(...) O sol começa a apertar e os homens, esbraseados do lume e da bola que os desafia, atiram-se às ondas, geladas de rachar neste mar, em algaraviada viril para espantar o frio que corta o fôlego e enregela os ossos. Alguns, a bater o dente, chegam cá acima e são cachorros vadios a sacudirem-se nelas, que não meteram o pezinho friolento na água mas a quem, pois todas gostam de o ter regado, estes respingos de mar, assim atirados nas carnaduras que o fato de banho não cobre, arrepiam e queimam. Agradecem a afronta com ais fingidos e as hormonas à solta forçam-nos a enlear-se em guerras corpo a corpo a que só dão tréguas quando eles batem em retirada a caminho do oceano para arrefecer outros afogueamentos, mais encapelados do que as vagas, capazes de denunciar as intenções de um homem. Um olhar cúmplice de Mário certificou o meu entendimento destas campanhas de arrulhar travadas no areal.
(...)
À volta da fogueira o calor esquenta e a cerveja atiça a língua macharrona do pessoal. Aquilo não é nenhum velório e o livro bíblico afiança ser o vinho que alegra o coração do homem. Aquela, a cerveja, ou este, o tinto, tanto faz, que são simbólicos os versículos sagrados, e por agora o palhinhas Bairradino, dom divino, dizem-me, refresca, enterrado na areia rente à orla de espuma da maré vazante à espera do almoço. Gargalo de fora não vá a malta perder-lhe o rasto. Os homens mais velhos do ajuntamento estão atentos ao fogo. São eles a geração guardiã de um legado regional gastronómico que há-de datar de antanho, da primeira gente arribadiça a esta indómita costa. Pé no barco, pé na terra, este Homem do coração do litoral gandarês, evocado por Almeida Garret, endireita as costas dobradas à enxada e a um chão maninho, raso como a palma da mão, de onde arranca as batatas e os grelos de nabo, para as vergar ao desafio do oceano que lhe há-de esmolar, mãos-largas pela ousadia, fartura de peixe. Os bois puxam a rede que se abre num mar de carapau e sardinha a saltar da malha do saco para a fogueira de trangalhos recolhidos da mata de pinheiros bravos, logo ali, a fixar as areolas da costa e, do brasido, que escaldou a areia, cuja quentura há-de assar as batatas roleiras, grelha-se o peixe e aferventam-se os grelos que as acompanham. Tradição secular e curiosa esta das batatas assadas na areia a acompanhar o pescado, casamento da terra com o mar, que os seniores, patriarcas do clã, vão executando. Não há espinhas nos seus gestos seguros, emanados dos saberes dos seus maiores, que, passada que é uma hora, apresentam as ditas batatas estaladiças, capazes de embebedar-se no azeite frito com alhos que entretanto as mulheres prepararam. No ritual que homenageia a genuinidade, os mais novos são discípulos atentos que hão-de assegurar-lhe a continuidade. Demonstrada, aliás, pela dúvida interessada de um deles quando a mão de mestre de um veterano lhe estende um tubérculo a estalar e com o sal no ponto quando ninguém lhe juntara uma pitada sequer. A explicação, professoral foi pronta e eu não teria feito melhor: então o menino não sabe que o mar, na sua eterna aliança com a areia, a impregna do sal com que ela agora tempera estas batatinhas? Aprende rapaz que os velhos não duram para sempre…
De uma furgoneta de caixa aberta, que a vista de tanto braço disponível para um empurrãozinho fez afoitar pela areia solta, improvisa-se a cozinha e a mesa de apoio e, dos costaneiros que o mar dá à costa, atamancam-se bancadas. Mesmo os mais arredios se encostam, que a hora de dar ao dente é sempre boa, e cada um se desenrasca. Amesendemos! Sirvo-me desta terra que me cabe toda no prato e me sabe divinamente. A mesa concilia e até um ou outro conviva, e as já referenciadas peruas, mandam às malvas a etiqueta e se deixam arrastar pela vaga esfusiante que, amainada a larica maior, vai varrendo o areal.
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Silvério Manata
in
Arneiro do Mar













































