados e como as dívidas dos bancos e do Estado é em euros, podemos antever o que isso significaria. Ou seja, a brutalidade de impostos que já pagamos seria, através da inflação, multiplicada e estendida de forma cega - uma vez que a inflação é um imposto escondido que tanto pagam ricos como pobres.
Boa parte apelava ainda à aventura. Um comentador João Sá, comentava no Facebook citando o poeta José Régio - "não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí". Outros, citaram a gesta dos Descobrimentos e outras ideias românticas. São interessantes e, por vezes, também me apetece ser assim. Mas se os versos de Régio podem ser um belo programa pessoal (o único prejudicado de uma má escolha é o próprio), não pode ser um bom programa social, em que os prejudicados são todos. Não me parece solução.
Há ainda, os que dizem - e com alguma razão - "você quer que quem já perdeu tudo, quem está desempregado, faça escolhas racionais?" (foi o caso de um comentador da página do Expresso de nickname Runaldinho). Mas, meu caro, não são esses que intervêm na praça pública. Quem está a intervir na praça pública, a cantar o Grândola não são, sobretudo, os desesperados. Entre os que estiveram no Parlamento conheci alguns. Um deles foi meu professor na universidade. O meu apelo à racionalidade é para aqueles que, como o senhor ou eu, ainda têm o suficiente para não desesperar e para perceber que da democracia se passa facilmente à demagogia e desta à ditadura que beneficia alguns, mas se torna ainda pior para todos.
O povo é quem mais ordena é uma frase que, pessoalmente, cantei muitas vezes. Tem sentido democrático e não há melhor método do que as eleições para decidir quem Governa. Mas, mesmo com eleições, não há a garantia de boas escolhas. Hitler ganhou na Alemanha. Berlusconi é um caso; Beppe Grillo outro.
As eleições italianas, como as gregas antes, demonstram o que acontece quando se deixa a demagogia à solta. Quando os sentimentos substituem a razão. Não me sentiria bem se contribuísse, um pouco que fosse, para isso.
Twitter: @HenriquMonteiro https://twitter.com/HenriquMonteiro
Facebook:Henrique Monteiro http://www.facebook.com/hmonteir
Henrique Monteiro
10:52 Quarta feira, 27 de fevereiro de 2013
...
Ontem fazia uma pergunta: se mandarmos lixar a troika, o que fazemos em seguida. Não me posso queixar de falta de respostas: ente comentários no sítio do Expresso, na página deste jornal no Facebook e na minha página do Facebook foram quase 300 - ainda que alguns comentadores tenham intervindo mais do que uma vez, como é costume.
A todos agradeço, mas nenhum me convenceu totalmente. Vamos por partes.
Uma boa parte dos comentadores optava por renegociar a dívida em termos mais favoráveis. O argumento é válido, é provavelmente prudente e assisado, mas... não é argumento. Porque, nesse caso, não mandaríamos lixar a troika. Pelo contrário, chama-la-íamos a negociações, oferecendo-lhes, pelo menos, um cafezinho. Esta é uma solução do tipo daquela que é defendida pelo PS e por setores do PSD como Manuela Ferreira Leite. É sensata.
Outra parte considerável dos comentadores optava pela saída do euro. Seria, do meu ponto de vista, um erro trágico que nos condenaria a uma miséria ainda mais miserável, se me é permitida a tautologia. Se saímos com a paridade que entrámos (um euro igual a 200 escudos, mais ou menos), rapidamente o escudo se desvalorizaria substancialmente. Na Islândia, país muitas vezes apontado como exemplo, a desvalorização da coroa foi de 80%. Imaginemos que por cá era semelhante. Isto significa que quem ganhasse mil euros passava imediatamente a ganhar 200 contos. Mas passados momentos, esses 200 contos já não valiam mil, mas apenas cerca de 560 euros. Como a maioria dos bens de consumo são importados e como as dívidas dos bancos e do Estado é em euros, podemos antever o que isso significaria. Ou seja, a brutalidade de impostos que já pagamos seria, através da inflação, multiplicada e estendida de forma cega - uma vez que a inflação é um imposto escondido que tanto pagam ricos como pobres.
Boa parte apelava ainda à aventura. Um comentador João Sá, comentava no Facebook citando o poeta José Régio - "não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí". Outros, citaram a gesta dos Descobrimentos e outras ideias românticas. São interessantes e, por vezes, também me apetece ser assim. Mas se os versos de Régio podem ser um belo programa pessoal (o único prejudicado de uma má escolha é o próprio), não pode ser um bom programa social, em que os prejudicados são todos. Não me parece solução.
Há ainda, os que dizem - e com alguma razão - "você quer que quem já perdeu tudo, quem está desempregado, faça escolhas racionais?" (foi o caso de um comentador da página do Expresso de nickname Runaldinho). Mas, meu caro, não são esses que intervêm na praça pública. Quem está a intervir na praça pública, a cantar o Grândola não são, sobretudo, os desesperados. Entre os que estiveram no Parlamento conheci alguns. Um deles foi meu professor na universidade. O meu apelo à racionalidade é para aqueles que, como o senhor ou eu, ainda têm o suficiente para não desesperar e para perceber que da democracia se passa facilmente à demagogia e desta à ditadura que beneficia alguns, mas se torna ainda pior para todos.
O povo é quem mais ordena é uma frase que, pessoalmente, cantei muitas vezes. Tem sentido democrático e não há melhor método do que as eleições para decidir quem Governa. Mas, mesmo com eleições, não há a garantia de boas escolhas. Hitler ganhou na Alemanha. Berlusconi é um caso; Beppe Grillo outro.
As eleições italianas, como as gregas antes, demonstram o que acontece quando se deixa a demagogia à solta. Quando os sentimentos substituem a razão. Não me sentiria bem se contribuísse, um pouco que fosse, para isso.
Twitter: @HenriquMonteiro https://twitter.com/HenriquMonteiro
Facebook:Henrique Monteiro http://www.facebook.com/hmonteir
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Se o Titanic naufragasse em 2013, estou seguro de que quase todos esses 400 super-ricos chegariam são e salvos, deixando para trás, se necessário, as suas próprias mulheres e crianças. A gente que manda hoje no mundo acredita apenas no sucesso egoísta, traduzido em ganhos monetários, pisando todas as regras e valores.
Ler mais no "Tropeçar no vilão".
De Viriato Soromanho Marques.
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3032870&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco
Ler mais no "Tropeçar no vilão".
De Viriato Soromanho Marques.
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3032870&seccao=Viriato+Soromenho+Marques&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco
quinta-feira, janeiro 31, 2013
A nova (velha) ANP
O país parece ficou prisioneiro de uma certa mentalidade ruralista e tacanha do tempo do salazarismo. Até foi governado por um senhor de Boliqueime e foi o que se viu, pois até se aproveitou de Sá Carneiro, o líder da direita portuguesa com formação democrática, como poucos. Os que agora se sentam na cadeira do poder apresentam-se com patrocínios duvidosos, não passando de uns tacanhos competentes em fazer chegar a Coisa Pública ao estado que desejam e que para tal lá foram colocados. Nem esta coisa da TV rural é por acaso! Nada é por acaso. Estamos a empobrecer aos níveis da década de setenta.
A nova ditadura está a ser instalada.
quarta-feira, janeiro 30, 2013
segunda-feira, janeiro 28, 2013
A teimosia e a realidade
Por mais e melhor encenação que se faça, mesmo com a melhor propaganda possível, a realidade teima em ser teimosa.
A realidade é demasiado teimosa.
quarta-feira, janeiro 23, 2013
segunda-feira, janeiro 21, 2013
quinta-feira, janeiro 10, 2013
quarta-feira, janeiro 09, 2013
segunda-feira, janeiro 07, 2013
Reis Magos
Como se via o céu antes dos potentes telescópios:
“As 3 estrelas que formam a cintura de Orion, seguiram a estrela do oriente (Sírius) e chegaram ao local do nascimento da grande luz que ilumina toda a humanidade, o Sol”.
quarta-feira, janeiro 02, 2013
quarta-feira, dezembro 26, 2012
Aqui, ali e por acolá!
Aqui, ali e por acolá!
Em Portugal, com a devida vénia a Eduardo Aroso.
Em Portugal, com a devida vénia a Eduardo Aroso.
AQUI E ALI EM PORTUGAL
Andamos pelo país; vamos aqui e ali: aldeias, vilas e cidades. Portugal triste, cada vez mais entristece. O que não diriam hoje Unamuno, Pascoaes, Agostinho da Silva e muitos outros! Lojas que fecham, paisagens que ...definham, ruas e espaços de ausências; o resto dos sonhos queima-se na lareira. O que ainda resiste não é visível e palpável, e ainda bem porque se assim não fosse seria roubado ou pagaria mais algum imposto…
Em mais um Natal, Portugal é uma espécie de estábulo (com licença dos concidadãos) ou gruta fria e pobre, mas sem a luminosa esperança que nasceu há dois mil anos. Este “menino” já espigado – ou rapazola que nos governa – veio enganar-nos com a falsa estrela a que ele chama optimismo, como outros já o fizeram ainda não há muito tempo. Veio trazer-nos a estrela do optimismo e do “bom caminho”…
Desvirtuada e desventrada a doce parábola bíblica do Bom Pastor, ficámos a saber (e a sentir) que um mau pastor até pode indicar “o bom caminho”!
Eduardo Aroso
Andamos pelo país; vamos aqui e ali: aldeias, vilas e cidades. Portugal triste, cada vez mais entristece. O que não diriam hoje Unamuno, Pascoaes, Agostinho da Silva e muitos outros! Lojas que fecham, paisagens que ...definham, ruas e espaços de ausências; o resto dos sonhos queima-se na lareira. O que ainda resiste não é visível e palpável, e ainda bem porque se assim não fosse seria roubado ou pagaria mais algum imposto…
Em mais um Natal, Portugal é uma espécie de estábulo (com licença dos concidadãos) ou gruta fria e pobre, mas sem a luminosa esperança que nasceu há dois mil anos. Este “menino” já espigado – ou rapazola que nos governa – veio enganar-nos com a falsa estrela a que ele chama optimismo, como outros já o fizeram ainda não há muito tempo. Veio trazer-nos a estrela do optimismo e do “bom caminho”…
Desvirtuada e desventrada a doce parábola bíblica do Bom Pastor, ficámos a saber (e a sentir) que um mau pastor até pode indicar “o bom caminho”!
Eduardo Aroso
terça-feira, dezembro 25, 2012
Rosas de Inverno
Rosas de Inverno no meu jardim.
A rosa quase branca pela falta do sol, é uma flor pequena de uma roseira primitiva. Ouvi chamar rosas de santa Teresinha! Em Maio liberta um aroma a roseiral que invade o exterior dos muros do jardim. A vermelha, é também primitiva e cheirosa. Temos outras que apesar de bonitas, não chegam aos cacanhares das primitivas, pois estas em pleno solstício de Dezembro ainda marcam presença.
segunda-feira, dezembro 24, 2012
sexta-feira, dezembro 21, 2012
segunda-feira, dezembro 17, 2012
Porque é que não existem problema da nossa responsabilidade?
Porque é que os problemas são sempre da responsabilidade dos outros?
A usada e abusada técnica simples e eficaz, que resulta
sempre. Esta passa por não falar deles e muito menos admitir que eles existem.
Melhor será os aceitar como vontade da providência divina, ou da falta de não
palmilhar os caminhos que alguém diz serem dela, então ainda melhor.
É que abordar os problemas só traz chatice. Então para quê
falar deles?
Em vez de falar de saúde é falar de DOENÇA.
Em vez de falar de desenvolvimento social é falar de ACÇÃO
SOCIAL como prioridade. CULTURA fica sempre bem, é como o arroz doce numa
sobremesa.
Em vez de falar de instrução é falar de EDUCAÇÃO.
O rio tem duas margens sabemos todos nós.
Já experimentaram olhar de cima da ponte?
domingo, dezembro 16, 2012
Gaivotas em terra…
Um vento forte e húmido que puxa a chuva é mandador da dança
bailada dos pinheiros ao fundo do quintal.
Um bando de gaivotas sobrevoa os pinhais do Escoural,
dançando lá muito alto um rodízio de volta, umas das outras no sentido
contrário aos ponteiros de um relógio, daqueles que existiam em tempos.
O bando, um quarteirão delas, talvez nem tantas, trazido
pelo vento forte, é empurrado para os lados da Fervença.
sexta-feira, dezembro 14, 2012
quarta-feira, dezembro 12, 2012
Mudar de moleiro e não mudar de ladrão.
Mudar de moleiro e não mudar de ladrão.
A obsolescência programada deliberadamente tem objectivo de originar nova compra, reduzindo o tempo entre compras sucessivas.
Comigo isto já se passou pela segunda vez com um telemóvel, que deliberadamente deixa de funcionar três anos após a compra, obrigando-me a comprar outro equipamento. Como tudo é competitivo, esta estratégia é um risco. Assim, como da última vez não encontrei bateria de substituição, mudei de marca. Agora como um simples botão que tinha funções de rato, tipo do computador, avariou, irei adquirir, já amanhã, uma outra marca e outro tipo de equipamento, pois hoje à tarde fiquei sem telemóvel.
Irei mudar de moleiro, mas não irei mudar de ladrão.
Considero a obsolescência programada como anti Ético.
A obsolescência programada deliberadamente tem objectivo de originar nova compra, reduzindo o tempo entre compras sucessivas.
Comigo isto já se passou pela segunda vez com um telemóvel, que deliberadamente deixa de funcionar três anos após a compra, obrigando-me a comprar outro equipamento. Como tudo é competitivo, esta estratégia é um risco. Assim, como da última vez não encontrei bateria de substituição, mudei de marca. Agora como um simples botão que tinha funções de rato, tipo do computador, avariou, irei adquirir, já amanhã, uma outra marca e outro tipo de equipamento, pois hoje à tarde fiquei sem telemóvel.
Irei mudar de moleiro, mas não irei mudar de ladrão.
Considero a obsolescência programada como anti Ético.
segunda-feira, dezembro 10, 2012
Guitarra modelo de Lisboa
Guitarra portuguesa.
Comprimento total: 800 mm
Comprimento de corda vibrante: 445 mm
Largura: 370 mm
Altura da caixa: 75 mm
Tampo: Espruce
Fundo: Pau Santo
Ilhargas: Pau Santo
Braço: Mogno , voluta obra do mestre entalhador José Carvalho
Escala: Ébano
Pestana e Cavalete: Osso de vaca
Rosácia: massa de pó de carvão com embutidos em madre pérola.
Data de construção: 07-12-2012.
Comprimento total: 800 mm
Comprimento de corda vibrante: 445 mm
Largura: 370 mm
Altura da caixa: 75 mm
Tampo: Espruce
Fundo: Pau Santo
Ilhargas: Pau Santo
Braço: Mogno , voluta obra do mestre entalhador José Carvalho
Escala: Ébano
Pestana e Cavalete: Osso de vaca
Rosácia: massa de pó de carvão com embutidos em madre pérola.
Data de construção: 07-12-2012.
domingo, dezembro 09, 2012
Pelo Natal, salto de pardal.
Pelo Natal, salto de pardal.
Vivemos a olhar demasiado para o
chão, e quando olhamos o céu não afastamos a poluição de vária ordem que nos
cobre a cabeça e nos ofusca a vista.
Sabemos que os povos antigos
tinham um conhecimento do céu e descreviam tudo o que por lá se passava. Muitos
estudiosos de antigamente aceitavam o simbolismo de uma estrela associada ao
nascimento de alguém muito importante. Assim, alguém importante que nascia teria
que ter um anúncio celeste de invulgar ocorrência.
O deus sol nasce após o seu
declínio para a sua vitória sobre a noite, não de 21 para 22 de Dezembro, o solstício,
mas 3 dias depois, na noite de 24 para 25 de Dezembro, quando começa a nascer
mais a norte, isto é o tal salto de pardal pelo Natal, a ressurreição ao 3º dia
conforme as escrituras que, efectivamente se podem ler no céu.
Olhem para o céu nestas noites de
Natal e descubram a estrela que anuncia (aponta) o local do nascimento, assim
como os 3 reis magos que vieram do oriente.
quarta-feira, dezembro 05, 2012
As fezes do Borges.
As fezes do Borges.
(ter fezes no sentido de ter mais que uma fé)
Vivemos o Tempo que os que agora coçam os fundilhos nos
cadeirões do Poder, e que ainda há pouco afirmavam a necessidade de “desregular”,
”não irritar os Mercados, “menos Estado melhor Estado”, esses mesmos, agora com
aplicação e desvelo, estão a injectar dinheiro no sistema para o salvar da desregulação,
ou a arranjar maneira de o fazer.
Vamos lá entender estes gajos! Tantas foram as postas de
pescada arrotadas, onde a memória esquece o cheiro a fénico saído das TVs, ouço
o Sr. Borges afirmar que não vê, ainda, a luz ao fundo do túnel, mas que
acredita que está no caminho certo.
Na verdade, ele sabe que não está dentro do túnel. Ele faz parte
dos eleitos do senhor deus Mercado que ninguém ainda viu, e tudo salvará. Só os
incréus e os incapazes ficarão para trás. O Sr. Borges é um santo!
segunda-feira, dezembro 03, 2012
A Indústria de breu e carvão que existiu no Escoural
A Indústria de pez e carvão que existiu no Escoural.
O breu (pez negro) é o produto extraído da resina e que era utilizado em tarefas tão diversas como a calafetagem dos barcos e a envolvência de redes de pesca na tentativa de evitar a deterioração da sensível matéria que as compunha, sisal.
Esboço retirado do meu moleskine de Dezembro de 2010, segundo a descrição do ti Faneco.
terça-feira, novembro 27, 2012
segunda-feira, novembro 26, 2012
Mais do mesmo
“No contexto económico criado pela União
Económica e Monetária não é aceitável que a política fiscal quase não tenha
eficácia enquanto instrumento de política económica; como aceitar que a taxa do
IVA passe de 17 para 19% e as receitas não acompanhem o aumento?”
sábado, novembro 24, 2012
Em equipa que ganha, mexe-se
Em equipa que ganha, mexe-se
Não há nada de mais errado do que este ditado popular que diz que “em equipa que ganha não se mexe”. Sempre achei esta ideia muito curiosa, porque penso que é muito perversa e excessivamente conservadora. No fundo o que este ditado diz é que se uma equipa ganha, ou seja, apresenta bons resultados, então é porque é uma boa equipa e não se deve mexer nela. Mas então quando é que se deve mexer? Se não se mexe enquanto ganha, então esperamos que perca para poder mexer. É por isso uma estratégia perdedora, a curto-médio prazo, e muito deficiente.
sexta-feira, novembro 23, 2012
Ecce Gratum* - Carmina Burana (5) - Carl Orff
Ecce Gratum
Ecce gratum
et optatum
ver reducit gaudia,
purpuratum
floret pratum,
Sol serenat omnia.
Iam am cedant tristia!
Estas redit,
nunc recedit
Hyemis sevitia.
Iam liquescit
et decrescit
grando, nix et cetera,
bruma fugit,
et iam sugit
Ver estatis ubera;
illi mens est misera,
qui nec vivit,
nec lascivit
sub Estatis dextera.
Gloriantur
te letantur
in melle dulcedinis,
qui conantur,
ut utantur
premio Cupidinis:
simus jussu Cypridis
gloriantes
et letantes
pares esse Paridis.
Ecce Gratum (Tradução)
Eis a cara Primavera
Eis a cara
e desejada
primavera que traz de volta a alegria:
flores púrpuras
cobrem os prados
o sola tudo ilumina.
Já se dissipam as tristezas!
Retorna o verão,
agora fogem os rigores do inverno. Ah!
Já se liquefazem
e desaparecem
o gelo, neve, etc.
A bruma foge,
a a primavera suga
o seio do verão;
É de lamentar-se
aquele que não vive
nem se entrega
à doce lei do verão. Ah!
Que provem glória
felicidade
doce como o mel,
aqueles que ousam
aspirar
ao prêmio do Cupido;
Sob o comando de Vênus
glorifiquemos
e rejubilemo-nos
a exemplo de Páris. Ah!
quinta-feira, novembro 15, 2012
A A17 obrigou-me a ficar onde estou
A A17 obrigou-me a ficar onde estou
….” Devo estar enganado, cuido eu, a orientara-me. Devo
estar enganado. Olho e reolho em toda a volta, mas não vejo nem a casa, nem as
figueiras, nem o retalho das leiras que eu conhecia como a palma das mãos. O
sol já vai alto e é bem capaz de me ter embrulhado o juízo. Mas penso que sei
onde estou. Daqui, vejo o pinhal alto do cabeção, a casa do Porlico, as terras
do Curto e a aba dos pinheiros da Lagoa do Porco. Não, eu não posso estar enganado.
O estradalhão é que me fez perder o juízo, se é que o perdi, não foi o sol a
arder-me no moleirinha e a dar comigo em tolo. Eu tinha pegado um ramalzito que
vinha da porta do Zé das Sementes e entroncava depois na estrada do Brejo, bem
perto já da casa do Moléstia. Dantes, lembro-me bem, este ramal era
caminho-de-carro que seguia sempre, após cruzar-se com a estrada, virado ao Cabeção
e ao Pousio. Depois, perdia-se pelos atalhos e serventias do Arneiro Meão. Sei
bem o que estou a dizer. Mas, porém. Enquanto estive no Ribeiro da Horta, passaram-se
coisas que nem lembram ao mais pintado dos diabos. A A17 obrigou-me a parar
aqui onde estou, porque a estradita por onde eu vinha ficou-lhe por debaixo,
abacelada, de fora do mapa. Esse ramalzito ficou desexistido. E fizeram uma
ponte com duas saídas lá em cima.….”
[Idalécio Cação]
(Texto subversivo e inédito)
quarta-feira, novembro 14, 2012
A muralha da China
A muralha da China
….” O que eu quero é deixar contadas aqui as horas em que
todos vivíamos felizes, sem nada a impedir-nos de falarmos uns com os outros. Principalmente
os vizinhos de porta com porta, como sucedia comigo e o meu amigo compadre
Luzio. Mesmo assim, sabe-me bem voltar ao estribilho. Entoá-lo um pouco mais ou
menos é o meu desvelo, eis a questão. Ou o meu calvário, conforme. Lembro-me
bem, tão vizinhos que nós éramos todos, eu que o diga, que é difícil esquecer
esses pontos de verdade. Casas com casas, pinhais com pinhais, searas de pão
com searas de pão. O sol nascia sempre do mesmo lado, das bandas do castelo,
lembro-me como se fosse hoje, entre a casa da Maria Ferrita e o pinheiro do
Arménio. E o astro, a erguer-se na sua glória, floreava sobre as searas,
bafejava-as nas crescenças, poisava a sua luz nas folhas e nas espigas, até
aloirarem no tempo das colheitas.….”
[Idalécio Cação]
(Texto subversivo e inédito)
Ler é sempre uma coisa de respeito
….”Ler é sempre uma coisa de respeito, e tem de haver muito
silêncio para um homem não se perder na leitura e dar o tom mais conveniente às
notícias. Ler é como apanhar fruta numa árvore, colhê-la, e dá-la a comer a
quem não pode chegar lá acima. Agente recebe as palavras ouvidas, sempre com as
orelhas guiadas, não vá perder-se nem um grãozinho da leitura, nem o seu tom…….”
[Idalécio Cação]
(Texto subversivo e inédito)terça-feira, novembro 13, 2012
Omnia Sol Temperat - Carmina Burana (4) - Carl Orff
Omnia Sol Temperat
Omnia sol temperat
purus et subtilis,
novo mundo reserat
faciem Aprilis,
ad amorem properat
animus herilis
et iocundis imperat
deus puerilis.
Rerum tanta novitas
in solemni vere
et veris auctoritas
jubet nos gaudere;
vias prebet solitas,
et in tuo vere
fides est et probitas
tuum retinere.
Ama me fideliter,
fidem meam noto:
de corde totaliter
et ex mente tota
sum presentialiter
absens in remota,
quisquis amat taliter,
volvitur in rota.
Omnia Sol Temperat (tradução)
O sol aquece a tudo
puro e sutil,
Abril de novo revela
sua face ao mundo,
ao amor incita
a alma do homem,
e o deus pueril governa
sobre os prazeres.
Todo esse renascer
na festividade da primavera
e seu poder
nos convida a alegrar-nos,
mostra caminhos conhecidos,
e na tua primavera
é justo e leal
reteres teu amante.
Ama-me fielmente,
percebe a minha fidelidade
totalmente de coração
e de toda a mente,
estou presente
mesmo quando estou longe:
quem ama de tal modo
é torturado na roda.
segunda-feira, novembro 12, 2012
Deus, o ser imperfeito
Deus, o ser imperfeito
“”…. Segundo o missal que o padre
nos lê, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Sou ignorante e pouco ou
nada entendo destas coisas. Mas ainda assim, penso que Deus é um ser
imperfeito, tal qual o bicho criado por ele, que mata e rouba o seu semelhante,
que ateia a guerra e se vende por dinheiro, que é capaz das maiores tropelias.
Sabe-se, e já o ouvi dizer a gentes de muitas letras, que o homem é o lobo do
homem, e olhai que é bem verdade, penso eu, embora não saiba nada do mundo. Se
eu estou errado, e se desconheço certos porquês, que Deus me perdoe. ……”
[Idalécio Cação]
(Texto subversivo e inédito)
sexta-feira, novembro 09, 2012
quinta-feira, novembro 08, 2012
Sinais reveladores
O deus da finança que ninguém vê,
com os seus santos representantes sentados no alto do trono infalível e papal,
decreta destes as suas doutrinas e dogmas, exige penitências e persignações
através dos seus missionários, num proselitismo doutrinal constante, neste
actual maximizar das culpas dos servos e nobilizando os senhores da sua graça
divina. O novo cavaleiro do apocalipse revelador que aqui se mostra montado no
seu cavalo de cascos silenciosos, entrando pela porta dos fundos da casa,
paciente na espera no galgar dos nossos muros.
O medo invadiu os pinhais contaminados
de eucaliptos, tojos, silvas e matagais da Gândara, entra quintais adentro,
substituindo a invasão das areias dunares que em tempos idos, todoo os cultivos
abafavam, paulatinamente, ao sabor e capricho do vento mareiro.
Sinais demasiado reveladores.
terça-feira, novembro 06, 2012
Sol, o deus da Gândara.
Sol, o deus da Gândara.
Lembro-me bem: tão vizinhos que nós éramos todos. E sempre
saudando a manhã, e olhando-a de frente, com muita confiança e fé. Morávamos
perto uns dos outros, casas com casas, pinhais com pinhais, searas de pão com
searas de pão, no Brejo, em volta do nosso casal. O sol, ao abrir os olhos da
manhã, clareava de luz as nossas searas, e fazia-as medrar. E era o milho a
espipar, e o pão-macho, até aloirarem no tempo da colheita. O centeio não se ficava
atrás e botava a espiga, onde a gente em cachopos ia apanhar o dente-de-cão
para vendermos depois na loja do Zé Gadelheira. E amadureciam as uvas num tom
de mel: ou na cor de uva diagalves, ou da vale-de-alicante ou da moscatel. Um
deus tão muito bom e amigo das searas, o sol. Esse deus antigo, o sol que tudo
criava, parece ter-se esquecido de nós para sempre. Que já não tem o calor nem
o brilho desse tempo. O sol que tudo criava.
[Idalécio Cação]
(Texto subversivo e inédito)
segunda-feira, novembro 05, 2012
quarta-feira, outubro 31, 2012
À margem, para sempre
29 OUT 12
"Se isto não muda, parte da população ficará à margem para sempre". O aviso
é de Jorge Nuño, secretário geral da Cáritas Europa, em entrevista ao jornal
espanhol ABC.
"Em todo o lado", diz Jorge Nuño, "os pobres estão a ser esquecidos". O
secretário geral da Cáritas Europa acredita que a situação que conduziu a esta
crise está a levar ao limite a coesão social em toda a Europa. Mas ele não
aponta o dedo só a Bruxelas: "Quase sempre são os estados membros que tomam as
principais decisões e depois culpam Bruxelas". E lembra, a propósito, os enormes
esforços feitos para que, na Estratégia para 2020, cheia de objectivos
macroeconómicos e de defesa do ambiente, surgisse como um desafio europeu tirar
20 milhões de pessoas da pobreza. E Jorge Nuño partilha a expectativa de que, ao
contrário, o número de pobres aumente, na maior parte dos países da Europa,
incluindo a Alemanha.
Ele recorda o percurso das últimas três décadas: a Europa cresceu nos anos
80, expandindo uma sociedade de bem estar, mas a partir dos anos 90 manteve esse
padrão aumentando a dívida pública, sem contrariar o aumento das desigualdades e
sem "garantir os meios para investir nas pessoas e assegurar uma economia
sustentável, sobretudo na educação. Quando chegaram as medidas de ajustamento,
os mais prejudicados foram os mais fracos".
Este sinal de alarme do secretário geral da Cáritas Europa surge uma semana
depois de Ban Ki-Moon ter assinalado o Dia Internacional para a Erradicação da
Pobreza passando em revista os números da tragédia global.
25 mil pessoas morrem todos os dias em consequência da fome e da pobreza
(dados da FAO)
Mais de mil milhões de pessoas vivem actualmente na pobreza extrema.
Ban Ki-Moon constatou que no actual clima de austeridade económica "o
financiamento das medidas de luta contra a pobreza corre perigo". E contudo,
sublinhou o secretário geral da ONU, este "é precisamente o momento para
proporcionar aos pobres o acesso aos serviços sociais, à segurança económica, ao
trabalho decente e à protecção social. Só assim poderemos contribuir para uma
sociedade mais forte e próspera e não equilibrando os orçamentos à custa dos
pobres".
Agora, o secretário geral da Cáritas Europa avisa-nos: "Estamos muito perto
do limite. A situação da Grécia, com violência nas ruas, ou os protestos em
Espanha e Portugal, demonstram que se se continua a aplicar as receitas da
austeridade é a coesão social que se ressente". Jorge Nuño aponta o caso da
Islândia "onde foi a tomada a decisão de proteger primeiro os mais fracos,
repartindo o sofrimento até ao topo. Essa decisão estratégica não foi ainda
seguida pelo resto da Europa".
Nesse caso, o que é que ele prevê que aconteça? "Podemos deparar-nos com
25% de pobres e uma percentagem semelhante de pessoas com medo de perder tudo.
Metade da população começa a duvidar do modo como está a ser gerido o bem
comum".
Ora, conclui o secretário geral da Cáritas Europa, "se isto não muda, no
melhor dos casos haverá uma parte da população que ficará à margem, para
sempre".
Ainda intrigado com a expressão "no melhor dos casos", nem sei se pergunte
"por que é isto não muda?".
Fernando Alves escreve no português anterior ao acordo ortográfico.
Um concerto na escuridão
http://www.jn.pt/blogs/festivaisdeverao/archive/2012/10/30/j-225-esteve-num-concerto-com-escurid-227-o-completa.aspx
Um casal de músicos cegos do Mali vai estar em Lisboa para um concerto que promete ser inolvidável: vai decorrer na total escuridão, sem luzes ou focos no palco ou fora dele. A intenção de Amadou & Mariam, invisuais desde muito novos, passa por tentar que a assistência absorva a música da mesma forma que eles a ouvem e sentem. "Se não consegues ver, a tua percepção do som é mais apurada", afirmou Amadou Bagayoko, cantor de 58 anos cego desde os 16.
O espetáculo intitula-se "Eclipse" e terá lugar no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a 18 de Novembro, um domingo, às 19 horas. Prevê-se uma experiência sensorial assinalável. Até as luzes de "saída de emergência" estarão apagadas. Além da ausência de qualquer luz, os nossos sentidos serão exacerbados com a propagação de aromas no ar. Consta que a sala será perfumada com um odor que recria o cheiro a terra quente de Bamako, a capital do Mali. Mais ainda: a percepção da temperatura ambiente também vai oscilar entre 15 e 30 graus celsius.
É claro que um espetáculo desta natureza acarreta medidas exepcionais. Por exemplo, toda a equipa de sala vai estar equipada com um sistema de visão noturna. "Em caso de emergência, desconforto, indisposição ou desorientação que provoque a necessidade de sair da sala, deverá o espetador agitar o programa no ar. Um assistente irá imediatamente ao seu encontro e prestará o auxílio necessário", lê-se no site da Fundação. Além disso, e "para garantir o êxito do espetáculo", afigura-se obrigatório respeitar determinadas regras: sacos, malas e casacos devem ser deixados no bengaleiro; "todos os equipamentos passíveis de emitir luz, som ou vibração (telemóveis, relógios, etc.) deverão estar desligados e é absolutamente proibido "qualquer dispositivo de gravação vídeo ou som". Após o início do concerto, não será possível a entrada ou reentrada na sala.
"Eclipse" terá a duração de 75 minutos e apresentará um repertório que pretende contar o trajeto de vida e obra da dupla. Com mais seis músicos em palco (entre os quais, Mamadou Diabaté, primo do magnífico Toumani Diabaté), não vão faltar as canções mais emblemáticas, que na última década têm conquistado fãs em todo o planeta. Amadou & Mariam são das mais entusiasmantes propostas do continente africano e já colaboraram com nomes como Manu Chao ou Damon Albarn, dos Blur. Fazem uma espécie de pop colorida e soalheira temperada com ritmos tradicionais do Mali e aberta a ramificações várias.
Ainda há bilhetes à venda no site da Fundação Calouste Gulbenkian
domingo, outubro 28, 2012
Veris Leta Facies - Carmina Burana (3) - Carl Orff
Veris leta facies
mundo propinatur,
hiemalis acies
victa iam fugatur,
in vestitu vario
Flora principatur,
nemorum dulcisono
que cantu celebratur.
Flore fusus gremio
Phebus novo more
risum dat, hoc vario
iam stipate flore.
Zephyrus nectareo
spirans in odore.
Certatim pro bravio
curramus in amore.
Cytharizat cantico
dulcis Philomena,
flore rident vario
prata iam serena,
salit cetus avium
silve per amena,
chorus promit virginum
iam gaudia millena.
quinta-feira, outubro 25, 2012
quarta-feira, outubro 24, 2012
terça-feira, outubro 23, 2012
Eccehomo
http://lounge.obviousmag.org/luelmos/2012/10/eccehomo.html?fb_comment_id=fbc_162828257191950_425402_162964363845006#fae20f487dcd7a

Muitos consideraram-no um atentado 'terrorista'. Além de arruinar um fresco original do século XIX, dificilmente recuperável, Cecília atentou também à moralidade e religiosidade de muitos. Sendo ela apenas e não mais que uma paroquiana devota, sem qualquer formação na área de restauro, e não tendo o aval colectivo dos demais paroquianos para o efeito, Cecília, ainda assim, pegou nos seus pincéis e tintas e tentou recuperar o Cristo que há muito, segundo ela, estava em decadência.
A intenção seria boa, não fosse o seu pouco ou nenhum talento para a representação figurativa e tendo transformado “Eccehomo” numa pintura digna de uma menina de 5 anos. Feições distorcidas, volumetria perdida e cores empasteladas, cobrindo totalmente a pintura original, a igreja da Misericórdia perde para sempre uma das suas obras mais emblemáticas. Acto este cujo autor original, Elias Garcia, não haveria de ter aprovado.
Mas este peculiar e deformado Cristo está agora numa das paredes mais visíveis da igreja, que é já destino de centenas de curiosos.
Contudo, se por um lado houve milhares de pessoas que ‘crucificaram’ o acto de Cecília, por outro lado, houve milhares que se regozijaram com ele. Afinal de contas, deu que falar.
Em Espanha, e não só, muitos pedem que a obra se mantenha como actualmente se encontra. De entre as muitas considerações, a opinião generalizada é de que se tratou de uma acto ingénuo, nascendo dele uma obra ao estilo ‘naif’, que em poucos instantes se tornou, igualmente, em Pop Art. Canecas, t-shirts, posters, e os mais variados objectos, surgiram com o novo "Eccehomo". O Facebook foi invadido por brincadeiras, piadas e dissertações sobre o acontecimento. E o local que anteriormente era visitado apenas por paroquianos locais e turistas ocasionais, enche-se agora de gente de todos os lados, em busca do tal novo "Eccehomo".
Matisse terá dito que a exactidão não é a 'verdade', “Temos que ver a vida como se fossemos meninos”; Picasso proclamou “ Um quadro bom no meio de quadros maus acaba por se transformar num mau quadro. E um quadro mau no meio de quadros bons acaba por se tornar um bom quadro.” Já Andy Warhol, o pai da Pop Art, dizia que nunca se poderia prever o tipo de reacções emocionais que determinadas obras provocariam no público, e que o valor das mesmas estava nessa não-antevisão do futuro e nas reacções emocionais, positivas ou negativas, que surgiriam, “O importante é criar vida.”
Um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não têm necessidade, mas que ele, por qualquer razão, pensa ser uma boa ideia oferecer-lhes. Cecília terá sido guiada por esta premissa. Talvez não seguindo um pensamento artístico, mas por um sentimento religioso de preservar a imagem do seu ídolo.
Se ela pode ser considerada artista ou não, está no livre julgamento de cada um, se ela deve ser julgada por ter destruído uma obra já existente, estará, igualmente, no livre julgamento de cada um. Se ela merece reconhecimento e futuros ganhos pela obra produzida já é mais controverso, pois ainda correremos o risco de ser invadidos por restauradores autodidactas em busca dos seus 5 minutos de fama e de perdermos muitas obras valiosas.
Contudo, rir faz bem. E ela, por certo, conseguiu, intencionalmente ou não, o riso de muitos. E conseguiu também eternizar as já eternizadas questões: “O que é Arte?” e “O que é moral?”.
Eccehomo
por Ana Luelmo em 23 de out de 2012 às 01:27
Cecília Gimenez, uma mulher espanhola de 81 anos, esteve debaixo dos holofotes da comunicação social durante várias semanas após ter arruinado, segundo uns, ou recriado, segundo outros, um fresco do século XIX, que representava Jesus Cristo, “Eccehomo”, na igreja da Misericórdia, em Borja, Zaragoza. Muitos consideraram-no um atentado 'terrorista'. Além de arruinar um fresco original do século XIX, dificilmente recuperável, Cecília atentou também à moralidade e religiosidade de muitos. Sendo ela apenas e não mais que uma paroquiana devota, sem qualquer formação na área de restauro, e não tendo o aval colectivo dos demais paroquianos para o efeito, Cecília, ainda assim, pegou nos seus pincéis e tintas e tentou recuperar o Cristo que há muito, segundo ela, estava em decadência.
A intenção seria boa, não fosse o seu pouco ou nenhum talento para a representação figurativa e tendo transformado “Eccehomo” numa pintura digna de uma menina de 5 anos. Feições distorcidas, volumetria perdida e cores empasteladas, cobrindo totalmente a pintura original, a igreja da Misericórdia perde para sempre uma das suas obras mais emblemáticas. Acto este cujo autor original, Elias Garcia, não haveria de ter aprovado.
Mas este peculiar e deformado Cristo está agora numa das paredes mais visíveis da igreja, que é já destino de centenas de curiosos.
Contudo, se por um lado houve milhares de pessoas que ‘crucificaram’ o acto de Cecília, por outro lado, houve milhares que se regozijaram com ele. Afinal de contas, deu que falar.
Em Espanha, e não só, muitos pedem que a obra se mantenha como actualmente se encontra. De entre as muitas considerações, a opinião generalizada é de que se tratou de uma acto ingénuo, nascendo dele uma obra ao estilo ‘naif’, que em poucos instantes se tornou, igualmente, em Pop Art. Canecas, t-shirts, posters, e os mais variados objectos, surgiram com o novo "Eccehomo". O Facebook foi invadido por brincadeiras, piadas e dissertações sobre o acontecimento. E o local que anteriormente era visitado apenas por paroquianos locais e turistas ocasionais, enche-se agora de gente de todos os lados, em busca do tal novo "Eccehomo".
Matisse terá dito que a exactidão não é a 'verdade', “Temos que ver a vida como se fossemos meninos”; Picasso proclamou “ Um quadro bom no meio de quadros maus acaba por se transformar num mau quadro. E um quadro mau no meio de quadros bons acaba por se tornar um bom quadro.” Já Andy Warhol, o pai da Pop Art, dizia que nunca se poderia prever o tipo de reacções emocionais que determinadas obras provocariam no público, e que o valor das mesmas estava nessa não-antevisão do futuro e nas reacções emocionais, positivas ou negativas, que surgiriam, “O importante é criar vida.”
Um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não têm necessidade, mas que ele, por qualquer razão, pensa ser uma boa ideia oferecer-lhes. Cecília terá sido guiada por esta premissa. Talvez não seguindo um pensamento artístico, mas por um sentimento religioso de preservar a imagem do seu ídolo.
Se ela pode ser considerada artista ou não, está no livre julgamento de cada um, se ela deve ser julgada por ter destruído uma obra já existente, estará, igualmente, no livre julgamento de cada um. Se ela merece reconhecimento e futuros ganhos pela obra produzida já é mais controverso, pois ainda correremos o risco de ser invadidos por restauradores autodidactas em busca dos seus 5 minutos de fama e de perdermos muitas obras valiosas.
Contudo, rir faz bem. E ela, por certo, conseguiu, intencionalmente ou não, o riso de muitos. E conseguiu também eternizar as já eternizadas questões: “O que é Arte?” e “O que é moral?”.
domingo, outubro 21, 2012
quinta-feira, outubro 18, 2012
Fortune Plango Vulnera - Carmina Burana (2) - Carl Orff
Fortune plango vulnera
stillantibus ocellis
quod sua michi munera
subtrahit rebellis.
Verum est, quod legitur,
fronte capillata,
sed plerumque sequitur
occasio calvata.In Fortune solio
sederam elatus,
prosperitatis vario
flora coronatus;
quicquid enim florui
felix et beatus,
nunc a summo corrui
gloria privatus.
Fortune rota volvitur:
descendo minoratus;
alter in altum tollitur;
nimis exaltatus
rex sedet in vertice
caveat ruinam!
nam sub axe legimus
Hecubam regina
O Fortuna - Carmina Burana (1) - Carl Orff
O fortuna,
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis;
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem,
Egestatem,
Potestatem
Dissolvit ut glaciem.
Sors immanis
Et inanis,
Rota tu volubilis
Status malus,
Vana salus
Semper dissolubilis,
Obumbrata
Et velata
Michi quoque niteris,
Nunc per ludum
Dorsum nudum
Fero tui sceleris.
Sors salutis sorte,
Et virtutis
Michi nunc contraria,
Est affectus
Et defectus
Semper in angaria;
Hac in hora
Sine mora
Corde pulsum tangite,
Quod per sortem
Sternit fortem
Mecum omnes plangite.
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